edição n.º 17 |
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provocações
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TEXTO: rui ângelo araújo
ILUSTRAÇÕES: paulo araújo |
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O Eito vai iniciar-se na crítica literária. Vai competir com o sr. Padre Minhava.
Nesta edição, para definir o ângulo de incidência e o âmbito da crítica, Rui A. Araújo
introduz-nos naquela que apelidaremos de «literatura transmontana», a literatura que se faz em Trás-os-Montes.
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A literatura transmontana
Literatura, s. f. Conjunto de produções
literárias de um país ou de uma época.
(Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 5ª Edição)
A literatura transmontana (LT) podia ser só anacrónica — e já era má. Mas a LT faz
pior: cultiva a pieguice, o bairrismo, o revivalismo, o provincianismo, o bucolismo, o saudosismo e, mais grave, o analfabetismo.
Excluindo alguns vultos que se distanciam de parte destes ismos, e que, vultos que são, raramente se deixam
ver na sua exacta dimensão (digo eu...), o panorama editorial deste reino resume-se à sempiterna evocação
e exaltação das inultrapassáveis virtudes da alma transmontana — e à necrofilia.
Com a intenção de sustentar casuisticamente o que atrás sentencio, afinei a prosápia
e dirigi-me às livrarias da terra. Para além dos vultos, o que lá encontrei faz mais pelo
descrédito da LT do que a minha verrina pode ambicionar.
Já sei que apelidar de «literatura transmontana» a espécie de prosa que se pode adquirir nas
livrarias é sinal de más intenções. Mas não é outra coisa o que me move. E como até
hoje ninguém veio a público demarcar as fronteiras do que é e não é «literatura transmontana» permito-me meter tudo no mesmo saco. Sem ofensa.
Lancemos então a nossa vista (desarmada, claro) sobre a LT.
A evocação/exaltação
Após aturada investigação, posso asseverar que a LT é gerada em noites de invernia,
no aconchego duma lareira, à sombra de salpicões e outros enchidos. A LT, ela própria um corolário da
ancestral arte de encher, vê a luz do dia, ou, mais propriamente, as trevas da noite, depois que a sogra se deita e ressona,
depois que um par de pantufas vindas da adega (ou do «bar») se aconchegam no escano (ou no maple) bem junto à pichorra,
depois que o bom senso (para mal de todos nós) desiste de aconselhar o repouso. As chamas na lareira crepitam, o vinho
desaparece da pichorra e os fantasmas do passado aprochegam-se ao lar. O escritor, alheio ao metabolismo, ensaia a metafísica
da tribo e exorciza os fantasmas escrevendo diligentemente o que eles ditam. E o que ditam eles? As saudades de quando estavam
vivos; relembram a afeição da mula pela nora, a destreza da Marela ao arado, a necessidade do cajado num
rebanho, a extrema durabilidade do granito, a utilidade da urze na pocilga, a interessante proximidade entre os socos e os
pés, a sempre misteriosa relação da coceira com o surrobeco... Os fantasmas chocalham os esqueletos
decrépitos, abanam os corpos disformes — em transe, o escritor transmontano (ET) satisfaz-lhes a ânsia: dá-lhes
forma. De letra.
A LT evoca a complexa geometria das anciãs aldeias transmontanas, os seus largos horizontes, o
cosmopolitismo da eira, o recato meditabundo da adega, a policromia inspiradora dos trajes das viúvas, as histórias
da Ti Jacinta, as desventuras do Ti Zé, os retalhos da Ti Maria, os coices da burra velha, a superioridade do «rio da minha
aldeia» (Pessoa mal lido. Ou nem sequer.)
Na LT evocam-se as gentes rijas e sofredoras, as casas humildes de virtude, os solares alegretes de pasmar e
fantasiar, e, mais do que tudo, a paisagem: os socalcos do Douro (degraus de gigantes!), a neve do Barroso (açúcar
dos deuses!), as amendoeiras de Freixo (jardins do Éden!). A Terra Quente é maravilhosa — porque é quente;
a Terra Fria é espantosa — porque é fria; as zonas moderadas deslumbram pelo sóbrio equilíbrio
climatérico! É assim Trás-os-Montes na LT.
