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história
TEXTO: luís c. teixeira
FOTOGRAFIAS: paulo araújo e arquivo do centro de formação


Bonifácio Alves Teixeira
Bonifácio Alves Teixeira
(Foto de arquivo do Centro de Formação)
O testamento
Esta é a verdadeira historia de um homem capaz de construir o destino


Antes de pensar em suicidar-se naquele Verão de 1907, Bonifácio Alves Teixeira deixara no seu testamento mais do que "um exemplo de benemerência": um tratado sobre a natureza e a mentalidade humana — entre o pensamento e a praxis. Sem hipocrisia e afastando-se das palavras bonitas, ou seja, de tudo aquilo que tipifica o vulgo lusitano.

Esta história não resume o suicídio à descrição de um acto desesperado! Não procura causas remotas nem o verdadeiro leit motif — embora saiba onde ele reside. Paradoxalmente, este acontecimento vale pelas aberturas criadas post mortem. Significa acima de tudo um ponto de partida ou os alicerces de uma atitude perante o homem e a sociedade.


Quando partira para o Brasil aos catorze anos (1860), Bonifácio Alves Teixeira nunca imaginaria um regresso à terra natal de Vidago com bolsos cheios e ideias iluminadas! Tudo resultado de um vida de negócios (?), de investimentos em acções bancárias com algumas heranças à mistura; e de muitas viagens pela América, Europa e parte da Ásia. Um cosmopolitismo que é provavelmente a primeira base teórica (se quisermos o pano de fundo) de um espírito liberal e excêntrico! O "mal ruim" que o apoquentava foi o ponto de fuga para o provocar da morte. Essa fuga para a frente, ao ser tipificada pela minúcia e transparência de um testamento, feito previamente, permite a não banalização do acto e paralelamente o enobrecimento do sujeito. Eis a crónica de uma morte anunciada, um ano antes...

O documento apresenta um rol de tarefas a realizar, de modo que a localidade de Vidago seja dotada de duas Escolas Primárias — «uma para meninas e outra para meninos» — e uma Escola Móvel Agrícola. Tudo escrupulosamente discriminado: utilização dos dinheiros, pormenores de construção, actividades a desenvolver...

«Em nome de Deus, Amen». Assim começa o testamento com que faleceu Bonifácio Alves da Silva Teixeira demonstrando um pensamento religioso fundamentado na fé e na crença. «Creio existir um Deus que tudo governa e determina», acrescenta de imediato. Duas expressões que corroboram a ideia de Deus. No entanto, logo a seguir apresenta ideias intrigantes e algo contraditórias quando afirma não acreditar em «revelações nem em nada sobrenatural». Mas, também não é verdade que a fenomenologia ambiciona a um Deus independente do Mistério? Como se fosse possível contextualizá-lo nas leis naturais? Aqui se incluem as permanentes polémicas à volta da figura de Cristo! Um questão sempre actual... Igualmente manifesta desprezo por toda a teia clerical, cerimónias religiosas e peias dogmáticas ligadas ao culto. «Se a lei não proibir, quero que o meu cadáver seja queimado juntando-se para isso dois carros de achas de lenha; o meu cadáver colocado ao alto e depois de tudo, lenha e cadáver, ser bem regado de petróleo, lançar fogo a tudo, e, quando tudo estiver reduzido a cinzas, espalhar estas que são potassa, bom adubo para as terras». Obviamente que a mentalidade e a legislação, vigente na época, não autorizaram essa ousada pretensão! Prevendo que tal acontecesse, apresenta a solução com um pragmatismo quase instantâneo «quero então ser enterrado no cemitério, em carneiro,1 (...). Sendo o meu cadáver queimado ou enterrado civilmente, como determino, não quero funeral, nem missas, nem reza de ano, nem oficio nem nada, porque não creio que essas ciosas sejam úteis para a minha alma, antes as considero nocivas». Indagados alguns familiares descendentes dos amigos de Bonifácio, estes revelaram que também esta aspiração alternativa acabo por não se concretizar. Embora, as cerimónias religiosas fossem reduzidas ao mínimo permitido. Antecipa. Desta forma e com alguns anos de adianto, a onda marcadamente anticlerical que surgiu nos primórdios do republicanismo. Uma atitude firme do ponto de vista ideológico!


Antiga escola primária

Uma das escolas primárias erguidas com o
legado de Alves Teixeira; hoje, neste
edifício funciona a Junta de Freguesia de
Vidago. (Foto de Paulo Araújo)

Também na orgânica das Escolas Primárias encontramos a presença da questão religiosa. Com detalhes extremamente geniais, e para além dos pormenores técnicos da construção dos edifícios, esboça o perfil dos professores. «Serão as duas escolas fechadas se (...) tiverem por professor ou professora padres, frades ou freiras; pais, mães, irmãos ou irmãs de padres, frades ou freiras (...), isto de qualquer religião, não se podendo ensinar, nas ditas escolas, doutrinas religiosas, as quais (doutrinas) é aos pais que compete ensinar». Esta atitude preconiza a ideia de laicização2 que os governos republicanos vão posteriormente defender ao criar (e regulamentar) a Lei da Separação do Estado e da Igreja. Neste caso, não quer a presença da religião no ensino. Evidentemente que, por detrás tudo isto podem estar leituras clandestinas sobre a rès publica. A coisa pública, pois! O poder! Ou o advento da República em vez da Monarquia! Já a seguir...

