Vivemos, hoje, numa sociedade consumista, dependente, supérflua, egocêntrica. O que se passa à
nossa volta não nos diz respeito, não é connosco, logo não nos afecta.
O objectivo de vida é ter dinheiro no intuito de ter poder, e esperar que esse mesmo dinheiro nos traga
felicidade, nos compre a felicidade. Temos a felicidade que nos é imposta pela televisão, pelo vizinho, pelas revistas.
Julgamo-nos ricos, detentores de toda a sabedoria, de toda a cultura, andamos na moda, temos o último modelo de telemóvel,
possuímos um potente computador, em casa já não nos chega uma televisão e as que possuirmos terão
de ter bastantes canais para podermos consumir, consumir, consumir. Nem que a ânsia do consumo nos obrigue a viver na mentira,
no engano, na escravidão, na aparência, dependentes de tudo e de todos.
Este pequeno preâmbulo serve para apresentar uma outra forma de estar em sociedade, uma outra forma de vida.
São três pessoas, o Feliz, a Maria e o Marco, que na margem do rio Sôrdo, vivem de uma forma
livre, independente. O Feliz e a Maria, são oriundos da antiga RDA (República Democrática Alemã), onde,
na altura, se vivia uma ditadura comunista que não lhes agradava. Chegaram ao nosso país em 1986, tendo já
estado em diversos sítios (Serra da Estrela, Cabo Espichel, Vilar de Mouros) até assentarem arraiais, em 1999, numa
antiga casa de moleiro existente próximo de Moçães, freguesia de Torgueda. O Marco é de Sintra,
está com eles desde Fevereiro e espera passar um ano a aprender.
O caminho para chegar a casa é de difícil trajecto, identificativo do afastamento que eles desejam
e de acordo com a vida dura que levam. Na casa a luz eléctrica é inexistente, a água é canalizada de
uma fonte próxima. Produzem os seus próprios alimentos através de uma agricultura natural sem recurso a
químicos.
A casa serve também de albergue, a Albergaria de Santa Hildegarda, fundada na páscoa de 1998.
É destinada a pessoas «doentes» e ali faz-se uma cura, física e espiritual, através de plantas medicinais e
dietas alimentares. Não tem preços comerciais, vive de donativos. Luta-se, na Albergaria, contra «a dependência
social, cultural e monetária», contra «o sistema ateísta vigente», contra «as posições cristãs
sem moral». Principalmente destinada aos jovens, é sua intenção que eles recuperem o ânimo, a
independência juvenil. Procuram consegui-lo através de relações com ética, amor ao
próximo, ajuda a si mesmo com a ajuda ao semelhante, trabalho, vida comunitária, meditação,
espírito de sacrifício, humildade, pobreza voluntária, abnegação e auto-estima, atitudes
essenciais, dizem, para quem quiser viver uma vida aprazível.
A Maria Feliz diz possuir um grande conhecimento das plantas, da sua utilidade e características. Esse
saber tem por base os escritos que Santa Hildegarda deixou no princípio da Idade Média. É Maria quem nos
explica quem foi essa santa, a "patrona" da Albergaria. «Santa Hildegarda de Bingen viveu no séc. XII. Foi
abadessa dum convento de Beneditinas na Alemanha. Com cinco anos tinha visões, visões essas que se prolongaram
até aos oitenta e um. Aos quarenta e três anos teve uma visão de línguas de fogo que desciam do
céu sobre ela. Interpretou este sonho como sendo uma ordem divina para difundir e escrever as suas visões
espirituais. Começa, assim, a sua carreira como mística, escritora e compositora, dotes confirmados por Bernardo
de Claraval e pelo Papa Eugênio II, conhecedores das suas obras. Escreve igualmente uma enciclopédia científica
de medicina natural, alimentação e tratamentos de doenças; escreve sobre psicologia, astronomia, filosofia,
pedras preciosas, animais, árvores, metais, insectos, doenças que ainda não existiam na sua época, e
que hoje atormentam a humanidade e para as quais ainda não há, infelizmente, cura. Hildegarda foi fundadora de dois
conventos, Rupertsberg e Eibingen.»