A LT adopta o passado para distracção do presente, e ainda assim coloca-lhe o filtro da
efabulação. É que o leitor transmontano nunca lerá uma obra que não tenha intenções
sérias. E na mui própria gramática transmontana seriedade é sinónimo de exaltação.
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Atente-se na seguinte história. Certo dia surge nas bancas aguiarenses uma obra, literatura de viagens,
onde um jornalista espanhol regista a sua deambulação por terras lusas. Da passagem por esta Vila Pouca de Aguiar
(que ele — ou o tradutor... — apelida infamemente de aldeia...) deixou registadas três ou quatro coisas, a mais grave das
quais é uma opinião depreciativa sobre a estética da Capela da N.ª Sr.ª da Conceição. O livro,
obra sacrílega, está bom de ver, foi remetido com grande alarido e mãos no peito para o Index e sobre
a cabeça do autor paira uma ameaça de morte dolorosa (em cada transmontano há um ayatollah). Consta
que o homem se exilou em Londres com Rushdie.
A necrofilia
Quando a LT não se fica pela evocação do passado, pela descrição e
exaltação da paisagem, quando se aventura numa trama mal urdida, é, ainda assim, ao cemitério que
recorre.
Para sermos justos temos que reconhecer que o moderno escritor transmontano não é necrófago,
não anda pelos cemitérios a devorar cadáveres. Mas tem, na verdade, um mal resolvido problema sexual — só
se realiza (para ser decente nas palavras) na presença de certas ossadas. A sensualidade do ET só se excita com certo
corpo em decomposição. E, como explicou Freud, a sexualidade é tudo, inclusive literatura. Não admira,
portanto, que, num lampejo de coerência, o ET, que vive da evocação do passado, da exaltação do
passado, tenha uma predilecção sensual pelas lunetas do Camilo, pelas bexigas do Camilo, pelas ossadas do Camilo.
Camilo, em toda a extensão dos seus bigodes, é o sex symbol do ET.
O cadáver de Camilo (o que dele resta) é mais desgastado pelos seus amantes do que pelos
competentes vermes. A paixão literária, como qualquer paixão, provoca arroubos: um chupão daqui, um
chupão dali, a coisa vai até ao tutano. O pobre Camilo, musa bigoduda inspiradora de tanto e tanto transmontano, de
tão chupadinho que está, já quase não pode dar voltas no caixão de cada vez que por cá
sai um livro.
A crítica
Em Trás-os-Montes não há crítica literária (porque não há
literatura, diz-me um ignorante aqui ao lado) — há a exaltação grandiloquente do ET, há o encómio
desgarrado, há a hipérbole na ponta da língua, há a admiração desbragada, há a
saída em ombros, hip hip hurra!, erguem-se estátuas, revelam-se Homeros, anunciam-se Camões, adivinham-se
Saramagos (ups... Saramagos não, carago!).
Sempre que em Trás-os-Montes se publica a prosa ignara do costume, deviam tocar os sinos a rebate,
deviam bradar penitências os padres, deviam carpir as mulheres, usar o cacete os homens, devia haver bengaladas, corpos na
fogueira, cordas na azinheira!... Devia escrever-se epitáfios nos jornais!... Devia berrar-se elogios póstumos nos
cafés!...
Mas não. Há sempre um amigo a escorrer tinta em louvor, há sempre um iletrado a celebrar
o analfabeto! Há incenso! Há ouro! Há mirra! Ah, porra!
E há ainda o sr. Padre Minhava — o eminente filólogo, o mais distinto e activo crítico literário da região — a esquecer a sintaxe, a semântica, a morfologia, a estilística, e a admirar o louvor da Primavera, a maravilhar-se com a apologia do Bem e do Sol, a enaltecer-se com as lágrimas da saudade...
Nota 1: Retalhos Transmontanos de Margarida Fidalgo Fontoura e Alma Transmontana de Maria de
Fátima Gomes eram os livros que tinha escolhido para iniciar esta rubrica. Li os títulos.
Nota 2: Um conselho a quem não quiser ser visado nesta coluna do Eito Fora: escreva livros infantis!
(E daí...)
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ruiaaraujo@periferica.org
pabloarau@periferica.org

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EITO FORA: transmontano sem preconceitos
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