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Uma velhíssima versão da História
Ex.mo Sr. Director,
Publicou o vosso jornal "Eito Fora", Edição de Julho de 2001, na sua página 15, (...)
uma velhíssima versão da História de Portugal, da autoria de um senhor chamado Vasco de Castro. A tese
não é original e já vem de há muito, e do leste europeu, no tempo em que ainda existiam barreiras e
muros em Berlim.
Não está em causa que esse senhor não possa ter, como tem, bizarrísimas opiniões
acerca da História de todos nós, nem que possa proferir como quiser, e nos moldes que quiser, tais opiniões. O
que está em causa são as intenções com que as disse. Os pelo menos as parece ter dito...
Não vamos perder tempo a desmentir o que esse senhor escreveu. O mérito de Camões e Pessoa,
a simbologia do amor de Pedro e Inês, o sebastianismo que, quer se queira quer não se queira, é um sentimento
bem português e... bem os Descobrimentos valem, e falam por si. Fazem de nós portugueses, para o bem e para o
mal. Estão na nossa raiz, na nossa cepa, no nosso sangue. E portanto não queremos perder tempo a desmentir, o que os
factos não deixam mentir.
Desde D. Afonso Henriques que se confirmou este sangue lusitano. Tão lusitano e tão distinto de
qualquer outro, que lutámos sempre (e bem) contra a inevitabilidade histórica que parecia ser a anexação
a Castela.
Mas vamos ao que interessa. A versão desse senhor da nossa História, para além de terceiro
mundista e saloia, típica dos que acham que o estrangeiro é sempre melhor que nós, tem também uma
origem muito definida e muitas vezes já identificada. Vem do internacionalismo marxista e leninista, apostado em
enfraquecer os sentimentos nacionais em favor de uma nova ordem mundial, de uma sociedade sem classes. Chamavam-lhe os
"amanhãs que cantam". Lembram-se?
Estamos a exagerar? Achamos que não. Numa época em que em Bolonha, milhares de manifestantes
vociferam palavras de ordem contra a globalização capitalista, certamente para gáudio desse senhor Vasco de
Castro, publica V. Exa, da autoria do sr. Vasco de Castro, uma versão da nossa História que tem o único e
claro objectivo de nos fazer chegar à conclusão que não passamos de herdeiros de um acaso e descendentes de
um louco. Tudo isso para que, quem sabe, nos possamos envergonhar de sermos portugueses e estarmos assim mais aptos a aceitar
federalismos, não europeus, mas quiçá, marxistas. Afinal de contas, apostado em conseguir uma outra
globalização, se nos permite, ainda pior.
É tão típico de uma certa esquerda querer fazer-nos acreditar que a nossa História
nada tem de bom, que já toda a gente conhece as intenções dessas teses. Ainda não se aperceberam que
esse género de coisas já não pega. Estão vistas e gastas.
Não somos, confessamos, adeptos de procurar no passado velhas glórias para iludir o presente.
Somos daqueles que queremos construir um presente, cada mais vez futuro, que honre o que ficou para trás.
Não temos vergonha dos heterónimos de Pessoa que são uma exaltação da
língua portuguesa, afinal, a nossa Pátria. Não temos vergonha desta ocidental praia (Pátria)
lusitana de Camões nem dos Mundos que demos ao Mundo. Muito menos podemos esquecer os exemplos de devoção
que nos deu a nossa História.
E é com estas convicções, com esta força que nos dá a História que
fizemos e fazemos, que estamos contra federalismos bacocos, globalizações pouco humanizadas e tendências
internacionalistas.
E proteger a nossa História é já, também, um passo para crescermos enquanto
país. Não é o único passo, bem o sabemos. Se calhar nem sequer será o determinante. Mas
queremos lembrar ao senhor Vasco de Castro que não conte connosco para sentirmos vergonha do que fomos, e do que somos.
Pela Concelhia de Chaves do CDS/PP
Mário Freitas
(Delegado Concelhio)
¤
Resposta de Vasco de Castro
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| Vasco por Vasco |
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Enfim... Seja... Uma resposta!
Sobre as zangadas linhas de quem vem aqui a terreiro tentar chamuscar-me (os autos-de-fé, uff!...
já se foram e até a Pide também!, que alívio!...) e sobre tanta parolice contentinha e patrioteira nada
tenho a opor, já que ela se basta a si própria. Haja saúde!... E adiante que se faz tarde.
