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reportagem [3]
TEXTO: luís c. teixeira
FOTOGRAFIAS: rui ribeiro


malha de jogar ao fito (fotografia de Rui Ribeiro)
Etnografia
De olho no fito


Indubitavelmente a ruralidade está na moda! E ainda bem!, apregoam alguns nostálgicos adormecidos pelo ar maternal da professora primária ou pelo chilrear constante dos passarinhos. Com que fim?, vociferam outros, atormentados pelo inchaço da mão, só porque espreitaram para o joelho da menina sentada na carteira do lado. Melodias de rouxinol? Só de manhãzinha, quando partia para a labuta; ou então, quando pegava na arma de pressão e pum!... Ou ainda na ratoeira e zás!...

Exemplos de um imaginário transmontano que interessa desmistificar. Porque só assim é possível iniciarmos, passo a passo, a construção de uma eventual identidade cultural. Concebida sem a promiscuidade de adultérios desnecessários, mas também com a certeza de que a felicidade não é eterna. O alicerce para tal ergue-se nas bases da ciência etnográfica, na medida que abarca o estudo dos povos quanto aos seus costumes, mentalidade, modo de vida e costumes.


O Jogo

È neste edifício de saberes que surge o jogo, como pilar fundamental do modus vivendi de qualquer comunidade. E sendo popular, resume significâncias socioculturais que podem auxiliar a prossecução de um estudo etnográfico de um país, região ou localidade. A importância do Jogo Popular (JP) explica-se por um conjunto de argumentos, que urge dissecar... Justificamos a antiguidade destes jogos pelos relatos oriundos da Grécia Antiga, pelo legado romano na Península Ibérica, pela transmissão oral registada por diferentes gerações e outro tipo de informações como, por exemplo, as obras de arte. Encontramos a tradicionalidade porque o jogo resulta de uma realidade social e cultural entranhada por sujeitos de uma forma sistemática e minimamente consistente. Torna-se uma manifestação de um acto que, ao enquadrar-se numa vivência histórica, passa a constituir uma parcela do património cultural. Como se o JP fosse uma disciplina-base da Universidade da Vida...1 Entendemos o carácter universal pelas similitudes existentes em diferentes jogos, quer nas finalidades como em regras e materiais utilizados. Independentemente da comunidade, região ou mesmo país! Percebemos através deles, fenómenos de aculturação já que, durante a transmissão dos conteúdos, o jogo, em si mesmo, sofre alterações quer pela comunidade onde ele é inserido quer pelas influências de gerações anteriores. Aliás, a variabilidade das regras em função da localidade ou região não deve ser encarada como um bicho-de-sete-cabeças. No caso particular da região transmontana verificamos, inclusive, diferentes grupos de pressão tipificados por ex-emigrantes, primeiro das antigas colónias e, depois da Europa. Neste âmbito cultural, acrescente-se ainda a dimensão sociológica patente no JP como elemento aglutinador de populações. Deste modo, combate o caos muitas vezes latente no quotidiano do homem do campo e satisfaz o desejo de convivência e de comunicação. Esquecer a má colheita ou rejubilar com o regresso de um familiar são exemplos, entre outros. «Jogar o fito é um meio de distracção».2 Finalmente, abordamos a questão da competitividade. Sendo fonte de alegria e prazer, é natural que o jogo termine em exibição ou em competição. Este contexto implica necessariamente uma uniformização de regras, o que pode levar a «uma certa descaracterização, mas por outro lado facilita a participação em igualdade de circunstâncias».3 Importa pois respeitar a sua essência ligada à realidade, ao quotidiano e ao prazer, ingénuo e descomprometido. Contudo, os torneios são ainda a forma mais eficaz de preservar o JP, por mais oneroso que seja... Hoje, aldeia apenas reúne esporadicamente os mais antigos em frente da tasca, na eira ou no baldio mais próximo. «Antigamente não jogava [o fito] apenas ao domingo».2 Acrescente-se igualmente que não existe, ainda, uma política institucional e associativa eficaz que garanta a transmissão de geração em geração dos jogos populares. Por outro lado a dimensão pedagógica destes está subaproveitada. Currículos ministeriais, escolas e professores ainda não equacionaram o JP como um recurso importante para a formação do jovem. E nem sequer são admitidos atenuantes porque o material "desportivo" é praticamente dispensável e os alunos podem confeccionar o seu próprio equipamento. Porque esperam professores de Educação Física, de História, de Educação Artística, de Português, de?...

Por tudo isto seria ingénuo vaticinar a extinção dos jogos populares só porque a globalização ataca desenfreadamente — certos jogos são abandonados por uma geração mas reactivados por outra, logo a seguir. Da mesma maneira que seria utópico acreditar que o JP deveria permanecer ligado à realidade ancestral. Isso apontaria para uma morte lenta!


