edição n.º 19 |
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entrevista
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rui ângelo araújo e carlos chaves |
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José Leon Machado
Com o Projecto Vercial [ver reportagem] José Leon Machado
não interrompeu a sua carreira académica nem o seu labor de escritor. Prepara o doutoramento, como já se
disse, mas também novas edições. É nessas condições, de professor e de escritor, que
Leon Machado fala na entrevista que se segue.
Como é que um bracarense se fixa em Trás-os-Montes (Chaves) e de que maneira é que
se envolve com as coisas e a literatura da região?
Vim dar aulas para Chaves e fui ficando e fazendo cá as coisas. Estando cá, vi-me como que
obrigado a conhecer quem é que escreve alguma coisa em Trás-os-Montes. Relaciono-me um bocado com os escritores
daqui, pelo menos com alguns. O António Cabral, o Pires Cabral, o Bento da Cruz. Qualquer pessoa ligada à literatura
a nível nacional os conhece.
Acha que a escrita deles é regionalista?
A do Pires Cabral é. A do António Cabral é também regionalista mas tem também
um pendor mais... cosmopolita. Embora tenha laivos de regionalismo. Mas isso não é negativo.
Não é um handicap em termos de projecção?
Isso pode prejudicar em alguma medida o escritor. O Torga foi prejudicado por isso. Hoje ninguém
lê o Torga.
Mas o que acontece é que nós vivemos até ao 25 de Abril num mundo rural. Portugal era uma
aldeia. E de que é que os escritores falavam? Falavam da aldeia. Noventa por cento dos escritores falavam sobre a aldeia.
Poucos falavam da cidade. Eça é um caso raro. Camilo falava da aldeia. Mesmo Eça ao descrever Lisboa
descrevia-a como uma aldeia. Ele achava que era uma aldeia, que eram todos uns patuscos... Só a partir do 25 de Abril
é que começou a haver uma literatura citadina, digamos assim. Portanto, os autores de antes do 25 de Abril
estão marcados por isso.
Depois de O Guerreiro Decapitado tem no prelo um livro precisamente sobre a aldeia, não
é?
O meu próximo livro (Fluviais) são contos da aldeia. Agora, eu sou um indivíduo da
cidade. Quando Torga escreve os seus contos, ele viveu-os, está a escrever sobre o que viveu. Quando eu escrevo, embora
conheça as aldeias, sou um indivíduo que está fora. É por isso que os meus contos são uma
caricatura.
Não teme que o livro seja procurado mais pelos retratos da aldeia do que pela habilidade do escritor,
pelas suas qualidades?
Não sei, nunca pensei muito nisso. O meu livro é uma caricatura. São situações
caricatas. Trágicas também. Há sempre um facto verdadeiro que despoleta a história, mas algumas
são ficção. Quis abordar o fim da ruralidade e o fim dessas personagens das aldeias. Que eram personagens
ricas até, a nível humano, mas que acabaram com as cidades. As cidades criaram outras personagens, talvez
humanamente inferiores, menos ricas, mas que são diferentes. Já não andam com estrume já não
se misturam com os animais... As pessoas que estão na aldeia não vão gostar do livro. Mas eu também
não escrevi para essa gente. Escrevi para os que estão na cidade, para eles perceberem também um pouco como
era a aldeia. Mas caricaturei a aldeia.
Recentemente ganhou um prémio literário no Funchal com um conjunto de contos chamado Os
Incompatíveis. O que o distingue dos Fluviais?
São histórias de homens e mulheres que vivem na cidade. Tudo ficcionado. Os incompatíveis
são eles e elas.
Com qual das obras se identifica mais?
Com todas.
Se tivesse que escolher, qual publicaria?
— Talvez escolhesse os Fluviais. Este primeiro romance [O Guerreiro Decapitado, romance
histórico cuja acção se desenrola sob o domínio do romanos, no século I] tem um pouco a ver
com os Fluviais. É a história de um miúdo que abandona a aldeia para ir para a cidade. É a
fuga das aldeias para a cidade. Podia passar-se perfeitamente há dez, quinze anos atrás.
No fim desse livro a personagem regressa à aldeia e reconstrói-a. Isso é o projectar
dos desejos do autor?
Sim, um pouco. Nos Fluviais há também um pouco essas questão. O fim da aldeia. O
fim das personagens rurais.
Tendo nascido na cidade, identifica-se mais com o campo?
