MONTPARNASSE
Foi para Paris em busca de ar que respirar, para se «lavar de tudo o que era português e cheirava a bafio».
Ali encontrou, como ele próprio diz, a sua pátria, encontrou «amigos, mulheres, a noite, o prazer, e as artes... todas!».
Em Paris cumpriu o desígnio de qualquer emigrante ou exilado. Experimentou os mais variados trabalhos
até descobrir que tinha um modo de sobreviver sem vergar grandemente a espinha, sem vínculo efectivo a nenhum
patrão: o desenho. Com este métier, que lhe era agradável, nada custoso, garantia o vil metal que lhe
sustentava os dias, e, sem que o soubesse, iniciava a carreira (por mais que o termo lhe desagrade) que lhe há-de
dar pôr o nome numa rua (a homenagem póstuma é um dos desportos nacionais...).
O Stuart Carvalhais tem o nome numa rua em Vila Real. O Vasco está-se a ver com o nome numa
rua?
Como?! Não me goze... Não me goze... Nem me esteja a empurrar para o buraco, porra! (risos)
Não vê que em Oeiras até erguem estátuas contra a vontade dos artistas vivos?
Quer-me parecer que o Vasco não se livrará de ter o nome numa rua de Vila Real. O problema vai estar em saber se
será "Rua Vasco de Castro" ou "Rua do Vasco"...
Não goze comigo, por favor... Falemos de outra coisa.
Até poderia ter sido a escrita em jornais a salvá-lo de trabalhos mais árduos, mas
não dominava suficientemente o francês. Por isso eram folhas rabiscadas o que levava debaixo do braço quando
ia bater às portas das redacções dos jornais a oferecer os seus préstimos. Com bons resultados,
porque o desenho beneficiava de muito prestígio nos jornais de França.
Paralelamente, ou principalmente, depois de se instalar em Montparnasse (bairro a que chamaria «mon village»),
foi fazendo vida, descobrindo gente, conhecendo os lugares mais interessantes, fazendo activamente a oposição
possível ao regime português, namorando uma filha de Sartre... Mas, para lá dos prazeres que obteve, do
cinema que chegou a fazer, ou dos méritos do seu panfletarismo anti-salazarista, o que sobressaiu da sua cidadania
parisiense foi a colaboração nos jornais franceses. E foram muitos aqueles onde deixou a sua marca: inicialmente
L’Humanité, mas depois sucederam-se Le Monde, Figaro-Magazine, L’Unité,
L’Actualité, France-Observateur e outros. No L’Unité, enquanto ilustrava a primeira
página, François Miterrand escrevia uma nota de análise política e cultural na última, e, por
isso, tiveram alguns contactos. Regista-se esta curiosidade pelo pícaro da visita de Miterrand a Portugal, quando este, a
um Mário Soares algo incomodado, lhe pergunta se conhecia son ami Vasco...
Mas, por mais que a atmosfera de Paris estivesse nos antípodas da bolorenta existência portuguesa,
não houve portuga que resistisse a um prometedor 25 de Abril. Vasco foi um deles. Regressou. De Montparnasse, son
village, ficariam as surpreendentes (e deliciosas) crónicas no Diário de Notícias que escreveria
mais tarde.
| Sob a pena do Vasco... |
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| Camilo Castelo Branco |
Stuart Carvalhais |
Guerra Junqueiro |
Fernando Pessoa |
LISBOA
No catálogo Viagens aos Amares da China Vasco confessa que regressou ao país por
ingenuidade. E, se ainda se envolveu nalguma militância política, rapidamente se encheu de frustrações
e percebeu que, de algum modo, as suas coordenadas ideológicas o ostracizavam. Um novo exílio não tardaria.
Mas, antes que a desilusão o tomasse de todo, fez o que sempre fez: jornalismo. Criou ou ajudou a criar jornais e
suplementos com muita gente conhecida que ainda hoje se mantém no activo, embora dispersa; escreveu, desenhou... Satirizou.
De relevo, para além das crónicas no Diário de Notícias (e do mais que a ignorância dos
repórteres não permite realçar) são os perfis que fez para a extinta revista Mais sob
o título genérico "Photomaton".
FONTANELAS
Cansado do ambiente lisboeta, refugiou-se em Fontanelas. Antes de tudo, «porque era campo». O transmontano
regressa à serrania.
Na verdade, Fontanelas e arredores era campo, mas campo-perto-da-cidade. Como o próprio Vasco explica,
«a Praia das Maçãs [ali perto] era um sítio muito cotado já na 1.ª República. Os nossos
impressionistas, Malhoas e outros, faziam muitas pinturas da Praia das Maçãs. Colares [outra localidade
próxima] era de certo modo um sítio snob». A inteligência, ontem como hoje, tinha ali a sua casinha
de fim de semana. Acreditamos que não foram estas as razões que levaram Vasco para aquelas bandas (ele que
já se manifestou ruidosamente contra a nova invasão de vip's), mas uma certa proximidade da Serra de Sintra,
substituto possível do medieval Trás-os-Montes da sua infância.
Ali, em Fontanelas, Vasco conviveu com um dos mais importantes escritores portugueses do século XX
(assumimos a responsabilidade da classificação) — Vergílio Ferreira. O escritor era um habitué
do "Zé", onde tinha mesa marcada. No local há uma placa alusiva ao facto com uma reprodução da
caricatura que Vasco lhe fez.
No retiro sintrense, Vasco de Castro regressou à pintura. Montou ateliê e soltou os
pincéis. Fomos lá para ver os seus trabalhos, mas acabámos a provar um tinto de Fontanelas (arenoso,
portanto). Entre dois goles falámos.
Picasso é, para mim, o pintor nuclear do século XX.
Também tem uma predilecção especial pelo Bacon, não tem?