Ainda na vertente educativa, esta personalidade impressiona pela importância dada ao conceito de Educar Para A Cidadania. Em termos concretos, deixa vinte quadros para ambas as escolas «onde se mandará imprimir, com a máxima clareza, alguns conselhos úteis e algumas máximas morais (...)». Embora com uma utensilagem mental própria da época, cada uma delas remete para um percurso pedagógico que marca toda actualidade do processo ensino-aprendizagem em Portugal. Escolhemos algumas — Todas as pessoas nascem para serem livres ou o medo não existe (ambas ligadas aos Direitos Humanos); Sendo as pessoas superiores aos brutos, não devem imitar estes, sujando os passeios públicos com porcarias, com coisas repugnantes à vista e prejudiciais à saúde (a Higiene Pública); As árvores não se destroem, porque as árvores produzem frutos para comer (...), e purificam o ar que respiramos (uma ideia Ecológica?!); Os animais domésticos não se maltratam, uns por serem úteis, outros por serem guardas e outros por ajudarem os homens nos seus trabalhos (ou os Direitos dos Animais!); O trabalho, qualquer que seja, honra as pessoas ou ninguém deve envergonhar-se de trabalhar (um atitude de valorização e dignificação do próprio homem enquanto cidadão); A vaidade é prejudicial aos homens, e muito mais às mulheres... (Sem comentários!) Correlações todas elas ligadas à Formação Cívica. Neste sentido antecipa-se à própria teorização que esta a ser feita actualmente pelas autoridades competentes!3

Relativamente à Escola Móvel Agrícola simplesmente adianta que «esta há-de funcionar sempre». E funciona! Tudo partiu daquele bolo inicial oferecido por testamento que serviu para aquisição do terreno. Ele que preconizava um serviço de extensão agrária para os eu concelho e alguns vizinhos. A partir de final dos anos oitenta passou a designar-se Centro de Formação Agrária "Alves Teixeira", em Vidago.


Centro de Formação Agrária

Centro de Formação Agrária "Alves Teixeira" – Vidago.
(Foto de arquivo do Centro de Formação)

Todo o testamento é um exemplo de clareza e pragmatismo, quer nas ideias quer nas tarefas conducentes à execução oficialmente correcta do mesmo. Desde a gestão dos bens e dinheiros até ao controlo das tarefas a executar! Como se o testamento se fiscalizasse a si próprio! Exemplos. «Se não forem cumpridas todas as condições que imponho para o funcionamento das três escolas, determino que prédios, obrigações ou dinheiro, tudo, (...) passará metade para a Misericórdia de Chaves e a outra metade para a Misericórdia de Vila Real...». Mais! Atribui responsabilidades a quem de Direito! Senão vejamos! «(...) Incumbo à Câmara Municipal de Chaves, bem como aos demais interessados, de vigiarem pelo exacto cumprimento das condições que estabeleço para regular o andamento das três Escolas que fundo. Marco o prazo de um ano para prestação de contas a quem de direito do presente testamento».

Pelo meio, encontramos ainda criticas ao funcionalismo publico e à politiquice que envolve a administração das misericórdias . Palavras para quê? Se nunca as palavras foram tão poucas!

O gosto pelo pormenor não é sinónimo de requinte, mas sim uma forma de combater o erro e a fraude! São carradas de generosidade a viajar por sinuosos caminhos. Não estranha pois a desconfiança do testador... «Deixo dois contos de réis para ajudar a abastecer de boa água a aldeia de Vidago, mas cautela que não se gastem sem obter água. A gente de Vidago é comilona e mais alguma coisa». Das rendas do capital obtinha-se recursos para ocorrer às despesas, mas cuidado «(...) não comam o dinheiro sem nada repararem ou conservarem. Os ladrões são muitos». Remata o dito cujo Bonifácio.

Que não se esquece dos pobres, na altura do testamento e, até depois... «Aos pobres de Vidago, de um e de outro sexo, honrados, velhos, impossibilitados de trabalhar, cegos, inválidos, deixo cem mil réis, não podendo a dádiva a cada um ir além de dez mil réis . Todos os legados que deixo são livres de qualquer imposto de contribuição». Limpinhos e sem encargos!

A morte segundo um testamento? Uma suprema simbiose entre a teoria e a prática, entre a filosofia e a realidade? Um exemplo de vida, porque saber morrer também é uma virtude? Pragmatismo em doses tão elevadas, que chocam com o espirito latino? Sem deixar de ser nobre, a solidariedade pode ser quantificável? A morte também pode ser bonita? Tantas interrogações para buscar um simples título.. Qualquer deles serve, mas também qualquer deles é insuficiente! Porque Bonifácio Alves Teixeira (1846/1907) simplesmente revelou genialidades de um simples homem. Nem sequer foi preciso ser um génio! Esses só nascem nas lâmpadas de Aladino!

Notas:
1
A expressão "em carneiro" significa completamente nu e/ou apenas coberto por um lençol. Uma ideia que auxilia a compreender o desejo de um funeral inteiramente civil.
2 Acção pela qual o Estado passa a ser neutro em matéria religiosa, assim como a Igreja deixa de ter um papel activo na vida política e social, perdendo influência que tinha nas instituições de ensino, de saúde, etc.
3 No próximo ano lectivo de 2001/2002 entra em vigor nas nossas escolas, e para alguns graus de ensino, um nova área não disciplinar designada Formação Cívica. Sintomático!


lcteixeira@aeiou.pt

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EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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