Não, eu identifico-me com a cidade. Gosto muito da aldeia, mas não me ponham estrume à
frente, ou o seu cheiro... Eu tenho um sentido idílico da aldeia. Lá está: o homem da cidade tem sempre um
sentido idílico da aldeia. É um sítio bonito com árvores, com sol, animais a pastar, erva, flores.
Mas depois, quando realmente vai lá, vê que não é bem assim, que há também bosta no meio
das estrada, que pode sujar os pés...
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Essa imagem idílica da aldeia foi criada. Salazar...
Nos Fluviais o Salazar aparece quase como uma figura tutelar. Agora que as aldeias estão quase
extintas, convém lembrar quem é que criou esse mito, que muito afectou o país a nível social,
económico...
No Diário do Minho e no Correio do Minho criou suplementos e fez crónicas e
crítica literária. No Letras & Letras online existem mais recensões e notas de
apresentação do que propriamente crítica literária. Porquê?
Com a idade começámos a ver que não podia ser assim. Não podemos atirar pedras
assim a torto e a direito. Começámos a apanhar nas orelhas. Não é impunemente que uma pessoa diz mal
de alguém.
Nós em Portugal somos de ódios. Quem me alertou para isso foi o Joaquim Matos [ex-director do
Letras & Letras em papel]: «Tu agora vais recriar o Letras & Letras, mas atenção, cuidado,
porque isto é uma fonte de ódios e de invejas. Vais criar inimigos, tem cuidado com o que escreves e cuidado com o
que os colaboradores dizem».
Mas a crítica é positiva e necessária, e aqui na região até falta.
Claro, a crítica é muito importante. A nível regional se não for eu a escrever...
Quando escrevo não faço juízos de valor muito exaltados nem muito críticos. A crítica
séria tem de ser assim.
Quais são as suas referências literárias?
São tantas... Eça, Camilo, Vergílio Ferreira e Saramago. Zola, Flaubert, Shakespeare...
A Bíblia, Homero e Virgílio...
De que lado se situa na polémica sobre Os Lusíadas?
Eu sou muito realista. Acabava com Os Lusíadas e com o Pessoa e outras obras no secundário.
No secundário não há maturidade para a cultura erudita. É como dar pérolas a porcos. Na
universidade é que devem aparecer.
E aqueles que não forem para a universidade? Há uma grande parte da população
que não vai contactar com obras como essa ou outras que se consideram de qualidade, importantes.
Por que é que o pacato povo português tem de saber quem é o Camões e o que
são Os Lusíadas? Já dizia o Fernando Pessoa: «a cultura não é para todos», a cultura
erudita. Não podemos obrigar toda a gente a gostar de música clássica.
E o que é que se lhes vai dar então?
É que as obras de qualidade são difíceis. Os miúdos vêem-se à nora
para ler aquilo. Aquilo não os entusiasma. Muitas vezes estraga-se o incentivo à leitura. Os miúdos devem
começar a ler coisas simples. O gozo pela leitura vai crescendo. A partir de determinada altura vamos tendo necessidade
de ler coisas mais importantes. Darmos aos miúdos de 14, 15 anos uma obra como Os Lusíadas é
desmotivá-los.
Camões e essas obras complicadas são cultura erudita, não são cultura popular.
É por isso que a literatura popular tem muito êxito, a música pimba tem êxito, o escritor pimba tem
êxito, as novelas pimba têm êxito... O povo gosta de coisas simples, que entenda. Depois, se ele entender essas
coisas simples, pode partir para coisas mais complicadas. Isto é a minha visão das coisas. E na escola devia ser assim.
Mas há uma parte (pequena, é certo) do público estudantil que já tem,
naturalmente, o gosto pela leitura aos quinze anos.
Esses são excepções.
Mas assim ainda vão ser mais excepções... Se não forem confrontados com essas
obras e não tiverem pais com boas referências, acabamos por perder essa pequena percentagem de excepções.
E por outro lado, não se cairá numa estupidificação do ensino secundário, que fará com
que os alunos cheguem à universidade sem conhecimentos mínimos?
Mas é que neste momento isso está a acontecer. Mesmo com os programas que há. Eles chegam
à universidade e não vêem nada. À excepção de um caso ou outro.
Então é uma desistência?
