Segurar os alfinetes com os lábios
Eurico Notário reconheceu, ainda na adolescência e perante si próprio, a vocação
de uma carreira instintivamente escolhida. Observava a mãe, na aldeia natal de Quintã de Jales, Vila Pouca de Aguiar,
a realizar arranjos em roupas várias, em tecidos vários, e, na escola, esboçava desenhos para escapar à
seca da professora. Quanto ao resto, digamos que as revistas de moda e as idas frequentes ao Museu do Traje em Lisboa foram mais
do que suficientes para alimentar o instinto...
No final do Ensino Secundário corta com o Trás-os-Montes profundo e ruma para a capital à
procura de uma formação teórica, complemento essencial para costurar uma profissão. Frequentou,
então, em meados dos anos noventa, o Instituto "Ilda Nunes" em Lisboa. Cidade da Moda! A família concordou, sem reservas.
«No inicio o meu pai achou estranho – não se ouvia falar e talvez não tivesse futuro –, mas nunca foi contra. "Se
fosse para ficar em Lisboa", acrescentava...».
Regressa para Vila Real. Trás-os-Montes. Desencanta um pequeno atelier onde permanentemente renova
criações estéticas. Mas... «Os transmontanos acham bem que os jovens regressem à terra, no entanto
verifico que dão mais valor à marca do que ao criador. Efeitos da etiqueta, porque a peça, muitas vezes,
é de qualidade inferior..». Mesmo assim vai havendo algumas encomendas! E apoios para os desfiles e apresentações
de colecções! Hoje, aos 25 anos e com quase uma dezena de exibições, ainda recorda o primeiro desfile,
no Casino de Pedras Salgadas em 1996.
No ar, a música – ópera, clássicos, contemporâneos – sempre acompanha o acto criador,
a concepção das colecções, para que um dia, talvez, tenha um espaço de venda. «Os clientes já
solicitaram isso, mas existe sempre o receio de avançar». A lojinha dos sonhos. Com todas as cores, porque as adora todas.
Todas... mas preferencialmente os pretos, os verdes e os bordeaux! Tonalidades que enchem os cetins, os veludos... E peles?
«Só e impreterivelmente imitações de peles. Matar um animal para isto é um capricho, uma
ostentação desnecessária!».
Sonha com a ousadia e a extravagância de Dolce & Gabbana, a irreverência da casa Versace,
o absurdo de John Galliano (como se veste?...). Fátima Lopes, porque «veste as roupas que faz». Ana Salazar, porque
revolucionou a moda em Portugal.
Não desdenhava o reconhecimento a nível nacional... Para tal vai procurando criar roupa ousada,
original. Transparências e grandes decotes. A máxima do Eurico reside neste slogan tripartido: «A roupa deve
ser divertida, original e sexy!».
No horizonte repousam alguns objectivos. «Nunca fiz colecção para homens; faço a minha roupa
e a de alguns amigos. Mais tarde..». Entretanto, em Setembro próximo, vai apresentar a primeira colecção de
Outono/Inverno, onde vai mostrar peças em alta costura, veludos, rendas e imitações de peles. Os olhos brilham
e o olhar incide sobre os trapos que envergam as amigas modelos Madalena Ferreira e Cinda Coimbra.
Eurico Notário quer coser algumas estrelas ao seu destino. Para isso, para libertar as mãos
criadoras, segura, firme, os alfinetes nos lábios. E isso sempre me meteu uma impressão dos diabos!
lcteixeira@aeiou.pt
| (Ao lado:) Primeira produção de moda em
Vilarelho. O vento frio não demoveu as modelos, mas também não foi o suficiente para mostrar um
pouco mais... da aldeia. Ainda assim, bateram-se chapas na Eirinha, no Penedo, profanou-se o celeiro da Sra. Belmira e
aqueceu-se o ambiente no bar do Clube. A Sra. Maria Gonçalves, que não beneficiava da vantagem de envergar
um dos magníficos vestidos do Eurico, posou, ainda assim, com um tal garbo que fez inveja às meninas. Se
perdeu esta sessão, e já que não é possível aqui mostrarmos tudo, o melhor é
reservar lugar para quando o Eurico fizer a apresentação da colecção Primavera/Verão
2002 no Fraga do Alto. As leitoras têm ainda a possibilidade de aparecer no atelier do estilista e consultar os
álbuns enquanto provam o novo traje... |