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nua & crua
TEXTO: maria filomena
CARVÃO: paulo araújo


carvão de Paulo Araújo
carvão de Paulo Araújo


Corpo em trânsito


No corpo-a-corpo com o meu corpo, paro, sinto, olho, escuto, cheiro e escrevo à beira-corpo.

Paro e sinto: forma mutante que perdeu todas as células do tempo em que era flor aberta. Fruto maduro que depressa ultrapassa prazos: o de menstruar, o de segregar suculências incensuráveis, o de dançar sem desalento, o de um certo mover onde se acoitam anjos e serpentes, o de vestir sem cair em desgraça, o de amar, amar, perdidamente, e o de desamar, perdida ou achadamente.

...Invólucro semi-fiável que não menos depressa altera os prazeres: o da liberdade de comer o que apetece, o de correr por vontade, o de frequentar desejos hora-a-hora renovados, satisfeitos ou insatisfeitos, mas prontos a arder em fogo vivo, e isto incessantemente, o de visitar paraísos artificiais sem a penitência da manhã seguinte, o de ver passar os dias embrulhados em papel cor-de-rosa, prosseguindo indiferente ao destino das cores.

...Contra todas as publicidades, sinto que nem o retinol, nem os liposomas, nem toda a sorte de anti-radicais livres detêm o avanço de cloasmas, de minúsculos angiomas, de rídulas, que me cobrem a pele de uma aura baça. Sei-o porque paro e olho e escuto o pulsar das horas a infiltrarem-se sob a epiderme e a debaterem-se com as resistências íntimas das carnes.

...Paro e cheiro. Nauseia-me esta erecção de acre em todas as concavidades. O suor do meu rosto apaga os odores do hidratante inútil. Pressinto que a meus lábios, há bem pouco tempo celebrados por dignidades de capa de revista, e quiçá outras menos confessáveis, tenha começado a chegar o significado visível e odorante de alguma praga ditada pela inveja. Pressinto, mas nem sempre assim é, como quando jogo ao corpo-a-corpo com outro corpo, nesse momento amado, e conjugo e convoco e confundo fluídos num fluxo primordial. Então, provo(-me)-te e num trago saibo-me ao mel, ao leite, ao sal que alguns conheceram nas aventuras da imensidão dos mares, dos desertos e de todos os céus. Cheiro(-me)-te e na palma da mão guardo olores de Alhambra, especiarias da Índia, segredos de todas as rosas. Volto a provar-me e a cheirar-me e neste vaivém sustenho o sonho de todos os que assim provando e sentindo algum instante roubam à eternidade.

...Mas eis que de novo paro, sinto, escuto e olho e reparo no texto do meu corpo. É afinal mais um corpo à beira-mágoa de ser o que é: fatal matéria orgânica, água quase tudo e desejo, corpóreo desejo de ser outro, que já foi este, ou decididamente outro... Corpo.

 


filomena@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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