Indubitavelmente a ruralidade está na moda! E ainda bem!, apregoam alguns nostálgicos
adormecidos pelo ar maternal da professora primária ou pelo chilrear constante dos passarinhos. Com que fim?, vociferam
outros, atormentados pelo inchaço da mão, só porque espreitaram para o joelho da menina sentada na carteira
do lado. Melodias de rouxinol? Só de manhãzinha, quando partia para a labuta; ou então, quando pegava na
arma de pressão e pum!... Ou ainda na ratoeira e zás!...
Exemplos de um imaginário transmontano que interessa desmistificar. Porque só assim é
possível iniciarmos, passo a passo, a construção de uma eventual identidade cultural. Concebida sem a
promiscuidade de adultérios desnecessários, mas também com a certeza de que a felicidade não é
eterna. O alicerce para tal ergue-se nas bases da ciência etnográfica, na medida que abarca o estudo dos povos
quanto aos seus costumes, mentalidade, modo de vida e costumes.
O Jogo
È neste edifício de saberes que surge o jogo, como pilar fundamental do modus vivendi de
qualquer comunidade. E sendo popular, resume significâncias socioculturais que podem auxiliar a prossecução
de um estudo etnográfico de um país, região ou localidade. A importância do Jogo Popular (JP)
explica-se por um conjunto de argumentos, que urge dissecar... Justificamos a antiguidade destes jogos pelos relatos oriundos da
Grécia Antiga, pelo legado romano na Península Ibérica, pela transmissão oral registada por
diferentes gerações e outro tipo de informações como, por exemplo, as obras de arte. Encontramos a
tradicionalidade porque o jogo resulta de uma realidade social e cultural entranhada por sujeitos de uma forma sistemática
e minimamente consistente. Torna-se uma manifestação de um acto que, ao enquadrar-se numa vivência
histórica, passa a constituir uma parcela do património cultural. Como se o JP fosse uma disciplina-base da
Universidade da Vida...1 Entendemos o carácter universal pelas similitudes existentes em diferentes
jogos, quer nas finalidades como em regras e materiais utilizados. Independentemente da comunidade, região ou mesmo
país! Percebemos através deles, fenómenos de aculturação já que, durante a
transmissão dos conteúdos, o jogo, em si mesmo, sofre alterações quer pela comunidade onde ele
é inserido quer pelas influências de gerações anteriores. Aliás, a variabilidade das regras em
função da localidade ou região não deve ser encarada como um bicho-de-sete-cabeças. No
caso particular da região transmontana verificamos, inclusive, diferentes grupos de pressão tipificados por
ex-emigrantes, primeiro das antigas colónias e, depois da Europa. Neste âmbito cultural, acrescente-se ainda a
dimensão sociológica patente no JP como elemento aglutinador de populações. Deste modo, combate o
caos muitas vezes latente no quotidiano do homem do campo e satisfaz o desejo de convivência e de
comunicação. Esquecer a má colheita ou rejubilar com o regresso de um familiar são exemplos, entre
outros. «Jogar o fito é um meio de distracção».2 Finalmente, abordamos a questão da
competitividade. Sendo fonte de alegria e prazer, é natural que o jogo termine em exibição ou em
competição. Este contexto implica necessariamente uma uniformização de regras, o que pode levar a
«uma certa descaracterização, mas por outro lado facilita a participação em igualdade de
circunstâncias».3 Importa pois respeitar a sua essência ligada à realidade, ao quotidiano e ao
prazer, ingénuo e descomprometido. Contudo, os torneios são ainda a forma mais eficaz de preservar o JP, por mais
oneroso que seja... Hoje, aldeia apenas reúne esporadicamente os mais antigos em frente da tasca, na eira ou no baldio
mais próximo. «Antigamente não jogava [o fito] apenas ao domingo».2 Acrescente-se igualmente que
não existe, ainda, uma política institucional e associativa eficaz que garanta a transmissão de
geração em geração dos jogos populares. Por outro lado a dimensão pedagógica destes
está subaproveitada. Currículos ministeriais, escolas e professores ainda não equacionaram o JP como um
recurso importante para a formação do jovem. E nem sequer são admitidos atenuantes porque o material
"desportivo" é praticamente dispensável e os alunos podem confeccionar o seu próprio equipamento. Porque
esperam professores de Educação Física, de História, de Educação Artística, de
Português, de?...
Por tudo isto seria ingénuo vaticinar a extinção dos jogos populares só porque a
globalização ataca desenfreadamente — certos jogos são abandonados por uma geração mas
reactivados por outra, logo a seguir. Da mesma maneira que seria utópico acreditar que o JP deveria permanecer ligado
à realidade ancestral. Isso apontaria para uma morte lenta!
