ela parecia uma espécie de duende incógnito e inibido, irradiando energia armazenada. foi o que
me pareceu, e não me enganei muito. demorou meses a aperceber-me daquele tom de voz, a afeiçoar-me a ele. ainda para
mais, aquela voz tinha vários tons, como quase todas. quase, porque há vozes monotónicas, monocórdicas,
que parece que nunca se alteram. sendo assim, tudo começou por um tom de voz dentro de uma espécie de duende indeciso.
chamo-me Exaurida suares dos Prantos e possuo uma agência de suicídios ao domicílio. o meu nome
próprio vem daí mesmo, de estafada dos dias, de farta do vício de existir. é verdade, existir é
um vício como outro qualquer, sou viciada em ar, andar, e procriar, verbos que, nesta língua fantástica, terminam
todos em ar, tal como sofrer e trabalhar, calar, especialmente, calar.
nasci na aldeia, como muita gente, e sei que, dentro de algum tempo, pouca gente o dirá. as aldeias
estão a exaurir-se por inércia dos tempos, e o tempo não pára de se exaurir. estamos todos exauridos,
eu muito particularmente, porque me chamo Exaurida suares dos Prantos, trabalho dez horas por dia a lavar escadas, ganho uma
miséria, tenho cinco filhos, e um bêbado que me desanca regularmente.
tenho o mesmo nome, mas não lavo escadas. sou executiva. economista. tenho duas famílias, dois
filhos, sou divorciada e ganho bem. não o posso declarar factualmente por causa das finanças. possuo duas casas
com piscina, e outras sem, que me abstenho de referir. trabalho dez horas por dia, divididas por turnos, porque tenho que estar
atenta às bolsas do Japão e de Nova Iorque, além das europeias, claro, mas essas estão no horário
normal do contrato de trabalho.
este escritor procurava sempre uma ideia, escrevia estórias mentalmente. pensava em prosa, sonhava
por escrito, mas raramente se condenava no papel. os meus textos estão mais seguros na minha cabeça, não
quero perdê-los, e muito menos que os interpretem, hão-de ficar virgens, intocáveis, puros. pensava ele,
enquanto se etilizava nas sílabas que o denunciavam. não conseguia ser coerente, uma vez que, de tempos a tempos,
fraquejava, e escrevia.
também me chamo Exaurida suares dos Prantos, mas assino Exaur des Prés. estudei belas artes,
em Paris, e exponho regularmente um pouco por toda a europa. trabalho doze horas por dia, repartidas pelo estúdio e a vida.
o meu sonho era, um dia, poder guardar todas as minhas obras numa mala e transformá-las em arte portátil,
susceptível de ser transportada facilmente para qualquer parte do universo.
As anacrónicas servem-se em dose dupla: leia
também a anacrónica da Luísa Costa.