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entrevista
TEXTO: rui ângelo araújo e carlos chaves
FOTOGRAFIAS: paulo araújo


fotografia de Paulo Araújo


Anabela Mota Ribeiro


A Anabela Mota Ribeiro (já) não é uma artista, não é uma figura da política, das artes, ou do que quer que seja (embora tenha uma boa figura). O Eito Fora também não prima pela correcção política na escolha dos seus entrevistados. Por isso a entrevista que vai ler (vai?) transcreve apenas uma conversa com alguém que, tendo-se iniciado nas lides profissionais por terras transmontanas, soube criar e agarrar oportunidades, soube crescer e libertar-se de espartilhos, soube cultivar-se e aprofundar conhecimentos, soube transformar-se numa profissional requisitada. Quantos podem dizer o mesmo?

A menina Anabela cantou "A Minhoca Foi À Praia", esteve nos festivais da música ligeira, fez o calvário das rádios locais e regionais; a senhora Anabela fez televisão, faz entrevistas e reportagens para o DNA (suplemento aos Sábados do DN), faz a programação de conteúdos de ajanela.com (revista cultural online da Madragoa Filmes, empresa do produtor de cinema Paulo Branco), faz entrevistas para as Selecções do Readers Digest e faz «coisas assim».

A incompatibilidade de agendas levou os repórteres à capital (não à Kapital, repare-se) e à lady´s night do Salsa Latina a meio da semana. Como diria o brasileiro, dançámos.

Acordar ao outro dia para estar às onze horas (da manhã!) em casa da Anabela é que foi o cabo dos trabalhos. Alguma superfluidade na entrevista não deve de modo algum ser assacada à rapariga, mas sim à tremenda ressaca dos entrevistadores. Quando a coisa, por nossa culpa, quis resvalar para o estilo Caras (e a nossa promissora carreira para a sarjeta) começaram as obras no andar de baixo como campainhas celestes. A tempo?


Vamos tentar começar pelo princípio. Antes da comunicação social, a Anabela ainda andou pelo mundo do espectáculo. Cantou... Entrou no mundo da comunicação por vocação ou foram as circunstâncias que a levaram a isso?

A resposta não é taxativa. Numa primeira fase, quando eu comecei a cantar e a aparecer, a fase dita artística, a influência do meu pai foi predominante.

Era muito jovem?

Sim, sim. Eu apareci na televisão pela primeira vez aos oito anos no Festival da Figueira da Foz. Mas essa coisa de aparecer na televisão não é relevante, o que é relevante dessa fase é uma noção de plateia que acho que acompanhou a minha vida em momentos cruciais, ou seja, a noção de haver expectativas em relação a mim, a noção de haver uma plateia que estava a observar-me, a consumir-me, e à qual era suposto agradar.

E isso agradava-lhe a si? Ser observada, aplaudida...

Eu julgo que comecei a sentir um desconforto aí pelos treze anos... Apesar de tudo, os espectáculos, a televisão, eram experiências inusitadas para uma menina que vivia numa cidade de província.

Nasceu em Vila Real?

Não. Nasci em Arco de Baúlhe. Lá vivi até aos seis anos e depois fui viver para Vila Real.

E quando teve a percepção de que esta ia ser a sua vida?

Não sei exactamente quando. Sei é que olhando para trás não é nada estranho perceber que eu tenha vindo a trabalhar na comunicação. Sobretudo a partir dos quinze anos, a altura em que comecei a fazer rádio. Na escola gostava das ciências sociais e de história. Gostava muito de ter tirado o curso de história, mas matriculei-me em direito em Coimbra. Mas exactamente nesse ano convidaram-me para trabalhar na Rádio Nova.

Aí já tinha andado pelas rádios locais?

A primeira rádio onde eu trabalhei não foi uma rádio local, foi a Rádio Alto Douro, que, sendo uma delegação da RDP, tinha um registo muito mais profissional.

Como é que foi para a Rádio Nova? Alguém a ouviu, alguém a conhecia?

