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apartado 51
TEXTO: mário freitas (carta) & vasco (resposta)
ILUSTRAÇÃO: vasco


Uma velhíssima versão da História


Ex.mo Sr. Director,


Publicou o vosso jornal "Eito Fora", Edição de Julho de 2001, na sua página 15, (...) uma velhíssima versão da História de Portugal, da autoria de um senhor chamado Vasco de Castro. A tese não é original e já vem de há muito, e do leste europeu, no tempo em que ainda existiam barreiras e muros em Berlim.

Não está em causa que esse senhor não possa ter, como tem, bizarrísimas opiniões acerca da História de todos nós, nem que possa proferir como quiser, e nos moldes que quiser, tais opiniões. O que está em causa são as intenções com que as disse. Os pelo menos as parece ter dito...

Não vamos perder tempo a desmentir o que esse senhor escreveu. O mérito de Camões e Pessoa, a simbologia do amor de Pedro e Inês, o sebastianismo que, quer se queira quer não se queira, é um sentimento bem português e... bem os Descobrimentos valem, e falam por si. Fazem de nós portugueses, para o bem e para o mal. Estão na nossa raiz, na nossa cepa, no nosso sangue. E portanto não queremos perder tempo a desmentir, o que os factos não deixam mentir.

Desde D. Afonso Henriques que se confirmou este sangue lusitano. Tão lusitano e tão distinto de qualquer outro, que lutámos sempre (e bem) contra a inevitabilidade histórica que parecia ser a anexação a Castela.

Mas vamos ao que interessa. A versão desse senhor da nossa História, para além de terceiro mundista e saloia, típica dos que acham que o estrangeiro é sempre melhor que nós, tem também uma origem muito definida e muitas vezes já identificada. Vem do internacionalismo marxista e leninista, apostado em enfraquecer os sentimentos nacionais em favor de uma nova ordem mundial, de uma sociedade sem classes. Chamavam-lhe os "amanhãs que cantam". Lembram-se?

Estamos a exagerar? Achamos que não. Numa época em que em Bolonha, milhares de manifestantes vociferam palavras de ordem contra a globalização capitalista, certamente para gáudio desse senhor Vasco de Castro, publica V. Exa, da autoria do sr. Vasco de Castro, uma versão da nossa História que tem o único e claro objectivo de nos fazer chegar à conclusão que não passamos de herdeiros de um acaso e descendentes de um louco. Tudo isso para que, quem sabe, nos possamos envergonhar de sermos portugueses e estarmos assim mais aptos a aceitar federalismos, não europeus, mas quiçá, marxistas. Afinal de contas, apostado em conseguir uma outra globalização, se nos permite, ainda pior.

É tão típico de uma certa esquerda querer fazer-nos acreditar que a nossa História nada tem de bom, que já toda a gente conhece as intenções dessas teses. Ainda não se aperceberam que esse género de coisas já não pega. Estão vistas e gastas.

Não somos, confessamos, adeptos de procurar no passado velhas glórias para iludir o presente. Somos daqueles que queremos construir um presente, cada mais vez futuro, que honre o que ficou para trás.

Não temos vergonha dos heterónimos de Pessoa que são uma exaltação da língua portuguesa, afinal, a nossa Pátria. Não temos vergonha desta ocidental praia (Pátria) lusitana de Camões nem dos Mundos que demos ao Mundo. Muito menos podemos esquecer os exemplos de devoção que nos deu a nossa História.

E é com estas convicções, com esta força que nos dá a História que fizemos e fazemos, que estamos contra federalismos bacocos, globalizações pouco humanizadas e tendências internacionalistas.

E proteger a nossa História é já, também, um passo para crescermos enquanto país. Não é o único passo, bem o sabemos. Se calhar nem sequer será o determinante. Mas queremos lembrar ao senhor Vasco de Castro que não conte connosco para sentirmos vergonha do que fomos, e do que somos.


Pela Concelhia de Chaves do CDS/PP
Mário Freitas
(Delegado Concelhio)


¤

Resposta de Vasco de Castro


autocaricatura de Vasco
Vasco por Vasco

Enfim... Seja... Uma resposta!


