Tropecei hoje nesta palavra e fiquei pensativa. Não há dúvida que as palavras são o
que são mais o que a gente lhes acrescenta. Exaurida? Palavra bonita — pela escrita, pelo desenho das letras, aquele x
lembra-me arabescos, pela imagem que em mim recria, a profundeza de um vale seguida de um pico, paisagem de fim da tarde, tons
suaves, um rio a correr no meio da palavra, um sol a pôr-se, um silêncio prolongado. Não tem ar de palavra comum,
antes de nome próprio — nome de mulher com olhos magoados e tão forte isto é que, cá para mim, seria
natural dizer-se: sou Exaurida, a escrava do Senhor; e não, como convém: estou exaurida, assim, banalmente escrita
com letra minúscula, e sujeita ao estado físico ou psíquico de um mortal estourado. É o que se chama
despromoção. Também há quem dê cor às palavras, mas esse dom, nunca o senti. Rimbaud dava
cores às vogais, como toda a gente sabe, mas também há quem dê cores às palavras: para alguns
domingo é vermelho, o sábado amarelo, e por este andar a segunda deve ser cinzenta. Digo eu... Mas, voltando à
exaurida, tudo isto é fruto da associação de ideias, diz-me o meu lado compreensivo que é o mais
desgastante dos meus lados. Para ser sincera, penso que todos os meus lados são desgastantes — por isso, às vezes,
me é tão difícil viver comigo. Coisas de gente que vive muito consigo própria, e quando já
não se suporta, só lhe resta ser desagradável: ouve lá, ó tu de mim, e se fosses dar uma volta
e me deixasses em paz? Mas eu falava de associação de ideias. Então, exaurida é-me apercebida como nome
próprio por semelhança com Isaurinha, Adosinda, Isolinda, Ermesinda, Ermelinda, embora estas últimas tenham
um defeito de nasalação que as torna bem mais pesados. Também me soa mais natural entendê-la apenas como
palavra feminina, o masculino não calha tão bem. Tem alguma coisa de feminino e assim a quero — feminina, contra a
gramática; delicada que baste, subtil como um gesto, nimbada de fragilidade, cantante como um rio. Perfeita para uma
mulher. Embora nada disto constituam características exclusivas das mulheres, o grau de incidência, por
tradição ou destino ( este também dava que falar), é maior nelas que neles.
Confesso que consultei o dicionário — o geral e o de sinónimos. É uma prática
salutar esta de consultar dicionários, um pouco em desuso. O de sinónimos é um fartar vilanagem, o
montão de coisas que podem substituir outra coisa! Se nos habituássemos a variar o mesmo, a vida seria o que
é, mas diferente. O que torna as coisas muito mais coloridas e sem sobressaltos. Nós temos o péssimo
hábito de substituir as coisas oposto, se não é assim, é assado, e dá no que dá —
só confusão. Por isso, amo o Dicionário de Sinónimos — exaurida: quinze substituições.
Para uma palavra só, é obra! E uma lição de vida, como já tentei explicar. Felizmente que
esta é uma palavra pouco usual e espero que assim continue: guarda o mistério das coisas que estão por
revelar. Não pertence ao rol das pobres palavras quotidianas. Imaginem uma mulher que chega a casa, descalça os
sapatos, estende-se no sofá e diz num ar lânguido: estou exaurida. O que vai pensar a família? Uma mãe,
uma esposa exauridas! Era o que faltava!
Guardem-se as palavras certas para as ocasiões certas e, sobretudo, não abandalhemos! Uma
mãe de família é uma mãe de família e essa, nunca está exaurida. Há palavras
que são um luxo e assim se devem manter : luxuosas, abundantes, em reserva, como um néctar.
As anacrónicas servem-se em dose dupla: leia
também a anacrónica do Manuel Guimarães.