Do fito
O verdadeiro pretexto de tudo isto foi uma visita ao Torneio de Fito de Rio Bom (Valpaços). Porque em
qualquer parte do Trás-os-Montes profundo o Jogo do Fito (JF) é um ritual. Expressões de sabedoria e
entretenimento popular. Miradas que fitam o fito com seriedade mas também com carinho. De repente piscam-lhe o olho eivado
de sensualidade. As mãos agarradas à natureza dura e agressiva da pedra. Soltam-se as amarras aprisionadas na alma
e em cada ponta dos dedos. Corpos contorcidos e ideias desencarceradas seguem a malha. O fito. Alvo. De prazer. Júbilos
e desilusões. Caradas e caretas. Nada é impossível no JF. Próxima jogada é já a seguir...
Sempre com malhas de pedra rija, aproveitada de muros de caminhos velhos ou do paralelo feito industrialmente
pelas máquinas. Sem preconceitos! O peso também não conta. Pois o que interessa é o objecto adaptar-se
à mão e ao corpo de cada herói. Arma de arremesso para atirar a lobos e cães vadios? «O Fito foi
criado por pastores e boieiros».2 Quem fala assim já ganhou, individual e colectivamente, 21 torneios em 26
participações! Francisco Martins. Para ele não existem segredos pois basta ter vocação,
praticar muito e não ter medo da natureza (quer dizer, das pedras). Mesmo assim adianta «a malha deve vir a girar sobre
si própria» para garantir, no mínimo, o ponto. Pedra que venha esquinada mais medo tem do fito!
Mas o JF também é uma festa. Paralela! Conversas sobre as actividades agrícolas! Um bar
improvisado para molhar gargantas secas! Um speaker esforçado em cima da camioneta. Mas podia ser um tractor! Uns
ciganos atrevidos a fazer concorrência ao Fito através de um olhar sedutor! Ar de banqueiro que dispensa gravatas.
Impossível resistir a uma jogatina no pucarinho (púcara, vermelhinha ou pirolita). Agita os dados no
recipiente e até perdeu, mas o olhar não se alterou como se de um profissional se tratasse! São jogos populares!
Ligados às festas do padroeiro ou da Santa. Não estranha pois que estas incluam o JF nos seus programas! Eis um forma
de divulgação... Todavia seria interessante que estas associações e comissões de festa organizassem
torneios destinados exclusivamente a jovens. Na pior das hipóteses, pelo menos, passariam a conhecer as regras básicas;
na melhor provavelmente podiam treinar nas vésperas da competição. A concretizar esta última podemos
platonicamente (ou não?!) pensar na prática regular ou na programação informática de um jogo
do Fito. Estou a ver (não a jogar) o Terceiro Milénio marcada pelos Jogos "F" — Figo, a Lenda; FIFA, o Jogo e Fito,
a Reencarnação!
Agora mais a sério, e para terminar! Tenho pena que o JF seja machista! Francisco apenas uma única
vez viu dois pares de senhoras a participarem num Torneio de Fito! E, ainda por cima acabaram por desistir! Inventem-se regras
para o feminino! Até porque antigamente as senhoras também guardavam ovelhas e vacas!
Bibliografia:
CABRAL, A., Jogos populares portugueses de jovens e adultos, Editorial Notícias, 3.ª ed., Lisboa, 1998
CABRAL, A., Teoria do Jogo, Editorial Notícias, Col. Pedagogia, 1990
FONTES, A. L., Etnografia Transmontana, Volume II, Editorial Domingos Barreira, Lisboa, 1992
Internet:
Universidade Estácio de Sá (Brasil)
Jornal Nordeste (Bragança)
Klickeducação (Brasil)
Notas:
1 Jogo Popular ou Jogo Tradicional? A. Cabral (1998) admite «que os jogos populares são tradicionais na sua
maioria, o que é facilmente demonstrado pela etnografia e pela história». No entanto, «um dos jogos mais
tradicionais, o Xadrez, não é popular». A excepção confirma a regra!
2 Francisco Martins. Jogador de fito. Reformado da Guarda Fiscal. Antes guardava o gado.
3 A. Cabral (1998) – "Jogos Populares Portugueses de Jovens e Adultos"

O campeão |
Fito à moda de Rio Bom – Valpaços
- Categoria de Pares
- Duas equipas de dois jogadores cada uma, colocando-se atrás de cada pino dois adversários
- A distância entre os pinos é de 25 metros
- Os pinos são um prego envolvido por um tubo plástico (altura aproximada de 10 cm)
- A malha é de pedra (qualquer tipo) com peso variável
- Os jogadores atiram ao pino, alternadamente, e começa o jogador que fizer o ponto na jogada preparatória
- Cada ponto (malha mais próxima do pino) vale quatro e cada carada (derrube do pino) vale seis
- Cada eliminatória tem três partidas
- O jogo acaba aos 20 de cima – 40 pontos
- Competição – VI Torneio em 10 de Junho de 2001
- Prémios:
- 1.º lugar - Dois cordeiros
- 2.º lugar - Dois cabritos
- 3. Lugar - Dois presuntos + Taças
- Proveniência dos jogadores (87 pares no corrente ano): Valpaços, Chaves, Mirandela e Bragança
Nota: O pino recebe também aqui outras designações como binte,
chino ou meco |