Jogador de fito (fotografia de Rui Ribeiro) Jogador de fito (fotografia de Rui Ribeiro) Jogador de fito (fotografia de Rui Ribeiro) Jogador de fito (fotografia de Rui Ribeiro) Jogador de fito (fotografia de Rui Ribeiro) Jogador de fito (fotografia de Rui Ribeiro)


Do fito

O verdadeiro pretexto de tudo isto foi uma visita ao Torneio de Fito de Rio Bom (Valpaços). Porque em qualquer parte do Trás-os-Montes profundo o Jogo do Fito (JF) é um ritual. Expressões de sabedoria e entretenimento popular. Miradas que fitam o fito com seriedade mas também com carinho. De repente piscam-lhe o olho eivado de sensualidade. As mãos agarradas à natureza dura e agressiva da pedra. Soltam-se as amarras aprisionadas na alma e em cada ponta dos dedos. Corpos contorcidos e ideias desencarceradas seguem a malha. O fito. Alvo. De prazer. Júbilos e desilusões. Caradas e caretas. Nada é impossível no JF. Próxima jogada é já a seguir...

Sempre com malhas de pedra rija, aproveitada de muros de caminhos velhos ou do paralelo feito industrialmente pelas máquinas. Sem preconceitos! O peso também não conta. Pois o que interessa é o objecto adaptar-se à mão e ao corpo de cada herói. Arma de arremesso para atirar a lobos e cães vadios? «O Fito foi criado por pastores e boieiros».2 Quem fala assim já ganhou, individual e colectivamente, 21 torneios em 26 participações! Francisco Martins. Para ele não existem segredos pois basta ter vocação, praticar muito e não ter medo da natureza (quer dizer, das pedras). Mesmo assim adianta «a malha deve vir a girar sobre si própria» para garantir, no mínimo, o ponto. Pedra que venha esquinada mais medo tem do fito!
Jogador de fito (fotografia de Rui Ribeiro)

Mas o JF também é uma festa. Paralela! Conversas sobre as actividades agrícolas! Um bar improvisado para molhar gargantas secas! Um speaker esforçado em cima da camioneta. Mas podia ser um tractor! Uns ciganos atrevidos a fazer concorrência ao Fito através de um olhar sedutor! Ar de banqueiro que dispensa gravatas. Impossível resistir a uma jogatina no pucarinho (púcara, vermelhinha ou pirolita). Agita os dados no recipiente e até perdeu, mas o olhar não se alterou como se de um profissional se tratasse! São jogos populares! Ligados às festas do padroeiro ou da Santa. Não estranha pois que estas incluam o JF nos seus programas! Eis um forma de divulgação... Todavia seria interessante que estas associações e comissões de festa organizassem torneios destinados exclusivamente a jovens. Na pior das hipóteses, pelo menos, passariam a conhecer as regras básicas; na melhor provavelmente podiam treinar nas vésperas da competição. A concretizar esta última podemos platonicamente (ou não?!) pensar na prática regular ou na programação informática de um jogo do Fito. Estou a ver (não a jogar) o Terceiro Milénio marcada pelos Jogos "F" — Figo, a Lenda; FIFA, o Jogo e Fito, a Reencarnação!

Agora mais a sério, e para terminar! Tenho pena que o JF seja machista! Francisco apenas uma única vez viu dois pares de senhoras a participarem num Torneio de Fito! E, ainda por cima acabaram por desistir! Inventem-se regras para o feminino! Até porque antigamente as senhoras também guardavam ovelhas e vacas!

Bibliografia:
CABRAL, A., Jogos populares portugueses de jovens e adultos, Editorial Notícias, 3.ª ed., Lisboa, 1998
CABRAL, A., Teoria do Jogo, Editorial Notícias, Col. Pedagogia, 1990
FONTES, A. L., Etnografia Transmontana, Volume II, Editorial Domingos Barreira, Lisboa, 1992

Internet:
Universidade Estácio de Sá (Brasil)
Jornal Nordeste (Bragança)
Klickeducação (Brasil)

Notas:
1 Jogo Popular ou Jogo Tradicional? A. Cabral (1998) admite «que os jogos populares são tradicionais na sua maioria, o que é facilmente demonstrado pela etnografia e pela história». No entanto, «um dos jogos mais tradicionais, o Xadrez, não é popular». A excepção confirma a regra!
2 Francisco Martins. Jogador de fito. Reformado da Guarda Fiscal. Antes guardava o gado.
3 A. Cabral (1998) – "Jogos Populares Portugueses de Jovens e Adultos"


O campeão (fotografia de Rui Ribeiro)
O campeão

Fito à moda de Rio Bom – Valpaços

  • Categoria de Pares
  • Duas equipas de dois jogadores cada uma, colocando-se atrás de cada pino dois adversários
  • A distância entre os pinos é de 25 metros
  • Os pinos são um prego envolvido por um tubo plástico (altura aproximada de 10 cm)
  • A malha é de pedra (qualquer tipo) com peso variável
  • Os jogadores atiram ao pino, alternadamente, e começa o jogador que fizer o ponto na jogada preparatória
  • Cada ponto (malha mais próxima do pino) vale quatro e cada carada (derrube do pino) vale seis
  • Cada eliminatória tem três partidas
  • O jogo acaba aos 20 de cima – 40 pontos
  • Competição – VI Torneio em 10 de Junho de 2001
  • Prémios:
    • 1.º lugar - Dois cordeiros
    • 2.º lugar - Dois cabritos
    • 3. Lugar - Dois presuntos + Taças
  • Proveniência dos jogadores (87 pares no corrente ano): Valpaços, Chaves, Mirandela e Bragança

Nota: O pino recebe também aqui outras designações como binte, chino ou meco



lcteixeira@aeiou.pt

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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