O Núcleo de Gravura de Alijó (NGA) nasceu em 1999, mas as suas origens têm de ser procuradas
dois anos antes, quando Nuno Canelas começou a gravar na Casa-Museu Maurício Penha, em Sanfins do Douro [v. Eito
Fora n.º 6]. A ele juntar-se-iam Daniel Hompesch, pintor e gravador belga radicado em Sanfins, e Guilherme Fonseca, outro artista
alijoense. Em 1999 os três abandonariam a Casa-Museu, por «uma certa incompatibilidade de personalidades» com o Presidente,
decididos a criar um Núcleo autónomo. Guilherme Fonseca acabaria por deixar o NGA para seguir o seu próprio
projecto, de fotografia.
Encontrámo-nos com Nuno Canelas na Escola Secundária de Alijó, onde dá aulas, para
falarmos do Núcleo de Gravura e das suas actividades, com especial destaque para a I Bienal Internacional de Gravura do
Douro, a decorrer em Alijó entre os próximos dias 10 de Agosto e 10 de Setembro. A conversa, inevitavelmente,
acabou por derivar também para o estado da Arte em Portugal, bem como do seu ensino. O que se segue é apenas um
resumo do muito que foi dito. Espaço oblige.
Casa, prensa e vontade de gravar
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Daniel Hompesch durante
uma oficina de gravura |
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Quem chega a Alijó vindo do Alto do Pópulo depara, logo à entrada da vila, com uma pequena
casa de pedra ostentando uma faixa onde se lê "Núcleo de Gravura de Alijó". É aqui que o NGA tem as
suas instalações. «Era uma casa onde viviam umas pessoas em muito más condições; tinha sido
posta à disposição pela Junta [de Freguesia de Alijó]. Lá arranjaram uma casa melhor à
família, e ficou aquilo sem utilidade a curto prazo. De maneira que foi a solução que se arranjou.» Ainda
fora ponderada a hipótese de o Núcleo se fixar na Casa da Cultura de Alijó (CCA), mas a muita intensa
utilização do local (onde decorrem, entre outras actividades, cursos de horticultura e informática...) ditou
a decisão pelas instalações actuais.
Instado a comentar a situação da região em termos de espaços para a Cultura, Nuno
Canelas é peremptório: «Há falta de infra-estruturas a todos os níveis, e então acontecem
destas coisas: vemos na CCA decorrerem cursos de informática, e depois geralmente quem se sacrifica é mesmo a
Cultura; são sempre esses que acabam por ser corridos.» De qualquer forma, não estão arrependidos da
solução encontrada: a gravura é uma actividade muito suja — «saímos de lá que parecemos uns
mineiros» — e não terem de partilhar instalações evita problemas de "vizinhança".
Para a constituição do Núcleo tiveram outro apoio fundamental, sem o qual não
poderiam arrancar: a compra por parte da Câmara Municipal de Alijó (CMA) de uma prensa profissional de gravura que
custou quase mil contos. «Sem esse apoio não tínhamos prensa, não havia gravura», sublinha Nuno Canelas.
«Podíamos trabalhar numa prensa fraquinha, mas nunca é a mesma coisa.» E resume: «A Junta com as
instalações, a Câmara com a prensa, constituiu-se o grupo facilmente; o essencial havia: gravadores, prensa
e uma casa para trabalhar.»
Os workshops de gravura
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Alunos e formadores de uma das oficinas de gravura |
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Uma vez formado o Núcleo, trataram de dar uma dinâmica à oficina de gravura: «Não
era um núcleo só para mim e para o Daniel [Hompesch]», esclarece o artista. «Teríamos de abrir as portas da
oficina a quem quisesse aprender, bem como àqueles que já sabem e querem evoluir no seu trabalho.» Desde então
organizaram sete workshops (mais dois estão previstos integrarem a Bienal), tendo contado com um total de alunos
que ronda a cinquentena, dos quais uns vinte tinham entre os 8 e os 15 anos. «A preocupação de arranjar alunos
nunca foi muita porque, como nós só podemos dar aulas a um máximo de dez alunos, é muito fácil
arranjá-los uma semana antes.» Mesmo assim procuram sempre noticiar as oficinas nos jornais, não só para
«mostrar a nossa actividade», como também para irem divulgando o projecto da Bienal de 2001. «Já há dois
anos que falamos nela», frisa Nuno Canelas.