A Rádio Nova apareceu por acaso. Eu estava a comentar com uma pessoa qualquer do Porto que, se vivesse no Porto, a rádio onde eu gostava de trabalhar era a Rádio Nova e se vivesse em Lisboa era a TSF. Eram os meus modelos de rádio. E essa pessoa disse-me: «Olha que coincidência, eu conheço o director da Rádio Nova. Se quiseres entrego-lhe o teu currículo». Fui lá, ficaram com o meu currículo e se houvesse alguma coisa contactavam-me. A verdade é que passado uma semana — foi uma sorte extraordinária! — o director telefonou-me a dizer que tinha acabado de comprar um programa de música country e gostava de fazer uma versão daquilo em Portugal, e que para isso gostava de ter uma pessoa completamente nova.


fotografia de Paulo Araújo


Tinha algum interesse pela música country ou nem por isso?

Não. Podia ser outra qualquer. Eu depois tenho é o bom senso de me aplicar. Comprei umas enciclopédias...

É uma autodidacta? Quer dizer, investiga e vai procurando adquirir conhecimentos sobre aquilo que está a fazer?

Sou. Isso é ter um mínimo de responsabilidade naquilo que se faz, não é? Eu tive sempre essa noção de responsabilidade. Talvez venha de trás, dessa coisa de saber que há uma plateia que consome e que tem expectativas e que não pode ser desiludida.

Exige de si própria estar à altura das circunstâncias?

Sim, há algumas coisas que eu não me tolero. E em relação às quais eu sou muito rigorosa comigo mesmo. Por exemplo, eu fico doente se me atraso.

E se forem os outros? (Nem imagina o esforço que fizemos para acordar a horas de estar aqui, depois da noite de ontem...)

Vocês foram pontualíssimos! Mas isso é o tipo de coisas que não tolero em mim, ainda que possa ser extremamente complacente com os outros.

Na Rádio Nova quanto tempo esteve?

Estive meio ano naquele regime de colaboração e depois convidaram-me para trabalhar a tempo inteiro. Estive seis anos a tempo inteiro, até aos vinte e cinco.

Chegou a frequentar direito?

Não. Para mim foi claro que eu tinha era que aproveitar aquela oportunidade que me estavam a dar e ir fazendo o curso aos bocadinhos, depois, quando fosse possível. Fui lá matricular-me. Entrei numa vida louca e deixei de ter tempo para pensar nisso. Agora, há um ano e meio, voltei a estudar e estou no segundo ano de filosofia.

A ida para a televisão... Alguém a ouviu na rádio?...

Sim, foi exactamente assim. Porque me conheciam da Rádio Nova...

Foi logo trabalhar com o Manuel Luís Goucha?

Sim, foi assim que eu comecei. Foi uma pessoa da RTP Porto, que na altura era responsável pela programação, que me convidou. Telefonaram-me a perguntar se não queria fazer um casting. Dei uma resposta muito estúpida: «Eu?! Eu não tenho jeito nenhum!». Fiz o casting e achei que aquilo me tinha corrido pessimamente. Chorei muito. Telefonaram-me passado uns dias a dizer que tinham gostado e que tinha ficado com o lugar...

E gostou dessa experiência?

Essa foi uma fase muito intensa da minha vida. Eu tinha vinte e dois anos, fazia vinte e três quando comecei. Durante dois anos a minha vida foi terrível. Estava na televisão em directo entre as dez e a uma, e depois entrava na Rádio Nova, que ficava exactamente no lado oposto da cidade, às duas horas. Estava três horas em directo de manhã, a ser vista e ouvida, e à tarde estava quatro horas a ser ouvida. Depois ia para casa e ainda ia preparar o programa da televisão do dia seguinte.

O Manuel Luís Goucha ajudou-a a entrar no ritmo das coisas?

Sim, mas...

(Uma falha grave: devíamos ter relido a entrevista que fez ao Manuel Luís Goucha para o DNA!...)

