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Meia dúzia de momentos
Tenho a impressão de que era uma segunda-feira. Meio-dia, mais coisa menos coisa, o sol a
pino. Numa das mãos um eterno baralho de cartas, há muito incompleto. O olhar, se é que o trazia, não
lho vi. Mas era possível que o trouxesse. Podia trazê-lo por baixo do amplo chapéu de palha. A palha era
amarela, pois então! De um amarelo desanimado como o de qualquer palha que por aí se vê. Não tenho a
certeza se estava sozinho. Dediquei-lhe meia dúzia de momentos. E nesses momentos não me ocorre que lhe tenha visto
o cão. Por fim parou um táxi. Entrei, segui. E ele ficou a dobrar sucessivamente a esquina, como sempre acontecia.
Tenho a impressão de que era uma segunda-feira, já o disse. Mas podia muito bem acontecer que fosse uma terça,
ou uma quarta, ou até uma quinta. É claro que às sextas ele não parava por ali. Nunca soube porquê.
E depois metia-se o fim-de-semana. Eu fingia que deixava a rotina, iludindo-me com outra rotina qualquer. No fundo à espera
de mais uma segunda-feira: a cidade, o centro da cidade, o escritório no centro da cidade, o trabalho no escritório
no centro da cidade, o final da manhã, um suspiro de alívio, meio-dia, mais coisa menos coisa, às vezes o
sol a pino, outras vezes nem por isso, eu do lado de cá, ele do lado de lá, meia dúzia de momentos, um
táxi. Depois veio uma terça-feira, tenho a certeza de que era uma terça-feira, acordei como sempre acordava
às terças-feiras, julgo ter aberto os olhos da maneira como sempre os abria às terças-feiras, o mundo
manteve-se escuro, procurei o interruptor na mesa-de-cabeceira, liguei-o, o mundo manteve-se escuro, esperei calmamente que os
olhos se adaptassem a qualquer coisa, o mundo manteve-se escuro, comecei a estranhar a cor do mundo, assustei-me, saltei da
cama, tropecei, caí, o mundo manteve-se escuro. Ceguei. Ponto final, parágrafo. Talvez devesse mesmo mudar de
parágrafo, se a vida não fosse um contínuo até esse derradeiro ponto, ao qual nenhum parágrafo
sucede. Bom, é certo que os meus amigos procuravam animar-me, ainda que eu pouco lhes ligasse, convencido da definitiva
escuridão do mundo. Mandei que me comprassem um baralho, e a verdade é que o fizeram com uma obediente rapidez.
Ninguém se atreveu a perguntar para que queria um cego um baralho, facto que me levou a reflectir sobre o indesejável
poder que se conquista quando a compaixão se sobrepõe à amizade. Claro que as cartas pouco mais serviam do
que para manter as mãos ocupadas, numa espécie de tique que me aliviava, pelo tacto, a falta de visão. E as
cartas foram-se perdendo. E mandei que me comprassem um amplo chapéu de palha. De palha amarela, pois então! De um
amarelo desanimado como o de qualquer palha que por aí se vê... Não sei bem que dia é hoje. Mas hoje,
finalmente, decido arriscar no mundo, tanto quanto o mundo mo permite, insuportável como se tornou o espaço a que
me tenho limitado. Saio para a rua e vou pedindo a quem passa que me chame um táxi. Não demora muito a aparecer
ajuda, provavelmente um escuteiro à procura de uma boa acção. O fulano tem voz grossa. Não sei se
anda vestido de menino, sei é que pela primeira vez não acho graça às velhas piadas sobre escuteiros
que de repente me ocorrem. Pouco depois o táxi, a cidade, o centro da cidade, a esquina do escritório onde cheguei
a trabalhar numa outra vida. O taxista, o taxímetro, confio no taxista, a conta, o dinheiro, o troco. Se quero que me
ajude a atravessar... Mas então esta não é a esquina do escritório? Que sim, que é a esquina
do escritório, mas que costuma ver-me na esquina do lado oposto. Pergunto-lhe se acaso hoje é sexta-feira. Que
é sexta-feira, sim, senhor. Sorrio. Sorrio pela primeira vez desde que o mundo escureceu. Hoje não tenho
concorrência.
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