A Bienal de Gravura
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Cartaz da Bienal de Gravura |
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A "menina dos olhos" de Nuno Canelas e do NGA é mesmo a I Bienal de Gravura do Douro, um projecto
assumido desde a criação do Núcleo. A adesão dos artistas tem sido boa: «Ainda falta um mês
[até ao fim de Junho] para mandarem gravuras, mas já temos um lote de gravuras recebidas um pouco de todo o Mundo:
Argentina, Canadá, França, Espanha, Itália...» A resposta dos convidados para o júri internacional
tem também sido a melhor: por Portugal contam com Irene Ribeiro, «uma das melhores gravadoras do país, se
não mesmo a melhor», e o representante da França é, na opinião de Nuno Canelas, o maior gravador vivo.
«Era realmente uma personalidade que não pensei que fosse aceitar», confessa, «até porque é a primeira Bienal,
não tem provas dadas.»
Para a divulgação do evento, o NGA contou com uma ajuda preciosa: a Internet. «Deu algum
trabalho, foram muitas horas de navegação, mas num mês pôs-se a Bienal a ser falada em todo o Mundo.»
Embora muita publicidade tenha sido feita directamente através de e-mail, a rede mundial foi mais valiosa como fonte de
informação: «A Internet ajuda para se saberem as direcções para onde se enviar um envelope com o
regulamento e dois ou três cartazes para eles afixarem lá. Seria muito difícil ter acesso às moradas
dos Núcleos de gravura e das Faculdades de Belas-Artes de todo o Mundo se não fosse a Internet.»
Apesar da boa recepção por parte dos artistas, à Organização não
têm faltado críticas: o concurso está aberto apenas a gravura sobre metal, a preto-e-branco, o que gerou
alguns protestos. Nuno Canelas explica o ponto de vista do NGA: «Não temos nada contra a gravura a cores, contra a gravura
de suporte em madeira, em linóleo, litografia, [mas] não escondemos a nossa preferência por gravura em metal.
Nós não queremos premiar com mil contos uma gravura que tenha partido de processo fotográfico, porque é
um processo fácil; qualquer miúdo que aprenda a técnica arranja uma fotografia, produz um fotólito e
faz uma gravura a que qualquer pessoa tira o chapéu. Para não estarmos a abrir o concurso também a fotogravura
e a gravura em linóleo, para depois não dar o prémio a nenhuma dessas técnicas, resolvemos mesmo
excluir.» Alguns artistas chegaram até a apelidá-los de fundamentalistas, pela sua recusa em admitirem obras a
cores; a isso Nuno Canelas responde que «as nossas regras favorecem o rigor, favorecem o virtuosismo: tudo o que aparecer na
imagem foi feito com um riscador próprio, ou outras técnicas de processos directos, pelo artista. Não
há truques e falsidades com máquina fotográfica.» Desta forma, gravuras de outras técnicas são
apenas admitidas extra-concurso. Destaca-se a exposição individual da convidada Irene Ribeiro, que faz essencialmente
gravura a cores «e é muito boa nisso», a decorrer num espaço à parte, a Biblioteca Municipal de Alijó.
(O resto da Bienal decorre no Pavilhão Desportivo.)
Para além das actividades directamente relacionadas com a gravura, está prevista uma série
de eventos paralelos: grupos de bombos, teatro contemporâneo, ranchos folclóricos, concertos de jazz. Tudo numa
tentativa de atrair mais público à Bienal, evitando cair no erro de outras (como a Bienal da Amadora) que, por
serem exclusivamente dedicadas à gravura, estão quase sempre às moscas.