(Risos). O Manuel Luís, nessa entrevista que lhe fiz, disse (aliás, até foi tocante tê-lo dito na entrevista) que a dada altura teve algum ciúme... Eu não tinha muito essa sensação. Mas julgo que isso tem que ver com aquilo que sou. Eu não estou muito com as pessoas... Não gosto dessa erosão que o quotidiano implica nas relações e resguardo-me bastante. Gosto de trabalhar em casa, prefiro trabalhar em casa. E por isso as relações profissionais, de uma maneira geral, são simpáticas, são afáveis — não sou capaz de ter conflitos com as pessoas —, mas dificilmente vão além disso. Não me envolvo o suficiente. Em relação ao Manuel Luís, por exemplo, nunca tive o telefone dele.

Depois foi logo fazer o "Falatório"?

Não. Fiz, ainda no final do "Programa da Manhã", o "Ligações Perigosas", que era aquela boneca virtual... Fazia a voz e os movimentos. E depois fiz um pequeno magazine de televisão. Aquilo correu muito mal e eu não quis fazer mais... Não tinha ponta por onde se pegasse.

Não me lembro disso.

Até eu mesma me esqueço (risos).


fotografia de Paulo Araújo


O "Falatório" foi por convite também?

Foi. A pessoa que me convidou foi o Joaquim Vieira, que por acaso é hoje um dos meus melhores amigos. (Portanto esta coisa de trabalhar com as pessoas às vezes também resulta bem.) O Joaquim Vieira era o director de programas, o braço direito do Joaquim Furtado. Ele pensou que um dos "Falatórios" poderia ser sobre sexualidade com o Júlio Machado Vaz e comigo. Depois, sobretudo por razões de ordem financeira, eles não chegaram a um acordo e o Joaquim perguntou-me se eu fazia o programa sozinha.

O que é que sentiu perante esse tema? Na altura ainda não era um tema tão vulgar como agora, ou já?

Não senti nada de especial. Não sou nada complexada. O Júlio tinha feito já o "Sexualidades".

Também teve de fazer investigação?

Sim, ainda que eu aí representasse as pessoas comuns e as suas dúvidas.

Do "Falatório" salta para o DNA. Como é que apareceu no DNA?

Na altura o Pedro Rolo Duarte [o editor do DNA] era meu colega de "Falatório" (ainda que o meu "Falatório" fosse feito no Porto e todos os outros em Lisboa), e eu propus-lhe uma ideia. Ele disse-me que aquela ideia não era exequível já e fez-me uma contraproposta. Pediu-me para pensar se eu não queria ser uma espécie de mulher do Norte do DNA.

Entretanto deixou a televisão? Não tem nada em vista?

Assim, assim. Fui, por acaso, convidada depois do "Falatório" para fazer um programa que eu não quis fazer. A minha postura em relação à televisão é muito clara. Eu gosto de fazer televisão, mas não morro por fazer televisão.

Não faz cedências?

Sobretudo se não tiver de as fazer. A mim não me repugna nada que as pessoas façam cedências quando não têm trabalho ou quando têm compromissos e têm mesmo de os cumprir. As coisas aí são completamente diferentes. Aliás, basta olhar para a televisão para perceber que algumas pessoas de certeza que só fazem aquelas figuras porque precisam mesmo de ganhar dinheiro. Agora, se eu tenho outros trabalhos de que gosto bastante, e se não tenho exactamente a ambição de ficar rica e ter poder, pondero, de facto, aquilo que me propõem, aquilo que tenho vontade de fazer.

Mas se precisasse de dinheiro, fazia alguns programas que fossem um bocado mais rascas?

Depende do que é precisar de dinheiro... Eu acho que não preciso de muito dinheiro, tenho uma vida, sem dúvida, confortável...

Quais são as suas referências jornalísticas?

Não tenho muitas, por acaso. As minhas referências — tenho a sorte de serem pessoas que eu conheço — são a Clara Ferreira Alves e o Joaquim Vieira, que é uma pessoa com quem eu aprendo muito e que me corrige muito. É a pessoa que lê as minhas entrevistas e os meu textos e segue o meu trabalho atentamente. O Joaquim Vieira é uma pessoa muito inteligente. A Clara é talentosíssima. Ela é uma referência profissional, apesar de a nossa relação pessoal não passar pela apreciação da produção mútua. Eu acho que ela é muito, muito boa.

