A verdade verdadinha é que rumámos a Fontanelas com o objectivo de entrevistar o
sátiro Vasco de Castro. Queríamos gravar uma conversa interessante, cheia de ditos sarcásticos, registar
respostas mordazes, prender na fita magnética revelações surpreendentes... É certo que tivemos tudo
isso — a conversa interessante, os ditos sarcásticos, as respostas mordazes —, mas fomos vencidos pela irrequietude de
Vasco, e, nas deslocações entre a sua casa, o ateliê e o "Zé", pouco ficou gravado. É o que
dá fazer jornalismo com carácter diletante, com maior preocupação em desfrutar do entrevistado do
que em cumprir os compromissos com os leitores. E se, de facto, desfrutámos longamente da visita, por outro lado
não podemos (embora às vezes o quiséssemos) deixar de a compartilhar com V.as Ex.as, como manda a boa
consciência profissional. O que vai ler (em excertos encadeados) foi, literalmente, a entrevista possível.
Era uma manhã de sol tímido, mas prometedor, a iluminar a verdura da paisagem sintrense. Pela
Serra de Sintra andavam, não os queirosianos Carlos da Maia, João da Ega e Alencar, mas os repórteres do
Eito à procura do caminho para Fontanelas, a aldeia-refúgio de Vasco de Castro. O instinto fez-nos preterir a
paisagem-serrana-com-mar-à-vista a favor de um mais desolador e descampado trajecto saloio que quase nos levava à
Ericeira. Os transeuntes a quem recorremos para descobrir a "estrada de Damasco" eram da tropa de ocupação ucraniana,
pelo que mais depressa nos diriam o caminho de Kiev. De resto, o acolhimento, quando por fim chegámos a Fontanelas,
também tinha sotaque de Leste.
Aqui o instinto funcionou. Na hora da escolha da tasca onde comer o cibo inclinámo-nos sem
hesitações para «O Zé». Da excelência da escolha, por motivos gastronómicos e literários,
soubemos mais tarde, quando descobrimos ser ali que o Vergílio Ferreira assentava arraiais e quando o Vasco nos confirmou
serem o cozido à portuguesa e o cabrito estufado d’ «O Zé» as especialidades da terra. Tinham sido as nossas escolhas,
que alarvemente degustámos regadas a abundante tinto. Mal sabíamos que nos esperavam horas «pantagruélicas»,
como o Vasco as definiu.
Fomos encontrá-lo deitado ao sol no selvagem jardim de sua casa.
Mas afinal quem é o Vasco de Castro? Tão-só um dos mais interessantes desenhadores
satíricos que este país viu nascer. Mas o transmontano é mais do que isso (que já não é
pouco): culto, divertido, generoso, acutilante, «leitor profissional» e atento, bon vivant, desalinhado, analista mordaz
e expressivo (por palavras, trejeitos e peculiares interjeições...) e tudo o mais que define um carácter
único.
| Vasco por... Vasco |
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TRÁS-OS-MONTES
De seu nome completo Agostinho Vasco da Rocha e Castro, nasceu em Agosto de 1935. A família paterna era
da Bila (o epíteto carinhoso de Vila Real), «casa na Rua Central (onde agora é um banco), outra casa de família
na Rua Direita, a farmácia Baptista, do meu tio-avô...» A mãe era do Castelo, freguesia de Telões, em
Vila Pouca de Aguiar. Entre Vila Real e as aldeias do vale de Aguiar estão os «lugares ternos» da sua infância e
adolescência, onde forjou um carácter de escarpas graníticas, de acutilância pétrea.
Ainda que tenha abandonado as transmontanas terras, a verdade é que estes lugares o marcaram. «Sempre
senti uma lava granítica misturada com o meu sangue», assegura. Será por isso que alguns dizem, por vezes, que tem
mau feitio. «Contesto em absoluto! Só que os maneirismos e farsas de outros costumes são-me, ou tento que sejam,
alheios!». Trás-os-Montes estará hoje distante desse território «medieval» em que viveu. Mas sente-se «quase
um ultra-transmontano, se isso quer dizer algo de preciso».
Sobre a ascendência de Vasco sempre se pode adiantar que houve avôs que «a seu tempo fizeram coisas...
política, jornais, poesia...» Gente que partilhou da boémia literária com António Nobre e Afonso Duarte.