Pois. O problema é o das grandes famílias. O Bacon é o Picasso com alucinógenos
e com sexualidade homo.
E isso tem influência na pintura?
Claro. A sexualidade tem influência em tudo, também na pintura. Ainda há dias li uma
frase do Picasso (daquelas coisas que às vezes são tiradas do contexto), que dizia: "A arte toda é sexual",
ou coisa parecida.
Aquela "desfiguração", se assim se lhe pode chamar, que o Vasco usa nas suas pinturas
à semelhança do Bacon é só uma inspiração estética ou é algo mais?
Uma pessoa quando faz qualquer coisa, pintura, desenho, seja o que for, preenche-a conforme a sua
personalidade e a sua sensibilidade artística, de criador. Só as criancinhas fazem arte ingénua. O adulto
já está informado de muitas coisas, portanto encontrou a sua família. Eu sou, se não é muita
petulância, filho do Bacon e do Picasso.
Mas há uma intenção de desfigurar, ou de buscar a figura por trás de...
O problema da transformação... Toda a arte é transformação, é
deformação... Há uma ideia absolutamente errada e bicharoca em termos estéticos de que a arte é
a fidelidade ao real. Não é! O real é uma ficção... estética. Um quadro não
é uma representação passiva do visível; é uma representação conforme a
história estética, a sensibilidade, as capacidades, as ideias criadoras, o talento de alguém. Agora, o que
devemos entender é que houve qualquer coisa, que tomou fôlego no século XIX, que é a
transformação, o absurdo, e isso foi feito em primeira mão pelos desenhadores satíricos.
O desenho satírico é o estilete sobre o abcesso. A ver se a merda salta, o pus...
Nós temos defeitos genéticos, somos muito maneiristas. Temos a tendência normal de
fazer o bonitinho, o amaciado. O desenho satírico tem de ser o mais cru possível, o mais fero... Claro que tem de
ter algumas regras estéticas, estilísticas.
E como vê o desenho satírico actualmente em Portugal?
Eu acho que, de uma maneira geral, o desenho satírico cá é mais
ilustração do que desenho satírico. Ilustração de uma ideia. Há uma ideia e há
a ilustração daquela ideia. O desenho satírico tem a obrigação de ser ele mesmo a
informação primeira, e não qualquer texto.
Antes que este relato se pareça com a crónica póstuma de Vasco de Castro, seja-nos
permitido dizer que o transmontano exilou-se mas não se reformou. Dos desenhos e da vida. Todas as semanas, religiosamente
aos Domingos, os desenhos de Vasco dizem-nos de Portugal (e do mundo) no jornal Público. Mas, para além disso, criou um site na Internet (www.vascoSATIRI.COM) onde mensalmente comenta a actualidade política e social sem os pruridos da
imprensa diária. E, se é capaz de deixar o presidente da República pendurado nas exposições
(como aconteceu na sua última, este ano, promovida pelo Museu da Imprensa), não se inibe de envergonhar os
conterrâneos repórteres dando-lhes lições de como bem comer e melhor beber. Coisa que, o leitor sabe,
não é fácil...
Vasco, que numa versão resumida da lusa história nos tinha alertado que
«Portugal é um país de desconfiar», prepara novas actividades subversivas. A deontologia impede-nos de as anunciar.
Mas têm a ver com a sua opinião sobre a actualidade política que transcrevemos no último trecho da
entrevista.
Como é que vê a actualidade política uma pessoa que viveu o Maio de 68?
Lá estão vocês outra vez... Eh pá, tratem-me bem! Não me insultem (risos)!
Como é que se situa politicamente nos dias de hoje?
Bem, o melhor é bebermos mais um copo...
Bebemos. Vários.
NOTA: Parte dos dados biográficos desta reportagem
foram retirados dos Catálogos Vasco — Viagens ao Amares da China (Prémio Stuart-Regisconta '87) e Vasco —
Desenhos Satíricos, 1955 – 2000 (Museu Nacional da Imprensa).
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Breve História de Portugal
sugerida por Vasco de Castro
Há um maluco que anda à porrada com a mãe e funda um reino. Depois, um doido desenterra
a amada putrefacta e coroa-a rainha. Não contente, senta-a no trono e obriga toda a gente a beijar-lhe o anel no dedo
nauseabundo, apodrecido...
Tempos mais tarde, uns quantos loucos metem-se numas cascas de noz (a que, irresponsavelmente, chamaram naus)
e zarparam mar adentro, sem sequer saberem o que procuravam. Qual ouro, qual fé?! O que os movia era a zoinice.
O poeta-mor da pátria veio a ser um tal zaragateiro, um gigolô com a mania dos duelos que pela
espada perdeu um olho. O maior feito do homem foi quase morrer afogado para salvar uns papéis.
Vá-se lá saber porquê, a doidice, esse atributo único dos portugueses, convenceu-os
de que tinham um império. Mas por pouco tempo. Um desvairado rapazolas, um tal D. Sebastião (que nem copular sabia...
ou podia), preconiza um sintomático ataque suicida ao Norte de África. O doidivanas, que fez orelhas moucas às
sábias advertências dos Reis de Espanha, ainda arrastou para a desgraça meia dúzia de parvos estrangeiros.
Mas a mania do império continuou e chegou até um tal Salazar. Este, azoratado de todo, queria
defender a ilusão com um exército de fábula. Sozinho contra o mundo com uma tropa de farrapos e ninguém
lhe tirava a cadeira...
Outro exemplo de delírio intelectual é o próprio Fernando Pessoa. Um doido varrido, mas
não daqueles que se acham Napoleão. Mais refinado, inventou heterónimos com obra própria, que se
correspondiam entre si e que se levavam a sério. Não é de manicómio?
Há que desconfiar deste país... |