Eu acho que a questão é muito complicada. As escolas públicas são más. Os
bons alunos nos EUA, na Inglaterra, na França, na Espanha não vão para as escolas normais. Aqueles alunos
que sobressaem da média vão, desde cedo, para escolas especiais e são acompanhados duma forma diferente. A
"cambada", digamos assim, vai para a escola normal. Esses são a força de trabalho. A "elite" (e a "elite"
não significa os filhos dos ricos; a selecção, por exemplo nos EUA, é pelo mérito
próprio) vai para escolas especiais. Aqui em Portugal misturam tudo. Neste momento até os deficientes andam nas
escolas normais. É uma tentativa de integrar o deficiente. Mas isso é negativo porque o deficiente não
consegue aprender da mesma forma que aprende o outro.
Em Portugal é muito difícil um bom aluno alcançar aquilo que deseja. Porque tem de estar
à espera dos outros, perde muito tempo. E se estivesse numa escola especial...
É por isso que o nosso país não tem a mesma massa cinzenta que outros têm em
termos científicos, por exemplo?
Em Portugal começamos tudo muito tarde, muito lento... Porque a sociedade é lenta. Quando vou
ao estrangeiro e depois volto, chego aqui e vejo tudo muito lento, muito pacato.
A tentativa de democratizar o ensino pode ser perniciosa, negativa.
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Voltemos a Os Lusíadas. Ajudará substituir Os Lusíadas pelo Memorial
do Convento? O Memorial do Convento não é também uma obra difícil? E se, para acabar com
as obras difíceis, as substituem por obras más?
Pois... Mas uma coisa é literatura da escola e outra coisa é a literatura que a gente lê.
O miúdo tem que descobri-la, não é o professor. Tem de haver já uma certa sensibilidade na pessoa.
Agora esta conversa dava pano para mangas...
Como é que é o ambiente universitário na área da literatura na UTAD? Aquilo
parece um bocado morto, pelo menos cá para fora não transparece grande coisa.
(Eu pertenço à secção de linguística e não à
secção de literatura, embora tenha relações com a de literatura.) Parece-me que os docentes da
área de literatura têm escrito e feito um trabalho positivo na divulgação dos escritores transmontanos.
E onde é que o fazem?
Escrevem em várias revistas. Por exemplo, vão a um congresso e apresentam uma
comunicação sobre qualquer coisa, e isso é depois publicado nas actas do congresso, um calhamaço
enorme.
E a interacção com a comunidade para lá do mundo académico?
Na Secção de Linguística do Departamento de Letras da UTAD temos também pessoas
que estão ligadas à questão dos falares transmontanos, por exemplo. Há pessoas ligadas ao
Mirandês (ainda outro dia fizeram um curso de verão sobre o Mirandês em Miranda do Douro), tem-se feito
divulgação sobre os falares de Montalegre, eu próprio estou a trabalhar num livro que foi impresso aqui em
Chaves... Portanto acho que se está a fazer um bom trabalho dentro da própria região onde a universidade se
encontra.
E a escrita em jornais? Não é importante que a comunidade académica se revele?
Não tanto no sentido da divulgação (a preocupação não é a divulgação
de autores transmontanos), mas mais no sentido de se saber o que pensam de determinado assunto.
O problema é este: as pessoas não fazem isso porque isso não dá currículo.
Eu escrevo no Semanário Transmontano, mas para apresentar o meu currículo na universidade para subir na
carreira isso não serve para nada.
Há então uma preocupação exclusiva com a carreira?
Vale mais o artigo que eu publiquei neste calhamaço [das actas de um congresso na África do Sul]
do que a minha colaboração do ano inteiro no Transmontano (podem ser vinte ou trinta artigos). As pessoas
têm que pensar bem no seu futuro. Se elas sabem que não têm nenhuma contrapartida em publicar nos jornais,
sejam eles quais forem, não vão perder tempo a escrever artigos. Há um ou outro que faz por carolice.
A publicação de artigos em jornais não académicos entra assim tanto em conflito
com a publicação de artigos académicos?
É que uma pessoa não tem tempo para tudo.
Então estão quase exclusivamente ao seu serviço, e não ao serviço da
comunidade onde está inserida a universidade.
Exactamente. Os professores universitários têm que tratar obrigatoriamente da sua carreira, ou
não sobem. Põem-nos na rua. Se eles não fazem nada pelo currículo põem-nos na rua. Isto
é assim, se um indivíduo se deita à sombra da bananeira na universidade vai para a rua.
Mas noutros países a comunidade académica interage com a comunidade...
