O homem – que – está – aqui – onde – é – que – havia – de – estar, em tempos vivera só, num
apartamento dos subúrbios. Quando vinha à janela para respirar, a estrada cheia de carros, as fachadas lúgubres
dos prédios, a cor amarelenta da gente curvada ao peso quotidiano davam-lhe uma tristeza tão grande que uma
náusea lhe remexia as entranhas. Fechava a janela e consagrava-se a viver ao que trazia dentro de si: ouvia o rugido das
vagas quando se alevantam em marés-vivas. Ouvia o vento quando soprava forte; e, quando soprava de mansinho, um sussurro
apenas. Ouvia os pássaros que chegavam do céu. Ouvia os vizinhos. E vozes antigas. Muito antigas.
Tinha uma pedra polida poisada na estante. E quando olhava essa pedra, o outro tempo que nele morava aproximava-se
de mansinho, feito em bocados: – tendas numa praia longe; luar; seixos nas mãos; um corpo salino; o susto das noites brancas;
rumores de areias; cantigas furando a noite; manhãs de pássaros. E via a árvore de sombra larga onde entregara
a carta mais pura que jamais escrevera. E o espanto renascia.
Um dia, não aguentando mais as vozes que ouvia no apartamento dos subúrbios, o homem carregou os
móveis, empacotou as lembranças, encaixotou os dias, despediu-se dos vizinhos, alugou uma camioneta de mudanças
e mudou-se para uma casa virada para o mar. No mesmo sítio onde vivera em criança. A mãe deu-lhe a sua cama de
nogueira antiga, a escrivaninha dos deveres da escola, o aparador para a sala, ele restaurou o velho cadeirão de verga onde
o pai se sentava à noite a ler o jornal. E disse resoluto, como se tivesse finalmente, encontrado a última morada:
aqui estou para sempre. Falem-me as vozes antigas, regressem os pássaros, expluda o mundo. Agora sou – o homem – estou – aqui
– onde – é – que – havia de – estar. Sou isto e isto me basta. Vou ao largo – os bancos; os velhos; o chafariz de ferro; o
joelho novo. Vou ao largo, ao fim da tarde e fico a ouvir os velhos que eram novos quando eu era criança e agora que
já sou velho, eles aí estão mais velhos do que eu. E mais silenciosos. E sento-me ao lado deles e como
ninguém fala, ouço melhor a tarde a cair.
E quando já é noite fechada o homem volta para o seu quarto, deita-se na cama de nogueira com os
olhos abertos recordando a mulher salina, e quando a madrugada chega, o homem fecha os olhos e, finalmente, adormece.
Há uma mulher na outra ponta da cidade. A cidade é muito grande e dividida a meio por um rio. A
mulher tem uma casa do outro lado do rio. Nunca se encontram, o homem – que – está – aqui e a mulher da outra banda. Nunca
se conheceram, mas sabem da existência um do outro. Ela também tem uma pedra na estante e quando olha essa pedra a
mesma praia arde ao meio-dia. E conhece uma árvore de sombra larga com palavras gravadas. E sabe de pássaros e de
silêncios. E de um rochedo salgado de luar. Mas não tem um largo com bancos onde os velhos se sentam a recordar.
Tem ruas com lâmpadas que se acendem no meio do frio. Cada manhã parte e não sabe o rumo. Muitas vezes vai
até à margem do rio e fita a outra margem, os barcos que vão e vêm e deixa-se atravessar pelo
vaivém de barcos e de lembranças. Depois corre as ruas até à noite e senta-se num autocarro quando
se sente mais cansada e regressa sempre à pedra pousada na estante. Para ouvir as cantigas cantadas longe. Furando a noite.
E espera. Espera as palavras gravadas na árvore. A inviolável promessa. E repete: os dias grandes. O calor. A
mão no ombro. O teu corpo côncavo. E sonha enquanto os dias embranquecem. E ninguém conhece a mulher que
parte. Ninguém a toca. A inviolável mulher. Só os filhos tocam o coração da mulher.
Um dia, o homem – que está aqui – onde é que – havia de estar, cansado de solidão, pegou
numa mulher de ancas delgadas e elegeu-a para o seu leito de desalentos. E disse – sou quando sopro no teu corpo. E a seiva
apaziguou-o. E nunca mais foi ao largo. Deixou de ouvir as vozes que vinham da pedra pousada na estante. Deixou o cachimbo
apagado numa mesa de pedra. As raízes invadiram o soalho da casa. Ele estende as mãos para as ancas delgadas da
donzela que nasce no princípio das estrelas. E já não viaja pelos anos em que cegava de luz. E encolhe os
ombros pesados.
E a mulher que vive do outro lado do rio, inquieta-se.
E pergunta-lhe no vento intemporal que varre as ruas – onde estás.
E ele responde – estou aqui. onde é que havia de estar.
E a mulher que vive na outra banda escreve as decisivas palavras.
Então o rio, que corre a meio da cidade, fez-se mais largo, mais fundo e nenhum barco jamais
alcançou a outra margem.