Estátua
A estátua de mármore de Antoninus é das tais que dão nas vistas. Está em lugar
de destaque no museu de Delfos. O jovem foi esculpido sem roupagens, numa daquelas poses que se reservam aos deuses. Bastam uns
segundos de contemplação para se perceber que se passa algo de invulgar. A estatura do modelo é média,
mas o cabelo e todos os traços fisionómicos, muito compostinhos, são retratados com um cuidado extremo, para
fazer ressaltar uma estética de requinte. Para homem...
A verdade é que há uma história relacionada com a personagem. O "rapaz" era o favorito do
Imperador Adriano (nascido em 76, reinante entre 117–138), espírito sensível, protector das letras e construtor do
castelo romano de Santo Ângelo. A adulação pelo amo levou Antoninus a uma tragédia greco-egípcia.
Com cerca de vinte anos, botou-se ao Nilo e conseguiu afogar-se.
Para quê? Os egípcios "recomendavam" muito uma demonstração máxima de amizade
— assim como esta. É que os anos de vida que seria suposto o afogado ter deixado "cá" ficariam para a pessoa que se
tornava objecto da homenagem suicida.
A personagem imperial perdeu um áulico incontornável, nesta apaixonada tarefa. O desaparecido,
esse, percebe-se, ganhou bem a estátua de que se começou a falar.
O imperador, por seu turno, morreu com 62 anos, sem a maçada de um mergulho. Quanto a longevidade para
o amo, não terá valido de grande coisa o esforço daquela jovem e delicada criatura...
Ideias feitas
A propósito de coisas históricas, é de concluir que ainda é uma grande ideia
avaliar as coisas com os nossos próprios olhos.
Quando se ouve falar do desfiladeiro das Termópilas, imagina-se um vale profundo, na Tessália,
com duas encostas inclinadíssimas a delimitar um espaço acanhado. Com esta percepção, desvaloriza-se
o esforço dos trezentos espartanos que barravam a passagem dos magalas de Xerxes. Se só conseguia passar um inimigo
de cada vez, cada espartano podia "limpar o sebo" a uma série de persas sem maçadas de maior.
A realidade das coisas não é, porém, esta. Trata-se de uma faixa plana de terra, junto ao
mar, com uma largura de centenas de metros, pelo menos em alguns lados. De uma parte tem-se uma encosta, do outro o Mar
Mediterrâneo.
Ao observar o terreno, é que se avalia, com verdadeiro assombro, a valentia e o génio dos
heróis de Esparta.
A estátua do rei Leónidas, no sítio da batalha, justifica-se ainda mais. Uma coisa
é defender uma escassa vereda, entre montes esguios; outra, bem mais complicada, como se verifica, é impedir a
passagem a dezenas de milhares, num espaço com dimensões não desprezáveis.
Imagens
A Grécia, ao contrário de certa imagens que circulam por aí e que retratam o país
como mais próspero que o nosso, não confirma, no terreno, essa ideia. O parque automóvel não é
mais brilhante, a qualidade de vida, urbana ou campestre, não transmite a sensação de se estar num país
especialmente evoluído, em termos económicos.
É um choque descobrir que metade dos gregos vive em Atenas, assim transformada numa gigantesca e
labiríntica cidade de mais de quatro milhões de habitantes.
Uma vista panorâmica da capital grega tem algo de assustador. O horizonte está juncado de "caixotes"
habitados. Os transportes urbanos, por seu turno, parecem bem piores que os lisboetas, com semelhante nível de carteiristas,
como alguém de cá avaliou...
Os restaurantes, hotéis e outros equipamentos turísticos deixam bastante a desejar, tanto ou
mais do que aquilo que cá temos. Os procedimentos são igualmente discutíveis.
Num hotel vistoso, de muitos andares, é possível assistir ao espectáculo deplorável
dos empregados de mesa a recuperarem comida dos pratos dos clientes que não devoraram carne e ossos. Conseguem-se, com esta
matéria-segunda (ou terceira, sabe-se lá...), suculentos empadões para a refeição seguinte...
Trapeza
Em Portugal, quando se diz banco, tanto pode nomear-se um assento, como uma instituição que lida
com dinheiros. Na Grécia, curiosamente, não é esta ideia de abancamento que está em causa quando se
referem tais organismos financeiros. Há mais elevação. Em vez de Banco, diz-se Mesa (Trapeza:
Trapeza).
Como a Grécia tem mais milionários de fama mundial que Portugal, eles, os gregos, terão
a sua lógica. A mesa será mais rendosa. Tem gavetas, por norma, e os bancos só por excepção.
A arte está em saber aceder às previsíveis gavetas.
Entretanto, a avaliar pelos hotéis ou pelas simples "casas de pasto", os portugueses estão muito
mais ao nível da mesa que os gregos...