edição n.º 17 vai para a página do index da edição
 
crónica incomum
TEXTO: manuel alberto guedes


pote com incenso a arder


Dores do corpo e da alma


A minha avó sabia talhar muitos males e achaques. Conhecia as palavras mágicas de várias benzeduras e dispunha-se a usá-las em rituais próprios para alivio de quem a ela recorresse em sofrimento.

Era ver quem chegava com dores ou feridas infectas de dias, sem remédio, azagues vários, pernas inchadas de zipela, ínguas nas virilhas, mesmo bubões. Às vezes também ougamentos, cismas e insónias, almas doridas de paixões caladas. E minha avó ouvia-lhes as queixas, atendia-lhes as angústias, os apertos no peito, palpava os fios estorcidos, espreitava as vermelhidões, as chagas, os inchaços de tesorelhos, o endurecimento dorido de peitos que amamentavam, dadas de frio ou outras forças perversas. Depois vertia azeites e água benta, trazia raminhos de oliveira, de sabugueiro sempre verde bem aventurado, ou então urze – o esparvo do monte, vimes ou outros ramos de mais feição para o mal exposto. Eram também quebrantos que ela talhava com nove pedrinhas de sal virgem deitadas em água onde molhava o indicador antes do gesto decisivo.

E depois de tudo pronto mexia os raminhos, molhava as folhas, untava os inchaços e iniciava murmúrios de palavras, rezas que só ela sabia, lenga-lengas que dizia rápida, quase em segredo, com intervalos de padre-nossos, nove vezes para não ficar mal nenhum. Outras vezes trazia púcaros de barro de boca enfiada em bacias de água fervente. Estendia o membro doente sobre os vapores e por cima fazia passes de agulhas e linhas trespassando novelos, descosendo inchaços, aliviando dores.

E eu, de calções, chegava-me aos seus saiotes e ia aprendendo os dizeres, percebendo uma palavra agora, descobrindo outra depois, acertando o enredo mágico da oração completa ao longo das nove vezes de repetição para que não ficasse mal nenhum, sempre em nome de Jesus, nome de Jesus, Jesus e nome de Jesus...

Eram cruzes desenhadas no ar diante de bocas minadas por aftas usando uma faca que no fim de cada reza pousava ao de leve no lábio inferior. Era a canga dos bois pousando no pescoço. Também os raminhos cortados por navalha que talhava o bicho, encenando o cortar-lhes o rabo e a cabeça para que o bicho nunca mais cresça. Ainda o gesto de entregar ougamentos à lua cheia, libertando a criança dos desconsolos que lhe tolhiam a alegria do ser. Ainda o segurar de gatos para que recebessem eles os terçôs que afligiam olhos de gente, o benzer-se em cruzes sucessivas sobre a testa, a boca, o peito, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

E todos muito sérios num acto que não era simples crendice mas a convicção pura de um acto de fé. Porque ninguém mais lhes aliviara o sofrimento, limpara de vez as chagas, libertara os quebrantos, e entregavam-se então àquela esperança última de alívio nas dores do corpo e da alma.

Minha avó nem sempre dava resposta a todos os males. As vezes não sabia a reza, não conhecia bem os dizeres mais próprios e o melhor seria procurar outra mais abaixo na rua ou no outro lado da aldeia, que essa sim sabia talhar isso como devia ser. Porque havia a ideia de que era preciso fazer tudo bem feito, com as falas certas e as palavras direitas que nem toda a gente sabia. Eram rezas que só os eleitos conheciam e então eu entendia porque eram sempre ditas quase em segredo, em murmúrios rápidos de lábios quase fechados para que ninguém mais percebesse, e a reza permanecia reservada a quem a servia com dignidade.

Muitas aprendi de tantas vezes as ouvir. Outras foi ela própria que me ensinou ao sentir que eu compreendia o que ela estava a fazer. E repetia-me sempre: Jesus nome de Jesus, Jesus nome de Jesus, não te esqueças nove vezes para que não fique mal nenhum.

Nunca a vi receber dinheiro. Não fazia aquilo para que lhe pagassem. Aceitava fazê-lo como a obrigação dos escolhidos. Pois se tinha o privilégio de conhecer as rezas era seu dever talhar quem precisasse, sem estar à espera de recompensa material. Sentia-se abençoada já por poder talhar como o fazia e isso era o suficiente. Claro que às vezes traziam-lhe ovos, ou pouco mais que isso, e eu aproveitava para os comer estrelados no meio de um pão. Havia porém ocasiões em que ela não me deixava chegar perto. Mandava-me sair, que eu não podia ali estar. E o que me lembro é de espreitar por fechaduras ou portas mal fechadas por onde me chegavam fumos e cheiros e ervas. Deitada em liteiras escuras, a alma sofredora, imóvel, aceitava as rezas, recebia o esvoaçar de turíbulos, respirava os fumos, fechava os olhos enquanto a minha avó lhe calcava as pernas ou a barriga, passava as mãos em gestos largos sobre as costas recitando ladainhas entre nevoeiro de fumos em rituais de expurgação.

Acho que também eu me senti abençoado quando ela me chamou para ensinar a talhar alguns males, instruindo-me nas palavras e nos gestos, lembrando-me os azeites, as águas, as folhas certas para cada mal.

E ainda hoje, numa luta insensata entre a minha racionalidade e os poderes com que então fui investido, olho quem diante de mim se queixa das feridas, das chagas, dos apertos no peito... e murmuro em segredo as rezas que então aprendi, Jesus nome de Jesus, Jesus nome de Jesus nove vezes para que não fique mal nenhum.

 


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

vai para o topo da página vai para o texto seguinte vai para o texto anterior