O casal confessa-se cristão e diz-se bastante próximo de Deus devido à natureza que os
envolve, aos sons naturais que "respiram", ao murmúrio do rio que convida constantemente à
meditação.
Recentemente lançaram um jornal, o Apelo da Terra. «É a publicação mais
estranha do país. Tem efeito dinamite, se o povo absorve a mensagem», comenta o Feliz. «Não trata de
informação diária, mas sim de informação anímica, mensagem para a alma». O Apelo da
Terra faz a divulgação de meios necessários para «não sucumbir nesta luta entre o Bem e o Mal».
Segundo Feliz, os quatro pilares fundamentais da Albergaria de Santa Hildegarda são «uma
alimentação mais humana (mais natural e mais saudável), a aplicação da medicina natural como
profilaxia diária e terapia consciente, uma vida modificada e ética, e, por último, a responsabilidade e a
disciplina diárias como preservação destas bases fundamentais da libertação espiritual».
Há quinze anos a viver em Portugal sem rádio, sem televisão, sem máquinas, a
tratar a terra e a praticar medicina natural, Maria Feliz viu perder-se a sabedoria popular, viu morrer a medicina natural. «Vi
crescer a descrença, a preguiça e a negligência, promovida pela medicina industrial. Tudo é aparentemente
fácil, tudo está preparado, tudo é feito pelo homem, com mais ou menos sucesso.» Talvez por isso acredite ser
sua missão ensinar ao povo português os seus conhecimentos. «A medicina vem de Deus, é uma criação
divina. Tudo o que Deus criou, o fogo, a água, o ar, os animais, as pedras preciosas, as plantas, as árvores, os
peixes, os metais ou os insectos, podem servir de medicamento. A medicina natural tem de possibilitar, por princípio, o
tratamento necessário e adequado. Não pretendo estimular o debate sobre a medicina natural, mas realçar o
ânimo e a confiança em si mesmo para tratamento próprio».
Considerando que a natureza humana é apenas uma parte do mundo natural e por isso dele depende
totalmente, Feliz entende que «o homem tem que sacrificar o seu erro numa transformação de vida materialmente
adaptada à preservação do mundo natural». Ou seja, «o espírito humano tem de se debruçar
diariamente sobre a terra, tem de se preocupar com a sua alimentação e medicina naturais e tem que trabalhar com
as suas forças naturais para a preservação e o restabelecimento do mundo natural». Até porque «se o
espírito humano, na sua altivez e arrogância, destrói a natureza humana, por que razão deveria o corpo
humano manter-se são, dependendo ele completamente do mundo natural?»
Para Feliz, a «última missão humana é a coragem da recusa e o carácter de dar de
modo abnegado».
Marco, que veio de Sintra «para aprender», entende que a Albergaria de Santa Hildegarda é «terra
fértil entre lama sem vida», é semente de esperança, «semente que não apodrece na água
estagnada de uma educação que ensina indiferença e despreocupação, que não seca na sede
do dinheiro, na acomodação e no sossego de qualquer emprego».
Crítico, Marco vê a nova geração como uma pequena semente que se habitua ao adubo
químico. «O jovem não vê dificuldades em receber de braços abertos todo o lixo produzido pela
indústria mundana, sem crítica, sem exame, aceita todo o abuso referente à sua educação,
à política, à alimentação, à medicina e aos vícios mentais, vive mergulhado num
desgaste mental provocado pelos constantes estímulos provenientes dos computadores, da televisão e da sua publicidade
sem lei. Morre como brasa em lume brando sobre a sua irresponsabilidade, acomodando-se à roupa lavada sobre a cama, ao
dinheiro mensal e às decisões anónimas de líderes distantes».
O casal Feliz e o Marco sabem que esta franciscana forma de vida nada tem de fácil, de romântico.
Todos os dias têm que lutar contra um sistema instituído, contra um pensamento preconceituoso e automatizado. Porque
são diferentes, estão sujeitos a julgamento diário. Mas acreditam que, ali nas margens do rio Sôrdo,
o objectivo deles está a ser conseguido.