Sobre as zangadas linhas de quem vem aqui a terreiro tentar chamuscar-me (os autos-de-fé, uff!... já se foram e até a Pide também!, que alívio!...) e sobre tanta parolice contentinha e patrioteira nada tenho a opor, já que ela se basta a si própria. Haja saúde!... E adiante que se faz tarde.

Todavia (e há sempre um impertinente "todavia, contudo..."), os meus delicados e bravos Amigos do EITO FORA, mais os muitos que os lêem merecem melhor que a indiferente cuspidela p’ró lado do meu sincero apetite. Mesmo que já tudo esteja dito e consabido. Enfim... seja!

O quidam que me toma à parte, tenho que o considerar nas exactas credenciais com que se apresenta e com alguma pomposidade: as de "comissário político". E, ficamos esclarecidos, entendidos. O homem não fala só por si, mas como oficial representante de clã identificado.

Brrr!!!... Se é pra assustar, terei mesmo que tremer face aos "galões" do quidam?!... Ora batatas. Já os vi mais "gordos" e "anafados"...

Mas assim se percebem, sem mistérios, as asnáticas insinuações e divagações do quidam... e vou tentar ser rápido.

Atrevidamente, logo pretende desqualificar-me com atribuições que, claro, de todo ignora (logo, uma infâmia) e nunca foram minhas, como a de alguma conexão visceral ao outro lado do tal "muro de Berlim", quando até fui dos que, modestamente mas muito conscientemente, fizeram tudo a seu tempo para o botar a baixo. Insiste o quidam "comissário" na sua de me empurrar para filhote do Kremlin, produto "estrangeirado", logo a abater à vista como porta-voz de anti-europeísmos daninhos, tipo Átila das estepes bárbaras, etc... etc... etc...!

O "comissário" ousa pategamente. Melhor prudência seria mais sábia para o guisado que pretende vender. Mas já agora, e sobre o marxismo que insinua sem saber do que fala, o mais ingénuo alfabetizado lhe diria que tal é uma invenção muito pouco moscovita, ou mongol, ou oriental, mas uma teoria de filósofos alemães culturalmente europeus, da raiz central do ocidente... Anote os nomes e informe-se: Karl Marx e F. Engels. Sabia?!...

Bom. A cartilha que destila é, está bom de ver, a caduca salazarista que deformou a cabecinha de gerações de portugueses (e continua, parece...), onde a história pátria se deliciava olimpicamente entre batalhas milagreiras, um destino divino, cavaleiros santificados e damas excelsas e protectoras...

Não lhe chegou ao bestunto que o reino de Portugal, antes de o ser, não era... senão um território dominado por cavaleiros de origem francesa com conde do mesmo sangue, e depois outro filho de francês e aragonesa, e assim durante toda a fundadora primeira dinastia, uns centos de anos!

Pior: a ideia de pátria não podia caber no entendimento de ninguém então, estávamos em plena Idade Média, havia senhores feudais, donos da terra com servos fiéis e cavaleiros mercenários ao seu serviço... A ideia de pátria, a de Portugal como hoje se entende, é uma invenção muito posterior, e pronto!

Pior: a referência a Viriato como gene fundador da ideia Portugal é tão só... uma anedota... muito difundida, e nada inocente, aliás, no longo consulado salazarista. O valoroso chefe guerreiro nasceu em Mérida e tanto assentava arraiais por aqui como por ali, conforme as lutas de sobrevivência contra muçulmanos, romanos e outras tribos hostis. Referir português quanto à época é uma tolice, apenas.

Resumindo: a conversa amável que houve com os meus excelentes Amigos do EITO FORA foi reproduzida em síntese, naturalmente, mas fiel à essência do que foi dito. Nunca neguei a minha profunda (e desde os anos 40, imagine!) admiração por Fernando Pessoa que fui exprimindo por várias formas (até em filme feito em Paris e que resta silencioso em bobines desde 1965). Idem por Camões e muitos, muitos outros que me favorecem o oxigénio que respiro... e reconheço. Percebe?!

Não adianto mais, ainda que muito houvesse para dizer... Os espíritos avisados saberão encontrar e decidir do que se trata, afinal.

Enfim, por mim já esqueci este mínimo episódio ridículo de um Portugal jarreta, balofo e bolorento que nunca mais nos larga as canelas... Larga!

Haja saúde!


Fontanelas, 18 Set., 2001
Vasco de Castro


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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