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ilustração de Paulo Araújo
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A seta
A minha casa é um cilindro de madeira sem janelas nem divisórias. Tem uma clarabóia ao
centro do telhado, com que espio o céu, e quatro portas, que abrem para mundos distintos. Cada uma delas volta-se para um
dos pontos cardeais, representados na rosa-dos-ventos que desenhei no chão de terra batida com ladrilhos escuros de
calcário. A casa situa-se num cômoro periférico em relação à cidade.
Hoje, estendido no enxergão de palha, há três horas desperto, observo o interior do aposento.
Desiludido, como quem pressente a morte, olho em redor, e a ordem das coisas sobressalta-me a alma perturbada. A cozinha, no quarto
de círculo a noroeste, a casa de banho a sudeste, a nordeste a sala mísera, o quarto aqui, a sudoeste, e a pistola
que herdei do autor dos meus dias, suspensa por um cordel do tecto de madeira apodrecida, o cano apontado contra mim, como a
lâmina da espada de Dâmocles — tudo se me afigura expectante. Afinal, que querem de mim? Deve ser meio-dia, não
ouso atirar os olhos ao mostrador do relógio que me desperta todas as manhãs, pontualmente, às nove.
Dependurada de um prego na porta do norte, a que dá acesso a um pinhal, a minha flauta alaranjada almeja
ir encantar as aves e os pinheiros; mas hoje falha-me a graça de Orfeu, e nem palavras trocarei com algum ser ocasional, na
orla da estrada que rasga a espessura e termina na praia. Rente à porta de leste, de onde me solto para a cidade, o
silêncio dedilha as cordas do alaúde. Hoje também não voarei à urbe emaranhada, em demanda da
moeda do transeunte. A oeste, encostado à porta de pinho, o acordeão das notas festivas e dolentes recrimina em
segredo esta demora obstinada; mas à beira-mar as ondinas secretas já não acreditam que este dia lhes entregue
as minhas notas. De igual modo, não tomarei o caminho da vila que fica na margem sul do rio, não descerei os degraus
de pedra, não passarei a calçada da ponte de dois arcos, não verei as sombras do parque, a água do
chafariz luzindo, as pombas assustadas com o rufar cadenciado do meu tambor, miniatura deste humilde habitáculo.
Uma gaivota acaba de pousar no vidro da clarabóia redonda, a luz entra insegura, fiapos de nuvem
esboçam no céu um corcel sem patas. Que farei agora? A geringonça que tenho ao centro da casa deixou de ter
préstimo. Aquela roda de metal, apoiada a uma robusta peanha, com uma seta a tornar visível o diâmetro (e
perfurando até a circunferência), aquela roda de metal, quando esta manhã, às nove e pouco, a fiz mover,
desengonçou-se, inutilizou-se como um carro de bois partido. A seta que durante cinco anos me indicou o caminho, do norte,
do sul, do este, do oeste, esse dedo de metal traiu-me. Aos sete lustros de vida, sou um músico desencantado a recordar a
vida de artista na vila e na cidade, onde alguma coisa me davam, à beira-mar e no pinhal, onde nunca esperei receber coisa
alguma. Sou um homem sem destino.
Jazo neste sarcófago, porventura aguardando uma segunda morte; olho a pistola e ocorre-me um
desígnio: soerguer-me da enxerga, pegar na arma, desatá-la do cordel, sopesá-la com carinho, estender-me de
novo, permanecer muito imóvel, pedra imune à erosão, e esperar. Esvaziado da minha presença, o tempo
retomará a sua pureza em relação a mim, a pureza que deve existir nele se as coisas se imobilizarem. Assim
purificado, talvez o meu tempo, ou o tempo que devia ser meu, se condense no tapete de serapilheira, em forma de seta ou de flauta,
de casa ou de tambor, de alaúde ou de nuvem, de acordeão ou de gaivota. Depois, sim, vou premir o gatilho à
vontade. Poderei, finalmente, matar o tempo.
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