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poesia
TEXTO: eugénio branco


Diário de um eremita


                    ***
  de ti
guardo o mistério das orquídeas
  o som dos barcos
     e o suicídio das borboletas

                    ***
  hoje
passei todo o dia a colher vento – com as mãos
  para te oferecer
    e só depois notei
       que não tenho onde o guardar

                    ***
    digo-te dos teus cabelos
  a loucura dos barcos
    e a maresia salgada
        que os lábios esqueceram

                    ***
    de ti
  digo os ossos
    digo a pele
       das tuas mãos

                    ***
    havia o mistério das orquídeas
  o som claro dos barcos
    e as borboletas acesas voando
      no esplêndido calor dos dedos

                    ***
     diz-me
  diz-me de ti
    do inconcebível grito das borboletas

     diz-me
  que espaços iluminas
    com a tremenda luz
      que te nasce nos dedos

                    ***
  é através de ti
que recolho a beleza da água
     e do seu límpido som

  e é de ti
     que procuro no vento

                    ***
  hoje
o dia está tremendamente calmo
   simetricamente aberto nos flancos
      como se as verdes borboletas
         transportassem suicídio nas assas

                    ***
hoje
coloquei as mãos por dentro do silêncio
    sorri da loucura das borboletas
       até me transformar numa pedra completa

                    ***
  o que me resta?
resta-me uma poesia de dedos imensos
    e alguém
      que jamais caberá dentro de um poema

                    ***
  hoje
gastamos quase tudo
   o tremendo silêncio
        e as mãos – quase primaciais

                    ***
  às vezes
invocavas o silêncio
    até ficarmos juntos como a terra

  hoje
resta quase tudo
    o silêncio e a terra


eugeniobranco@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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