Os apoios (e a falta deles)
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Gravura de Octave Landuyt |
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Mas nem tudo são rosas na organização de um evento desta natureza numa vila do interior
transmontano, e Nuno Canelas não consegue conter o desabafo: «Se no aspecto artístico está tudo a correr
muito bem, já no aspecto financeiro eu noto diariamente que somos marginalizados, e de que maneira. É uma revolta
para quem vive aqui. Eu sou de Trás-os-Montes e é revoltante continuar a ver os políticos a não
ligarem nenhuma à região, e encararem um evento destes, por ser em Trás-os-Montes, de uma forma diferente
do que se fosse no Porto ou em Guimarães ou em Braga. Não se avaliam os projectos pelo valor que eles têm,
pelo impacto que vão ter nessa região; continua-se sempre a apostar no Litoral, nas grandes cidades, e o Interior
é cada vez mais esquecido.» Mesmo assim contam com cerca de quinze patrocinadores, entre os quais pontificam a CMA
(primeiro prémio, mil contos, além de um suplemento de quinhentos para despesas de organização), a
Quinta do Portal (segundo prémio, quinhentos contos), a Adega Cooperativa de Alijó e as Caves Transmontanas. Mas
é de novo em tom amargo que Nuno Canelas refere a recusa de apoio por parte do Instituto do Vinho do Porto, «que vive
à custa do dinheiro que vêm buscar ao Douro», a quem não devem ter sobrado nem uns trocos depois do
patrocínio ao Porto 2001...
Mas não só os "patrocinadores monetários" e os políticos merecem as críticas
do gravador: «Critico e de que maneira a Fundação Vieira da Silva, porque quisemos ter aqui gravuras da Vieira da
Silva — que é talvez a maior gravadora portuguesa de todos os tempos, para além de pintora — e tivemos uma resposta
daquelas de despachar: "As gravuras estão sempre em itinerância pelo estrangeiro, nunca temos cá nenhuma".
Como se nós não soubéssemos que as gravuras se fazem às centenas! Mas para o Sr. Sommer Ribeiro
[Director da Fundação Arpad Szenes–Vieira da Silva] é mais confortável deixar as gravuras guardadas
nos gavetões...»
A Gravura (e a Arte) em Portugal
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Um aluno de uma das oficinas de gravura |
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Já em fase de rescaldo da entrevista, impunha-se uma pergunta: Como está Portugal em termos de
gravura? A resposta vem rápida e sem hesitações: «Mal. Muito atrasado. Se na pintura está atrasado,
e na instalação e por aí fora, como é que não há-de estar na gravura, que é uma
técnica considerada menor porque tem aquela coisa da reprodução?» Mesmo assim, destaca alguns "centros de
gravura" no país: «O Núcleo da Amadora, o de Reguengos de Monsaraz, o de Évora, no Porto a [Cooperativa]
Árvore, agora mais recentemente o de Alijó... Posso estar a esquecer-me de algum, mas no fundo são meia
dúzia de oficinas de gravura particulares ou associativas que vão fazendo alguma coisa pela gravura neste país.»
E o ensino da gravura? Poderá vir daí a evolução desta arte? Nuno Canelas desenha
um cenário pouco promissor: «Todas as Faculdades de Belas-Artes ensinam gravura, mas de uma forma vergonhosa: têm
instalações piores do que o nosso Núcleo ali naquele quadradinho. Há uma Faculdade que dá
formação superior e o que tem para aquecer as chapas é um bico de cozinha! Como nas escolas onde há
obrigação de formarem bons profissionais não têm condições nem ensinam convenientemente
a gravura, logo à partida está cambada a evolução da gravura no nosso país.»
Uma coisa leva à outra, e já não falamos de gravura, falamos da Arte em geral: «[Nas
Faculdades de Belas-Artes] há coisas que também não se compreendem, como seja um incentivo à
produção de uma estética abstracta sem fundamentos técnicos nenhuns. Ora bem, se uma pessoa
está a aprender Artes deve ter uma estrutura técnica rigorosa primeiro. Depois, quando se acabar o curso, pelo
menos pode decidir-se por um caminho de rigor ou não, conforme queira, porque tem essa estrutura para seguir por um ou por
outro. Não deve ser não ensinar técnica nenhuma, incentivar a borratice de telas, que é mesmo assim,
e depois esses mesmos Professores, que são júris dos prémios cá fora, vão exactamente chumbar
esse tipo de caminho por não apresentar o virtuosismo... que eles não ensinam! Isso se calhar também se
passa noutros países, não será só em Portugal», comenta Nuno Canelas. E remata: «O panorama da
gravura em Portugal é fraco, porque é fraco o investimento que se faz na Arte.»