Todavia (e há sempre um impertinente "todavia, contudo..."), os meus delicados e bravos Amigos do EITO
FORA, mais os muitos que os lêem merecem melhor que a indiferente cuspidela p’ró lado do meu sincero apetite. Mesmo
que já tudo esteja dito e consabido. Enfim... seja!
O quidam que me toma à parte, tenho que o considerar nas exactas credenciais com que se
apresenta e com alguma pomposidade: as de "comissário político". E, ficamos esclarecidos, entendidos. O homem
não fala só por si, mas como oficial representante de clã identificado.
Brrr!!!... Se é pra assustar, terei mesmo que tremer face aos "galões" do quidam?!...
Ora batatas. Já os vi mais "gordos" e "anafados"...
Mas assim se percebem, sem mistérios, as asnáticas insinuações e
divagações do quidam... e vou tentar ser rápido.
Atrevidamente, logo pretende desqualificar-me com atribuições que, claro, de todo ignora (logo,
uma infâmia) e nunca foram minhas, como a de alguma conexão visceral ao outro lado do tal "muro de Berlim", quando
até fui dos que, modestamente mas muito conscientemente, fizeram tudo a seu tempo para o botar a baixo. Insiste o quidam
"comissário" na sua de me empurrar para filhote do Kremlin, produto "estrangeirado", logo a abater à vista como
porta-voz de anti-europeísmos daninhos, tipo Átila das estepes bárbaras, etc... etc... etc...!
O "comissário" ousa pategamente. Melhor prudência seria mais sábia para o guisado que
pretende vender. Mas já agora, e sobre o marxismo que insinua sem saber do que fala, o mais ingénuo alfabetizado
lhe diria que tal é uma invenção muito pouco moscovita, ou mongol, ou oriental, mas uma teoria de
filósofos alemães culturalmente europeus, da raiz central do ocidente... Anote os nomes e informe-se: Karl Marx e
F. Engels. Sabia?!...
Bom. A cartilha que destila é, está bom de ver, a caduca salazarista que deformou a
cabecinha de gerações de portugueses (e continua, parece...), onde a história pátria se deliciava
olimpicamente entre batalhas milagreiras, um destino divino, cavaleiros santificados e damas excelsas e protectoras...
Não lhe chegou ao bestunto que o reino de Portugal, antes de o ser, não era... senão um
território dominado por cavaleiros de origem francesa com conde do mesmo sangue, e depois outro filho de francês e
aragonesa, e assim durante toda a fundadora primeira dinastia, uns centos de anos!
Pior: a ideia de pátria não podia caber no entendimento de ninguém então,
estávamos em plena Idade Média, havia senhores feudais, donos da terra com servos fiéis e cavaleiros
mercenários ao seu serviço... A ideia de pátria, a de Portugal como hoje se entende, é uma
invenção muito posterior, e pronto!
Pior: a referência a Viriato como gene fundador da ideia Portugal é tão só...
uma anedota... muito difundida, e nada inocente, aliás, no longo consulado salazarista. O valoroso chefe guerreiro nasceu
em Mérida e tanto assentava arraiais por aqui como por ali, conforme as lutas de sobrevivência contra muçulmanos,
romanos e outras tribos hostis. Referir português quanto à época é uma tolice, apenas.
Resumindo: a conversa amável que houve com os meus excelentes Amigos do EITO FORA foi reproduzida em
síntese, naturalmente, mas fiel à essência do que foi dito. Nunca neguei a minha profunda (e desde os anos
40, imagine!) admiração por Fernando Pessoa que fui exprimindo por várias formas (até em filme feito
em Paris e que resta silencioso em bobines desde 1965). Idem por Camões e muitos, muitos outros que me favorecem o
oxigénio que respiro... e reconheço. Percebe?!
Não adianto mais, ainda que muito houvesse para dizer... Os espíritos avisados saberão
encontrar e decidir do que se trata, afinal.
Enfim, por mim já esqueci este mínimo episódio ridículo de um Portugal jarreta,
balofo e bolorento que nunca mais nos larga as canelas... Larga!
Haja saúde!
Fontanelas, 18 Set., 2001
Vasco de Castro
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