Mas em Portugal é assim.
Porquê?
A culpa não é dos professores. É do sistema. O sistema diz: "as regras são estas"...
Se se quiser subir, tem que se apresentar o currículo, e o currículo tem determinadas normas. "Dois artigos por ano
em revistas da especialidade e na área em que vai concorrer".
Não haverá um academismo demasiado fechado, com poucos reflexos?
É um pouco verdade. Agora, o problema é: porquê abrir-se à comunidade, o que
é que a comunidade quer da Universidade?
A comunidade provavelmente não sabe o que quer. É suposto os académicos iluminarem a
comunidade. No passado era assim, as "elites" serviam de luzes...
Nós todos os anos fazemos um congresso de literatura infantil. E é dos poucos eventos que
fazemos na UTAD que anima a comunidade da região transmontana. Este ano foi um congresso internacional, levaram-se
lá centenas de escolas, professores... Foi uma coisa que eu nunca tinha visto na UTAD. Até o próprio reitor
e vice-reitor ficaram espantados com a quantidade de gente que lá foi ver o congresso, ver os escritores, falar, ver as
instalações... Foi uma coisa muito interessante. Agora isso não devia ser só feito na área de
letras.
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Comentário
O Guerreiro Decapitado, de José Leon Machado, é a história de um rapaz que abandona
a aldeia para ir trabalhar numa quinta perto da cidade. Só que a aldeia é um castro, a quinta uma vila romana e a
cidade é Brácara Augusta no século I d. C., em tempo de ocupação romana da península
Ibérica.
No vale constrói-se uma urbe cheia de novidades, de melhores condições de vida, e o castro,
nas montanhas, arrasta um modo de vida pobre, difícil. O rapaz desce ao vale, como os rapazes das aldeias do século
XX desceram às cidades e rumaram ao estrangeiro.
Leon Machado envolveu em brumas históricas uma estória que poderia ser recente. Talvez por isso,
nos primeiros capítulos do romance só com algum custo nos sintamos transportados para a época onde o autor fez
desenrolar os acontecimentos. Uma cinegética e uma fauna demasiado actuais também não ajudam. Mas a
estória avança, a caracterização da época enriquece, a romanização dos pormenores
reforça-se, e acabamos por aceitar ser aquele o século primeiro.
Bórnio, o herói do livro, aprende latim e envolve-se com a filha do senhor da Vila Rufina. A coisa,
como não podia deixar de ser, provoca celeuma, e não tarda o rapaz vê-se a servir nas legiões romanas, em
terras longínquas. Só que aquilo que parecia um desterro é, apesar da distância a Lívia, aquela
que o ama, uma sorte para Bórnio. Por virtudes próprias e necessidades da tropa romana, o indígena é
espantosa e sucessivamente promovido: depois de passar por decurião, optio e centurião, quando regressa vem
graduado em tribuno. Estar-lhe-iam abertas as portas da felicidade, pensa o leitor. Mas Lívia casou (ainda que contrafeita),
os romanos não vêem com bons olhos os privilégios tribunícios do autóctone e conspiram para o
prejudicar, a Bórnio assaltam-no remorsos por ter abandonado o castro...
O Guerreiro Decapitado tem a intenção simbólica do confronto cultural entre a cidade
e a aldeia (o passado e o futuro?), aquele que opõe uma cultura emergente e esplendorosa (logo atraente) a uma cultura
anciã e indefesa (portanto condenada). Neste conflito é notório o partido do autor: Bórnio, frustrado,
regressa à aldeia (ao castro), une-se a uma conterrânea, e predispõe-se, com o seu quê de quixotesco, a
dar novo fôlego ao povoado que o viu nascer.
Distante, para o bem e para o mal, de Quo Vadis, Fabíola e obras afins, o romance
está bem arquitectado. As estórias que o preenchem são cativantes, bem humoradas, com um sabor bucólico
sem exageros estilísticos ou evocativos (a linguagem é chã, como disse António Cabral). Mas alguma
precipitação nos acontecimentos que antecedem o final, deixam, no entanto, a ideia que houve pressa em acabar a obra
ou inabilidade na prossecução narrativa.
O Guerreiro Decapitado não é um texto tão desprendido como Quatrocentos Mil
Sestércios, de Mário de Carvalho, mas não defrauda.
Rui Ângelo Araújo
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EITO FORA: transmontano sem preconceitos
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