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reportagem
TEXTO e FOTOGRAFIAS: rui a. araújo e carlos chaves


Centro de Saúde de Ribeira de Pena
Centro de Saúde de Ribeira de Pena


As artroses da Padeira de Aljubarrota


Existirão médicos suficientes em Portugal? Depende do ponto de vista. As populações rurais, sentindo no corpo a sua ausência, dizem que não; a Ordem assegura que sim. O Governo, pelo sim, pelo não, sempre foi avançando com novas faculdades de medicina e anuncia agora medidas de incentivo à fixação de médicos no interior. Sabendo, como sabemos, que as populações rurais não mentem, e não ousando duvidar da douta Ordem nem achar despropositadas as medidas do Governo, inclinamo-nos para pensar que o que haverá é uma má distribuição de médicos pelo território nacional.

O que é que têm então estas paragens bucólicas de Portugal que afugente tão distinta classe? (Já sabemos que a pergunta correcta seria o que é que não têm, mas não apetece agora remexer nas já míticas carências das zonas rurais.) A verdade é que, a despeito do mito, médicos há que vêm de longe e aqui exercem medicina. Portugueses, sim, mas a vaga mais recente habla castellano. Todos temos um familiar ou um amigo que ouviu já alguém de bata branca perguntar «¿Adonde le duele?».

Assim como os guineenses e os russos vêm substituir a nossa mão de obra na construção civil, também os espanhóis e as espanholas têm vindo a colmatar a ausência de mão de obra medicinal nas zonas montanhesas deste Portugal. "De Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos" já não significa nada, tal como ninguém quer saber de Aljubarrota quando a dor aperta. Na doença, tanto agradecemos em português como soltamos um gracias sincero, desde que haja alguém que nos cure as maleitas. O paradoxo é que aqueles que há umas centenas de anos nos queriam ver bem mortos, vêm agora tratar-nos da saúde. Sem ironia.

A doutora Angeles Rabago está em Ribeira de Pena há dois meses. Veio, obviamente, como os compatriotas que a antecederam, pela dificuldade de arranjar vaga nas instituições de saúde do seu país. Mas quem lhe procura as lamentações sobre o exílio penoso, sobre o calvário a que tem de se sujeitar para sobreviver nestas terras, desiluda-se. A doutora Angeles, como os compatriotas que a antecederam, está contente por estar em Ribeira de Pena. Ela, que veio do ambiente urbano de Jerez de la Frontera, gosta dos ares das terras de Pena, gosta do ambiente de trabalho, gosta da terra, gosta da língua (ainda que tivesse dificuldade de a perceber no início), não se arrepende de ter vindo. Aliás, a jovem médica veio para cá precisamente pelas boas indicações que lhe deram os colegas que a antecederam. Portanto, acabe-se de vez com o mito de que é insuportável viver no interior.

Sob os auspícios da União Europeia, os médicos espanhóis encontram em Portugal as vagas que lhes faltam em Espanha. Essa falta de vagas é, segundo Angeles, resultado de um excesso de formaturas em medicina nas universidades que em Espanha proliferam. Mas repare-se que esse excesso de formaturas não impede que a nota para entrar no curso ronde os sete, oito, numa classificação de zero a dez. Não consta que quem entra com um sete no curso seja, depois, pior médico. Assim mesmo pensa o Estado português que recorre aos serviços desses profissionais, o mesmo Estado que, paradoxalmente, mantém uma altíssima nota mínima para o acesso ao curso cá.


placa no exterior do centro
«A planta é o pulmão da cidade,
vila, aldeia; dá ar puro à mente,
saúde ao coração.»


Para a doutora Angeles a razão de haver falta de médicos no interior do nosso país só se pode prender com um número insuficiente desses profissionais no todo nacional. A magnífica paisagem que vê das janelas da casa onde vive ajudará a compensar alguma carência que a vida nestas terras acarreta...

O contacto com os doentes não é mais difícil do que o contacto com os doentes das zonas rurais de Espanha, onde a doutora esteve antes de vir para cá. A barreira da língua ultrapassa-se com o tempo e a experiência, e o facto é que os seus pacientes mantém com ela uma boa relação.

Tal como os colegas, a doutora Angeles tenciona manter-se por cá. No caso de surgir alguma vaga no seu país, ela terá de ser bem ponderada, ser em Espanha não basta. Até porque em Portugal o vencimento para a mesma função é superior(!).

O acesso dos médicos espanhóis às vagas portuguesas processa-se com facilidade, embora eles tenham de apresentar mais alguns papéis, dada a sua origem. Na progressão na carreira são ligeiramente discriminados num dos requisitos, mas estão-lhes, naturalmente, abertas as mesmas portas que aos médicos portugueses. E, por protocolos entre os dois Estados, são feitas as necessárias equivalências para as tranferências e para efeitos de segurança social.

Educada na história espanhola, a doutora Angeles pretende agora ler livros de história portuguesa para ficar a conhecer melhor o país onde trabalha. A música já a apreciava antes, «Amália, Dulce Pontes, Madredeus, os Silêncio Quatro»... O Porto, local para onde se transferiu o namorado depois de ter trabalhado no Centro de Saúde de Ribeira de Pena, já a cativou. É lá que passa os fins de semana. Lisboa ainda não conhece, embora se lembre do ditado que diz que «Quem não viu Lisboa não viu coisa boa».

O Governo português, agora preocupado com a fixação de médicos no interior, disponibiliza-se para lhes dar substanciais regalias. Faz mal. Deveria recorrer ao mercado Espanhol, que fica mais em conta. Eles vêm para as "terríveis" regiões do interior sem incentivos. E gostam.

Após tantos anos de desamparo, até a padeira necessita que lhe tratem das artroses, coño!


P.S. A doutora Angeles Rabago não gosta de fotografias. Mas só à azelhice do fotógrafo se deve o respeito pela sua vontade.

 

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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