E referências literárias?

Gosto muito do Dostoiévsky, é o meu escritor preferido.

Começou a ler antes de estar a trabalhar neste "ramo"?

Não. Eu acho que comecei a cultivar-me tarde. E penso que esse é talvez um sinal da interioridade, ou até do provincianismo... Agora talvez seja diferente, porque as cidades já são universitárias, há pólos universitários disseminados por todo o país. Mas quando eu era adolescente, quando era o tempo em que tinha as férias grandes para ler o Dostoiévsky, como hoje alguns meninos fazem, não tinha exactamente uma orientação nesse sentido. Nesse tempo, a maior parte das pessoas com quem me dava não eram literatos.

Não havia influência do meio...

Não.

Nem sentia isso como uma necessidade, provavelmente.

Também a verdade é que a minha vida foi sempre muito preenchida com outras coisas, por isso nunca aconteceu exactamente não ter nada que fazer. Mas sobretudo não fui orientada. Por isso, quer no que diz respeito ao cinema, quer no que diz respeito aos livros, quer no que diz respeito à música, a minha aprendizagem foi razoavelmente tardia.


fotografia de Paulo Araújo


Apercebeu-se depois que era uma necessidade?

Sim, aí sim.

Continua a ser uma necessidade ou é também um prazer?

Necessidade e também prazer. Não faço exactamente as coisas porque são um frete, porque tenho de ler, porque tenho de ser culta, não é essa a minha postura. Há as duas coisas. Agora, vou fazendo algumas escolhas, a maior parte das quais intuitivamente, porque continuo a não ter uma orientação. O meu caminho é normalmente muito solitário.

Lê sobretudo os clássicos ou lê alguma coisa mais contemporânea?

Clássicos. Contemporâneos leio pouco.

E escritores portugueses?...

Portugueses, para ser sincera, não leio quase nada.

Nem o Eça?

Ah, o Eça li-o quando tinha quinze anos. Mas preciso de o voltar a ler, porque foi fundamental para a minha relação com as palavras. Aquilo é tão bom, tão bom, que é preciso ir lendo outras vezes.

Também passou pelo cinema...

Ah, pois passei. Adorei essa experiência. O filme chamava-se o "Anjo da Guarda" e eu fui uma das personagens da cena das bailarinas, da dança do ventre. A Catarina Furtado foi outra. Foi muito divertido, mas eu não me revi minimamente. Quando olhei a tela, deu-me vontade de rir, porque não me reconheci naquela figura, ali toda bamboleante (risos).

Desistiu de ser cantora?

Desisti. Mas aquilo que eu gostava de ser, ironicamente, era cantora. Se eu pensar que talento gostaria de ter, se me fosse atribuído um talento, fosse para tocar piano, fosse para ser arquitecta, fosse para ser malabarista, o talento que eu gostava de ter era o canto. Eu adorava ser cantora.

Gosta de viajar, não é? Viaja por prazer ou em trabalho?

Normalmente viajo mais por prazer. Em trabalho aconteceu até poucas vezes. Fiz, ainda para a Rádio Nova, uma cimeira Ibero-Americana. Tive tanto azar... Podia ter sido num dos países americanos, mas não, foi logo aqui ao lado em Madrid. De resto, fui há pouco tempo a Londres entrevistar a Nelly Furtado e fui agora ao Dubai.

O que foi fazer ao Dubai?

Foi ao Dubai porque o Paulo Branco, o produtor de cinema, com quem eu trabalho n’ ajanela.com, monta a cavalo (é o 15º melhor caddista (?) na modalidade de resistência equestre) e ia participar numa prova. Achei que o tema dos cavalos no deserto era uma reportagem interessante.

De que lado estava na regionalização?

Não pensei no assunto sequer.

Porquê?

Não tinha paciência. Há assim umas coisas para as quais eu não tenho paciência e não me debruço sobre elas.