Pelos jornais e pela literatura, iniciaria Vasco a sua carreira nas artes. O ambiente familiar era propício às leituras,
ao contacto com as descobertas que elas proporcionam. Daí às primeiras escrevinhações vai um passo
que o Vasco deu, novíssimo, com poemas e jornais familiares, e depois com jornais escolares. Imberbe, ainda iniciou um
folhetim, «um pomposo "Mistério do Castelo de Aguiar"», que seria hoje obra de culto da mui bairrista intelligenzia
aguiarense, caso tivesse passado do número dois... Mas, para gáudio dos mais ferrenhos desta tribo, ainda deixou
registado no Vilarealense, aos treze anos, um texto «romântico-sentimental» sobre o "Vale de Aguiar". Passados os
devaneios da primeira adolescência, fez-se correspondente do Mundo Desportivo. Não levava muito a sério
o desenho, aquele que viria a ser, de um modo ou de outro, o seu métier, a sua fonte de rendimentos, embora já
fosse rabiscando aqui e acolá e anunciando que era capaz de fazer melhor que muito do que via publicado. A primeira vez que
gostou de algo pintado, di-lo ele num catálogo de 1987, «teria uns 16 anos, foi quando descobri o Picasso dos anos 40, de
traço agreste e selvagem». Agreste e selvagem podem ser adjectivos para o traço de Vasco, um
traço que passou por várias depurações e constitui hoje uma marca reconhecida, indelével.
Da sua época transmontana não se pode passar ao lado, por premonitório, dum episódio
que lhe mereceu uma suspensão e consequente chumbo no liceu. Estava no sétimo ano e havia uma qualquer sessão
solene com todos os alunos, os professores e o Governador Civil. Coisa pomposa, relacionada com a Mocidade Portuguesa. Na verdade,
uma chatice que o Vasco quis aliviar com umas naives caricaturas dos professores. Só que os bonecos foram passando
de mão em mão, e a estudantada, mal conseguindo reprimir o riso, acabou por denunciar, pelo burburinho, o
atrevimento. O resultado foi uma suspensão de oito dias. «Como estava "tapado" às sessões da Mocidade
Portuguesa, chumbei o ano por faltas».
Em que altura da vida é que teve a percepção de qual era o seu lado na
política?
Na política? Nessas coisas não há assim um dia ou uma hora, como S. Paulo no caminho
de Damasco. Não ouvi nenhumas vozes, nem caí do cavalo... Há uma série de sensações e
emoções que, como camadas, se vão sobrepondo e cristalizando. Se quiser, apanhei isso em casa. De
família. Havia a memória do meu avô e o meu pai que era anti-salazarista. Patológico, quase.
Já havia antecedentes, portanto.
Sim. Há uns genes dificilmente detectáveis, mas que se manifestam, e há coisas que a
gente no mundo visível apanha, ouve e integra. Eu vivia num clima que era contra o sistema na altura estabelecido, que era
uma coisa pavorosa. Em Vila Real, as coisas adquiriram vivência prática na luta contra a Mocidade Portuguesa e o
reitor fascista que estava lá no liceu. Foi meu professor de inglês e de alemão, e tinha o descaramento de
ir para as aulas fazer o elogio da Alemanha nazi! Isto dez anos depois de a Alemanha ter perdido a guerra e de se saber muito bem
o que era o nazismo. Na altura reagi...
LISBOA
O jovem Agostinho Vasco chega a Lisboa em 1953 para estudar Direito — e, claro, fê-lo por linhas tortas.
Os cinco anos da praxe ocupou-os em muito mais do que as sebentas e as aulas. Saiu de lá sem o curso, mas com largas
experiências de vida fundadas no activismo estudantil. Mais do que decorar os alfarrábios, agitou culturalmente as
hostes, organizando exposições e conferências, envolvendo-se nas artes cénicas. As razões do
seu empenho nas actividades culturais a despeito dos calhamaços explica-as pela sensibilidade, ou antes, dizendo que
«essas coisas não se explicam, sentem-se».
Como se envolve nas actividades políticas e culturais?
O meu primeiro "exercício político" foi aquele embate com o reitor fascista. Aliás,
nazi. E aí tive a consciência que era um embate contra o poder. Contra o poder fascista. E depois quando vim para
Lisboa, claro, continuei. Tive também actividade com alguma dinâmica nas sessões académicas de direito.
Até inovei um bocadinho, porque tomei conta da secção cultural, onde estive durante dois anos seguidos. Fiz
lá pela primeira vez exposições de pintura. Uma delas a desse grupo que agora foi tirado do esquecimento, o
KWY, que eu conhecia muito bem. (Quando vim para cá tentei encontrar pessoas com quem me sentisse bem e desaguei
rapidamente no Café Gelo. Já ouviram falar no Grupo do Café Gelo, o segundo fôlego do grupo surrealista?
Bem, não era exactamente o grupo surrealista como era na primeira fase... O António Maria Lisboa já tinha
morrido e quem lá estava como figura tutelar, de referência, era o Mário Cesariny.) Foi a segunda
exposição que eles fizeram como grupo. Bom, ainda antes de se chamarem KWY, já que isso foi só em
Paris. Na altura chamavam-se Nove Pintores.
