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Lyon: Place du Change
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Lyon
Procuras na cidade as pontes, os reflexos nascentes e poentes, os murmúrios, as
silhuetas e as sombras que te sossegarão a memória das nossas horas noutras cidades doutros países.
Há na tua busca uma determinação em seguir as rotas do esquecimento. Levas um guia de minúcias
para combateres os instantes –– ó traição –– da deriva para a margem de lá, onde já foste
tu, exactamente como um ângulo, completamente como um círculo. É este o horizonte que evitas quando, ao
dobrar uns semáforos, dás com os olhos no Rhône. Aumentas o volume do auto-rádio menos para
escutares do que para não veres. Não conheceres a música desampara-te e mudas de estação.
Brel, Moustaki, Juliette Gréco –– só nalguma Radio Nostalgie. Já aí tens o rio, novamente.
É outro, mais domesticado, menos assustador, em tributo ao nome feminino: La Saône. Sais do carro e enfrentas as
águas. Só por comparação com o Rhône é que é pacífica a
adjectivação anterior. Não, nada têm do terror do Douro de Inverno, mas têm muito da brandura
traiçoeira do Douro das barragens que íamos ver aos Domingos de Verão. Recompões-te deste deslize
do pensamento, olhando para o longe, para o muro coroado de um friso de tendas metálicas que expõem livros
usados. Não podes evitá-lo: parecem os bouquinistes do Sena em Paris, por onde passávamos por pura
obediência a um ritual, tão raramente comprávamos alguma coisa. Ergues os olhos para a colina, cuja
súbita evocação de Praga afastas, por saberes que soltará recordações de certos
Outonos, mesmo que apenas os tenhamos visto em postais ilustrados. Baixas o olhar ainda preso pelo fundo da vontade. Lá
estão as fachadas das cidades do norte de Itália, aquelas donde vieram os primeiros animadores da
indústria e comércio da seda, pilar da economia lionesa do Renascimento ao século XIX, aquelas mesmas
cidades que prometemos revisitar todos os anos. Entras numa livraria, uma das muitas que te recomendaram. Logo à
entrada, as sugestões em inglês. Sinal do crepúsculo do francês que não sei se nos
recusávamos a aceitar ou se já lamentávamos. Procuras a secção dos clássicos
franceses, esses que custa a acreditar que tão poucos lêem. Instintivamente, corres com as pontas dos dedos a
fileira de lombadas verticais. Deténs-te num volume de que apenas vislumbraste um nome: Rimbaud. Abre-lo no
título Une saison en enfer. O que é que sentimos que os poetas ainda não tenham dito? Permaneces
em frente dessa estante cheia dos nomes que admirávamos e lá no fundo queríamos imitar, se não na
arte, pelo menos na vida. Sorris desta cúmplice banalidade. Segues o chamamento dos anúncios da secção
de viagens. Sempre foram a tua — nossa — paixão. «Viajar! Perder países!» Mergulhas nas colecções e
colecções de guias que abrem a França à variedade das bolsas, gostos e necessidades e eis as jornadas
gastronómicas, os caminhos de montanha a pé, de bicicleta, as descidas de rafting boat, os giros literários.
Um título semi-roubado a Saint-Exupéry convida-te a ver o país à vol d’oiseau. Depois os mapas.
Sempre gostaste de mapas. Não resistes e acaricias o trajecto que, noutro mapa, noutro tempo, sublinhámos a marcador e
que nos levaria a Lyon. Decides-te por um guia da cidade, daqueles que têm o suficiente para nos fazer reparar em pequenos
recantos (que, de outro modo, não fariam qualquer sentido), mas que deixam um fatal sabor a pouco. Descansas numa esplanada da
Place du Change, notas a multiplicação dos sinais da vida que pulsa em teu redor. Abres clareiras de silêncio
entre a multidão que se cruza sob o teu olhar distante. Impossível que as nossas cidades, as vistas e as invisíveis,
apareçam tão vivas e persistentes nesta cidade e que nem sequer o suspeitem os outros visitantes nem o registe nenhum
roteiro. Como dizer nas agências de viagens que nos devem incluir nos itinerários das pontes, nos reflexos nascentes e
poentes, nos murmúrios das ruas, nas silhuetas que se evolam das chaminés, se só somos visíveis, em
aparições dispersas, aos olhos dos que vêem além-rio e além-ruas? E como dizê-lo sem que se
acenda o ridículo ou se erga a suspeita da loucura? Incrível que as nossas cidades existam em Lyon sem ti.
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