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proesia
TEXTO: vítor nogueira



Meia dúzia de momentos


Tenho a impressão de que era uma segunda-feira. Meio-dia, mais coisa menos coisa, o sol a pino. Numa das mãos um eterno baralho de cartas, há muito incompleto. O olhar, se é que o trazia, não lho vi. Mas era possível que o trouxesse. Podia trazê-lo por baixo do amplo chapéu de palha. A palha era amarela, pois então! De um amarelo desanimado como o de qualquer palha que por aí se vê. Não tenho a certeza se estava sozinho. Dediquei-lhe meia dúzia de momentos. E nesses momentos não me ocorre que lhe tenha visto o cão. Por fim parou um táxi. Entrei, segui. E ele ficou a dobrar sucessivamente a esquina, como sempre acontecia. Tenho a impressão de que era uma segunda-feira, já o disse. Mas podia muito bem acontecer que fosse uma terça, ou uma quarta, ou até uma quinta. É claro que às sextas ele não parava por ali. Nunca soube porquê. E depois metia-se o fim-de-semana. Eu fingia que deixava a rotina, iludindo-me com outra rotina qualquer. No fundo à espera de mais uma segunda-feira: a cidade, o centro da cidade, o escritório no centro da cidade, o trabalho no escritório no centro da cidade, o final da manhã, um suspiro de alívio, meio-dia, mais coisa menos coisa, às vezes o sol a pino, outras vezes nem por isso, eu do lado de cá, ele do lado de lá, meia dúzia de momentos, um táxi. Depois veio uma terça-feira, tenho a certeza de que era uma terça-feira, acordei como sempre acordava às terças-feiras, julgo ter aberto os olhos da maneira como sempre os abria às terças-feiras, o mundo manteve-se escuro, procurei o interruptor na mesa-de-cabeceira, liguei-o, o mundo manteve-se escuro, esperei calmamente que os olhos se adaptassem a qualquer coisa, o mundo manteve-se escuro, comecei a estranhar a cor do mundo, assustei-me, saltei da cama, tropecei, caí, o mundo manteve-se escuro. Ceguei. Ponto final, parágrafo. Talvez devesse mesmo mudar de parágrafo, se a vida não fosse um contínuo até esse derradeiro ponto, ao qual nenhum parágrafo sucede. Bom, é certo que os meus amigos procuravam animar-me, ainda que eu pouco lhes ligasse, convencido da definitiva escuridão do mundo. Mandei que me comprassem um baralho, e a verdade é que o fizeram com uma obediente rapidez. Ninguém se atreveu a perguntar para que queria um cego um baralho, facto que me levou a reflectir sobre o indesejável poder que se conquista quando a compaixão se sobrepõe à amizade. Claro que as cartas pouco mais serviam do que para manter as mãos ocupadas, numa espécie de tique que me aliviava, pelo tacto, a falta de visão. E as cartas foram-se perdendo. E mandei que me comprassem um amplo chapéu de palha. De palha amarela, pois então! De um amarelo desanimado como o de qualquer palha que por aí se vê... Não sei bem que dia é hoje. Mas hoje, finalmente, decido arriscar no mundo, tanto quanto o mundo mo permite, insuportável como se tornou o espaço a que me tenho limitado. Saio para a rua e vou pedindo a quem passa que me chame um táxi. Não demora muito a aparecer ajuda, provavelmente um escuteiro à procura de uma boa acção. O fulano tem voz grossa. Não sei se anda vestido de menino, sei é que pela primeira vez não acho graça às velhas piadas sobre escuteiros que de repente me ocorrem. Pouco depois o táxi, a cidade, o centro da cidade, a esquina do escritório onde cheguei a trabalhar numa outra vida. O taxista, o taxímetro, confio no taxista, a conta, o dinheiro, o troco. Se quero que me ajude a atravessar... Mas então esta não é a esquina do escritório? Que sim, que é a esquina do escritório, mas que costuma ver-me na esquina do lado oposto. Pergunto-lhe se acaso hoje é sexta-feira. Que é sexta-feira, sim, senhor. Sorrio. Sorrio pela primeira vez desde que o mundo escureceu. Hoje não tenho concorrência.

 


v.nogueira@periferica.org

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