Não se interessa por política?

Ah, não. A política interessa-me.

Mas a regionalização não era um debate político?

Pois, mas depende de que debate político estamos a falar. Duma forma geral a política parece-me extremamente enfadonha.

Mantém algum contacto com a região de Trás-os-Montes?

Sim... Cada vez menos.


fotografia de Paulo Araújo


Sente alguma afinidade com a região?

Eu percebo claramente em mim que sou uma pessoa do norte. Mais do que do Porto.... E odeio, odeio, odeio aquela conversa de «vendeste-te à mouraria», etc. Não respondo sequer. Acho uma parvoeira.... Mas percebo que as pessoas do norte têm uma estrutura granítica e têm uma série de valores, talvez, que se entranham, e que são reconhecidas onde quer que elas vivam.

Está a par do que se passa em Trás-os-Montes em termos culturais? Tem contacto com algum meio que «mexa» (isto partindo do princípio que os há)?

Não. Enfim, vou sabendo aquilo que é importante e relevante e que vai aparecendo nos jornais nacionais. O meu pai às vezes vai comentando algumas coisas. Por vezes vou à Gomes a Vila Real comer os covilhetes e encontro o David Carvalho do grupo de teatro que vai comentando o que está a fazer, mas a verdade é que não acompanho isso de muito perto.

Não recebe «A Voz de Trás-os-Montes»?

Não.

Não lha mandam?!

Não. (Risos)

Fez umas reportagens sobre Trás-os-Montes para o DNA. Não usou de um olhar um bocado paternalista? As reportagens sobre Trás-os-Montes são sempre sobre o lado físico, a geografia, o granito, ou sobre um mítico lado rural das pessoas...

É o lado que eu mais gosto.

Há uma exaltação desse lado, quando aquilo que neste momento marca a região é uma atitude suburbana. Ao optar por exaltar um lado que é quase só mítico, não haverá uma certa condescendência paternalista?

Talvez. Eu assumo que esse Trás-os-Montes que eu tentei revelar nas páginas do DNA é o Trás-os-Montes que mais gosto. Eu acho a cidade de Vila Real medonha, por exemplo. As referências arquitectónicas são abomináveis. É uma cidade que me parece sintetizar aquilo que foi eclodindo em várias cidades universitárias, ou seja, uma explosão imobiliária, desenfreada, sem qualquer ordenamento. Em relação às pessoas, para ser sincera, não estou tão a par quanto isso de como mudou a vida delas no dia-a-dia, porque a única família com quem me continuo a dar de Trás-os-Montes é a minha.

Parece-me que os valores veiculados pela televisão alteraram muito a forma como as pessoas estão. Eu sou capaz de preferir o lado mais rural, imune à intoxicação consumista e populista veiculada pela televisão.

Exaltar o lado mítico de Trás-os-Montes poderá ser interessante, mas as condições reais de quem ainda vive naquelas circunstâncias só não serão tão más se as pessoas não se aperceberem das limitações que têm, se viverem na ignorância. Ao insistirmos apenas num lindo quadro bucólico não estamos a contribuir para a manutenção também do lado mau desse quadro que é o da iliteracia, por exemplo?

Não estou certa que esse quadro bucólico acentue o analfabetismo. Parece-me que são coisas diferentes. Quando eu faço uma reportagem mostrando «Oh!, como isto é bonito!», é sobretudo uma nostalgia de um tempo ou de um espaço puro e ainda imune a esta intoxicação capitalista, chamemos-lhe assim.

O ideal (utópico?) seria manter o lado físico da região, a paisagem, mas que as pessoas fossem cosmopolitas, esclarecidas.

Mas isso não é uma dificuldade de Trás-os-Montes, é uma dificuldade de Portugal inteiro. Portugal é desde há tantos séculos o catre da Europa. Desde há tantos séculos que Portugal está sempre na base do desenrascanço, do tipo de governação razoavelmente competente (que não é contudo suficiente para integrar reformas indeléveis no país), alternando com outros que são absolutamente caóticos.

