edição n.º 17 vai para a página do index da edição
 
ensaio
TEXTO: rui duarte
ILUSTRAÇÕES: duarte filipe e renato alexandre


ilustração de Duarte Filipe
ilustração de Duarte Filipe


Educar para a Criatividade


A história do Renato e do Duarte é igual e diferente a tantas outras. Dois jovens adolescentes — dois bons rapazes, diga-se em boa hora — com as suas ambições, desejos, problemas de ordem sexual ou existencial, etc., mas que, entre outras coisas, tentam, de forma criativa, tirar partido das aprendizagens adquiridas na escola (e outros lugares igualmente comuns).

Logo me vem à memória um artigo1 (de leitura obrigatória) que escrevi neste revistal (revista + jornal), no milénio passado, e que parece ter causado algum incómodo nalgumas mentes preconceituosas e, pior do que isso, muito pouco informadas, acerca do que é a arte, a estética e (especialmente) a educação artística.

De forma resumida, trata-se de um artigo que alerta para a necessidade urgente de enveredar definitivamente, decisivamente, conscientemente (e outros "mentes") por um ensino que privilegie, em especial, o desenvolvimento da criatividade. Portanto, um ensino artístico de qualidade, há muito reclamado, oposto a uma abordagem excessiva e deficiente do desenho geométrico, enfim, desajustada da realidade social — uma realidade que exige capacidade de percepção e leitura visual das imagens e formas, que exige capacidade de imaginação e criatividade. Tal como nos diz Teresa Eça, "na prática, desde o ensino primário que a vertente da expressividade total defendida por Cizek, resquícios da escola progressiva, coabita com o mais puro formalismo aliado ao culto da geometria".2 Pois é!

Ao referir-se a programas que actualmente abordam o desenho geométrico, especialmente o da disciplina de Geometria Descritiva, Leonardo Charréu comenta a necessidade de nestes se "privilegiar uma dimensão mais visualista ou ‘imagética’,(...), sobre uma dimensão mais próxima do cálculo angular ou métrico, que se encontra normalmente circunscrita pela área de matemática e engenharias".3


ilustração de Renato Alexandre
ilustração de Renato Alexandre


As duas figuras/caricaturas que ilustram este texto são um bom exemplo, entre muitos outros possíveis, do resultado que se pode obter, quando abordamos e utilizamos o desenho geométrico de forma imaginativa, ao contrário das simples e habituais alusões ao desenho arquitectónico. O produto final traduz-se em trabalhos criativos e originais, resultantes de uma metodologia de livre expressão, que nada tem a ver com outras metodologias de ensino, elas sim verdadeiras caricaturas!

Depois de um diálogo informal com os dois jovens referidos no início deste texto, decidi escrever este artigo que, entre outras abordagens, passaria pela análise crítica das suas obras artísticas, duas caricaturas, produzidas nas aulas de Educação Visual (E.V.).

Partindo de um conjunto de traçados geométricos, o Duarte refere que para a realização do seu trabalho inspirou-se no problema das drogas lícitas e ilícitas. Tal como faz questão de realçar: "baseei-me nos grandes vícios dos nossos tempos: o tabaco e as drogas leves." De acordo com as suas palavras, não pretende caricaturar ninguém em especial, mas a sociedade em geral. Testemunha e concorda connosco que o aumento do consumo de tabaco, em especial, é uma preocupante realidade.

Duarte considera como condições elementares e essenciais para o desenvolvimento de um trabalho artístico, numa aula de E.V., a livre expressão e, tal como faz questão de salientar, "uma coisa muito importante: o silêncio". Sem comentários!

O Renato, aluno um pouco introvertido (apenas nas aulas..., porque não engana ninguém!), é de poucos olhares e de poucas palavras. Habitualmente concentrado nos seus trabalhos de expressão, apenas realça um determinado pormenor na sua caricatura. Trata-se do nariz da figura em forma de cabeça de cobra.

Apesar de não acrescentar mais nenhum comentário ao seu desenho, nem tão pouco ter revelado a sua musa, quem sabe se o Renato não se terá inspirado em alguém especial, ou então, porque não, na face negra do ser humano: sub-reptícia, calculista, ilusionista, venenosa, implacável, ... tal como a cobra.


Notas:
1
DUARTE, Rui (2000). Mudam-se os tempos. Não se mudam as Vontades. In Eito Fora, Jornal de Vilarelho. V. P. Aguiar, n.º 11, p. 28.
2 EÇA, Teresa (2000). Educação Visual como educação artística para a compreensão. In Revista Imaginar, Março de 2000. APECV, pp. 18–21.
3 CHARRÉU, Leonardo (2000). A Geometria Descritiva nos currículos das Artes Plásticas em Portugal: Fundamentos e objectivos, repensar a sua "utilidade". In Revista Imaginar, Março de 2000. APECV, pp. 23–26.

 


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

vai para o topo da página vai para o texto seguinte vai para o texto anterior