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ilustração de Francisco Lameirão
Se eu tivesse aqui uma janela, não suportaria ter aqui uma janela, tal
como agora não suporto não a ter. Não suporto, e por isso escrevo.
Da janela que não tenho eu vejo o mundo.
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Insuportável
Isto não vai ficar assim
Então, está combinado. Vais lá tu, que eu não consigo raciocinar sob pressão.
Mas é para lhe dar o recado exactamente como digo. Quero as palavras a incomodarem-no por essa ordem. E, por favor, não
arranjes eufemismos. Estás a ouvir? Nada de eufemismos. Quero ter a certeza de que sentirá o veneno que lhe envio a
entrar pelos ouvidos, a corroer-lhe os miolos e, se possível, a sair-lhe pelos olhos. Não te esqueças de levar
a máquina fotográfica. É evidente que tens de levar a máquina fotográfica, por muito que te
custe. Quero ver-lhe a expressão do rosto, depois de tudo isso. Além do mais, é a máquina
fotográfica que o vai deixar de rastos. Não dispenso a estocada final. E agora vai. Vai depressa, antes que me
arrependa. Não é que eu me arrependa com facilidade. Mas, sei lá, pode calhar.
Tens a certeza de que o rolo está bem metido? E o flash, operacional? Pensando melhor, deixa
lá o flash. Tira a fotografia de qualquer maneira, mesmo que não fique nítida. Basta que ele julgue que
possa ter ficado nítida. Olha, nesse caso — pensando melhor ainda — também não vale a pena desperdiçar
o rolo, se é só para o enganar. É isso, tira o rolo da máquina. Com cuidado, por causa da luz. Só
tenho receio de que haja confusão e a máquina acabe por se partir. Tu tinhas uma máquina descartável no
porta-luvas do carro... Já a usaste? Então, esquece. Vai mesmo sem máquina. Mas dá-lhe o recado
exactamente como eu disse. Ou, por outra, substituis apenas a parte final. Manda-lo só à merda. Pode estar mais
alguém a ouvir, e merda sempre é mais aceitável. Ao fim e ao cabo, como sói dizer-se, a mãe dele
nem é para aqui chamada. E, por falar na mãe, ela não costuma estar lá às quintas-feiras? Hoje
é quinta-feira, não é? Que diabo, ainda por cima hoje é mesmo quinta-feira!
Olha lá, não é ele que vem a descer a rua? Esta, agora! É ele que vem a descer a rua.
E traz a mãe, de braço dado. Era só o que faltava! O que é que eu faço? Bem sabes que não
consigo raciocinar sob pressão. Valha-me Deus, já nos viu! Não há dúvida, já nos viu.
Boa tarde, João. Boa tarde, Dona Amélia.
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