Creio que foi o Vasco Pulido Valente que disse que não há progresso das mentalidades se não houver progresso económico. Mas neste país quais são as "mentalidades" capazes de proporcionar ao país progresso económico?...

O Vasco Pulido Valente é um tipo que eu leio religiosamente. Acho-o inteligentíssimo. E consegue numa prosa deste tamanho [exemplifica com o polegar e o indicador] sintetizar uma opinião objectiva.

É, o Vasco devia ser uma religião. A Anabela tem alguma inclinação...

Religiosa? (Risos)


fotografia de Paulo Araújo


Não. Política.

Política não tenho. É verdade que, se tiver de me situar, tenho uma clara inspiração de esquerda, com os valores da esquerda, com tudo voltado para as pessoas e para a solidariedade, os valores da revolução francesa. Mas a minha gota de água em relação ao governo PS foi a aprovação do orçamento com o queijo. Isto é aviltante para o país, eu sinto-me humilhada! Nunca mais poderei votar neste homem. Pronto! Acabou, esgotei! Provavelmente voto no BE, não porque gostaria de os ver constituindo governo, mas porque acho importante a emergência de grupos como o BE que possam trazer questões, nem que seja só para serem discutidas.

E inclinação religiosa?

Não, eu sou ateia. Não tenho convicção religiosa. É uma daquelas coisas em que não penso sequer.

Desde sempre, ou foi formando essa... convicção?

Tive uma formação católica, como a maior parte das pessoas em Portugal. Depois, julgo que pelos meus dezoito anos, comecei a entrar numa fase de distância, não só em relação à igreja, mas em relação à fé. Eu não gosto da postura da igreja, da postura que este papa foi assumindo em relação a alguns assuntos, nomeadamente o aborto, a homossexualidade, o uso do preservativo... Em relação ao uso do preservativo acho a postura dele criminosa. Extraordinariamente nociva para a vida de pessoas no mundo inteiro.

Provavelmente daqui a uns anos reconhece que foi um erro. Ele talvez já não...

Eu acho que Deus não existe, e se existe é muito iníquo. Profundamente iníquo.

Ou então deixa andar isto.... ao Deus dará...

Mas se deixa andar é iníquo. Eu não posso aceitar que um Deus, a existir, consinta com a miséria das crianças... Não posso pactuar com o facto de crianças no mundo inteiro viverem nas circunstâncias em que vivem.

Se ele interviesse não estaria a "diminuir" a existência humana? Se eu em criança tivesse sido protegido por um Deus, já não era aquele ser criado à sua imagem e semelhança a quem ele concedeu total liberdade, como dizem.

Mas tudo isso é abafado pela ideia de injustiça. Se ele existisse devia intervir em circunstâncias como a da fome, que para mim é tão gritante.

Então a justiça não passaria só pelas crianças, passaria pelas árvores, pela natureza, pelos animais, que também teriam sido criados por ele, não é?

Pois, mas não me parece que os animais acreditem em Deus...

Sabe-se lá... Concorda com as quotas para a participação feminina na vida política?

Esse é outro assunto que, tal como a regionalização, não me interessa o suficiente para me preocupar com ele.

Eu não sou ambiciosa no sentido de ter poder. Embora me vá apercebendo, depois, em coisas muito específicas no dia-a-dia, do poder que cada um tem. A propósito disso posso contar que fui abordada, recentemente, assim como quem não quer a coisa, no sentido de «olhe não quer entrevistar este ministro, que é uma pessoa tão interessante?». Isto dá uma ideia do estado do país... Talvez se passe no mundo inteiro... Mas dá, por outro lado, a ideia do peso que o DNA tem, e depois que eu a título individual, profissionalmente, tenho também.

Isso agrada-lhe ou desagrada-lhe?

A mim desagrada-me. Eu podia um dia qualquer até pensar entrevistar aquela pessoa, mas agora é que não entrevisto mesmo.

Então não concorda com a Teresa Guilherme quando ela diz que «quem tem ética passa fome»?

Não...

 


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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