Organizei várias exposições, criámos o grupo cénico de direito (que
ainda existe), tivemos sessões de poesia, poesia ilustrada, discursos... Até levei lá o António
Quadros!... Fez um discurso em nome da Filosofia Portuguesa...
Esse interesse pela cultura vem-lhe de onde?
Cultura?! Você pergunta-se porque se excita quando vê uma rapariga A e não lhe acontece
o mesmo quando vê uma rapariga B? É genético, é natural, é normal, uma pessoa excita-se com
essas coisas, os aspectos culturais, artísticos, a criação... Eu com dez anos já fazia jornais!...
Mas não teve um ambiente propício?
Sim. Houve o meu bisavô, o meu avô, o meu pai... Havia lá livros... Havia na minha
família uma adoração quase religiosa pelo Camilo Castelo Branco. Ainda apanhei histórias sobre os
distúrbios, as velhacarias e as coisas que o Camilo fazia lá por Vila Real. Velhacarias não, o termo tem de
ser outro... Os desmandos! Eu cresci com o Camilo sempre por perto, e depois lia e gostava imenso...
A gente da sua geração seguiu outros caminhos...
Na minha geração senti-me sempre sozinho.
Mas alguns cresceram nos mesmos ambientes, com as mesmas influências...
Cada um é como é. Em Vila Real o convívio estava baseado em duas coisas: o gosto pelos
copos (a boémia possível numa cidade pequenina, de província, fechada) e depois ir jogar futebol para o
Calvário (risos).
O seu estilo de vida, que já se esboçara nos últimos anos de liceu em Vila Real,
adquire em Lisboa uma forma que é algo mais do que um sfumatto. Aqui inicia a ruptura com qualquer exclusividade
profissional. O que lhe apetece são as coisas fáceis, aquelas que lhe permitem experimentar tudo sem a nada se
prender. O desenho, que pratica com iniciática assiduidade em publicações como Riso Mundial,
Picapau, Cara Alegre, Parada da Paródia, Diário de Lisboa, República,
Diário Ilustrado e Mundo Ilustrado, permite-lhe essa relação desprendida com o mundo laboral.
Vai tendo contacto com os desenhadores estrangeiros através dos jornais que vão chegando à
capital. Autodidacta, estuda-os, aprende com eles. Começou aí o seu fascínio por Saul Steinberg.
O Steinberg é um génio absoluto, é, seguramente, o artista mais interessante, mais
importante de toda a história da arte americana. Que, de resto, não tem história, começou nos anos
40/50... Uma pintura estilo folclórica, à Malhoa, ou menos que isso, à Rosa Ramalho... Depois mitificaram o
Andy Warhol e outros... Gajos com uma obrazinha assim assim (e a do Warhol acho-a absolutamente medíocre, detestável,
até). Tornaram-nos vedetas porque na América funciona o cacau, o dinheiro. Esqueceram os desenhadores porque os
trabalhos eram em A4. Claro, não eram comercializáveis como os quadros de 3 por 4 metros...
A arte está pervertida por várias ideias. Uma delas é o comércio. A
crítica, a história da arte, estão ao serviço desses interesses. E chega-se a extremos (estamos no
plano zero da estética): esta matulagem com mentalidade de merceeiro chega a isto de dizer "a arte é aquilo que a
certo momento se convencione que é arte!" Tudo é arte... É falso! É falso! Isto é falso! Em
Paris fiz uma coisa, por irrisão, por gozo... Uma noite qualquer deu-me vontade de cagar e caguei ali no passeio. Com giz
fiz um risco à volta e assinei. Olha: obra de arte! (risos) Isto é uma idiotia!... São estórias que
a história lavará, saudavelmente.
Em Lisboa experimentou a pintura e foi-se envolvendo ou despoletando publicações culturais.
De outubro de 1958 data o n.º 1 (e único) da Coordenada — Cadernos de Convívio literários com capa e
coordenação de Agostinho [Vasco] de Castro e onde era redactor outro vilarrealense, o escritor António Cabral.
No editorial pode ler-se que «Convívio é um encontro entre jovens escritores e artistas que, lutando até aqui
isoladamente, pretendem unir-se para a expansão das suas obras e, juntamente com todos aqueles que se interessam pela
cultura, lutar pela concretização de um programa de autêntica divulgação cultural, pondo de
parte partidarismos políticos ou religiosos». Um programa actualíssimo, como se vê.
Diferente entre iguais, Vasco surgia aos olhos do Estado como um entre muitos: foi chamado para a tropa em
1960. Inventou padecimentos e conseguiu adiar a ida para Mafra por um ano. 1961 vê-lo-ia integrando um dos primeiros
contingentes da guerra colonial se o rapaz não tivesse zarpado para Paris, a cidade-luz.