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ilustração de Francisco Legatheaux
Estas anacrónicas são servidas em dose dupla!
Leia também o texto de Luísa Costa.
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o homem que
o homem-que-está-aqui-onde-é-que-havia-de-estar escreve. escreve sozinho, à janela da sua
angústia de estar aqui, pois onde havia de estar? escreve sonetos ambíguos, perpendiculares à sua vontade de
ser. e o quotidiano pesa-lhe, custa-lhe. nada mais que um onde-é-que-havia-de-estar. os odores dos sítios familiares
recuam-no no tempo, viaja, em primeira classe, nas suas partículas quânticas que, como se sabe, podem existir,
simultaneamente, em dois lugares diferentes. a sua cabana é sonho, sonho de tecto silencioso e doce. e nem disso se apercebe,
da cabana, e do sítio onde podia estar. o homem está, tão somente, e passa a ser o homem-que-está.
o homem-que-está reflecte bastante, pensa febrilmente nos sonhos de estar onde nunca esteve, de ser o que
nunca foi, viver o que nunca viveu. mas, apenas, está. o seu passado é inútil, tal como a sua existência.
limita-se a estar, para fundamentar o nome e a falta de vontade. existir pesa-lhe, a vida é um grande fardo de palha que
nenhuma vaca quer comer.
e o homem passa a ser o homem-que-nunca-esteve. e tudo se lhe afigura mais fácil de perceber. pouco
importa onde está, porque nunca esteve em lugar algum, nunca foi a qualquer parte, nem lhe interessa. ele é o
que-nunca-esteve, ninguém lhe pode perguntar coisa alguma, não precisa de pensar, e a sua existência nunca foi.
a cabana nunca existiu como tecto, apenas como sonho. o homem-que-nunca-esteve nunca escreveu sonetos.
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