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proesia [2]
TEXTO: vítor nogueira
ILUSTRAÇÃO: francisco lameirão


ilustração de Francisco Lameirão
ilustração de Francisco Lameirão

Se eu tivesse aqui uma janela, não suportaria ter aqui uma janela, tal como agora não suporto não a ter. Não suporto, e por isso escrevo.

Da janela que não tenho eu vejo o mundo.


Insuportável
Isto não vai ficar assim


Então, está combinado. Vais lá tu, que eu não consigo raciocinar sob pressão. Mas é para lhe dar o recado exactamente como digo. Quero as palavras a incomodarem-no por essa ordem. E, por favor, não arranjes eufemismos. Estás a ouvir? Nada de eufemismos. Quero ter a certeza de que sentirá o veneno que lhe envio a entrar pelos ouvidos, a corroer-lhe os miolos e, se possível, a sair-lhe pelos olhos. Não te esqueças de levar a máquina fotográfica. É evidente que tens de levar a máquina fotográfica, por muito que te custe. Quero ver-lhe a expressão do rosto, depois de tudo isso. Além do mais, é a máquina fotográfica que o vai deixar de rastos. Não dispenso a estocada final. E agora vai. Vai depressa, antes que me arrependa. Não é que eu me arrependa com facilidade. Mas, sei lá, pode calhar.

Tens a certeza de que o rolo está bem metido? E o flash, operacional? Pensando melhor, deixa lá o flash. Tira a fotografia de qualquer maneira, mesmo que não fique nítida. Basta que ele julgue que possa ter ficado nítida. Olha, nesse caso — pensando melhor ainda — também não vale a pena desperdiçar o rolo, se é só para o enganar. É isso, tira o rolo da máquina. Com cuidado, por causa da luz. Só tenho receio de que haja confusão e a máquina acabe por se partir. Tu tinhas uma máquina descartável no porta-luvas do carro... Já a usaste? Então, esquece. Vai mesmo sem máquina. Mas dá-lhe o recado exactamente como eu disse. Ou, por outra, substituis apenas a parte final. Manda-lo só à merda. Pode estar mais alguém a ouvir, e merda sempre é mais aceitável. Ao fim e ao cabo, como sói dizer-se, a mãe dele nem é para aqui chamada. E, por falar na mãe, ela não costuma estar lá às quintas-feiras? Hoje é quinta-feira, não é? Que diabo, ainda por cima hoje é mesmo quinta-feira!

Olha lá, não é ele que vem a descer a rua? Esta, agora! É ele que vem a descer a rua. E traz a mãe, de braço dado. Era só o que faltava! O que é que eu faço? Bem sabes que não consigo raciocinar sob pressão. Valha-me Deus, já nos viu! Não há dúvida, já nos viu.

Boa tarde, João. Boa tarde, Dona Amélia.

 


v.nogueira@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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