edição n.º 17 vai para a página do index da edição
 
conto
TEXTO: josé ferreira borges
ILUSTRAÇÃO: francisco lameirão


A consulta


ilustração de ???

Passo agora a contar-lhe a história da minha vida. Alguns pormenores parecer-lhe-ão insólitos, mas não julgue que são ditados pela voz de uma loucura inconsistente. A loucura que me atravessa é real; no entanto, sei olhá-la de fora e descrevê-la de uma plataforma de supra-normalidade. Não me acuse de imodéstia, senhor doutor! É já uma prova de humildade vir ter consigo, sabendo antecipadamente que nada poderá fazer por mim. De qualquer forma, ainda sobreponho a esta certeza uma débil confiança. Nas condições em que me acho, consigo ser ridícula a esse ponto e senhora do tempo que se escoa. Ninguém é capaz de ser senhor do tempo se não tiver a coragem de ser ridículo à vontade. Mas deixemo-nos de divagações.

Vou contar-lhe a minha história. Nasci no interior de uma família numerosa. Faço parte de um conjunto de muitas irmãs, que sempre se inclinaram para viverem aos pares e para se entenderem dessa forma. São de todas as idades, as minhas irmãs; mas cada par é um dueto de gémeas. Desde que, certo dia, fomos expulsas do lugar em que vivíamos e que amávamos sem dar por isso, elas tornaram-se cada vez mais unidas, formando pares inseparáveis. De resto, nunca conheceram outro modo de vida. Nem sei mesmo se, por causa disso, algum dia chegaram a conhecer a sua existência geminada. Somos irmãs unidas pelos mesmos cromossomas, marcadas por uma idêntica contrariedade e separadas por fados desiguais. As minhas irmãs têm todas elas a sua alma gémea. Isso não se passa comigo, senhor doutor. É essa a razão que me trouxe a esta consulta, da qual espero obter, senão a salvação inteira desta alma solitária, pelo menos um apaziguamento parcial do meu inconsolável desconforto. Nunca duvidei da existência de uma ordem prévia; todavia, penso que ultimamente tenho sido artífice das veredas que sigo. Ou, quem sabe?, talvez isso não passe de uma ilusão e eu não seja mais que uma tacanha marioneta movida por alguém que me guia os passos, forma a inteligência e dirige a vontade. Aceitemos, então, que há um destino inflexível e castrador nas linhas que lhe mostro.

Quando vi pela primeira vez as minhas irmãs aos pares, intuí a completude e a perfeição. Aquela junção de dois seres semelhantes trouxe-me à lembrança uma união mística, em que o próprio pensamento só existe para se comprazer na volúpia de um mundo belo. Não sucede o mesmo com o meu pensamento. Adivinho a morte a cada passo, o caos dentro de mim, o vazio de já não ser uma coisa e o paradoxo de já não poder ser outra. Compreende por que me considero um espírito louco e lúcido, dentro de um corpo belo e fatalmente incompleto? Tudo começou no dia em que fui arremessada para um mundo hostil, que me afastava para sempre do lugar que amei. As minhas irmãs não sofreram o mesmo choque, nem sequer sei se terão sofrido algum.

Ao tomar plena consciência de mim, foi com melancolia que olhei para as minhas irmãs emparelhadas, durante as escassas horas em que me foi dado ainda vê-las, e quase perdi a esperança de um dia vir a ser como elas. Esta esperança, caro senhor, perde-se na hora em que nos dizem, ou suspeitamos, que nos assiste o direito de esperar. Às vezes, nos intervalos do sono, rememoro o tempo em que habitava um espaço de harmonia. Acedo então a um horizonte luminoso, em que um espírito maior ditava as leis. É um acto evasivo que me encobre a contínua sensação de ter sido privada da própria carne, ou das coisas que ela toca. A loucura que transporto é como um copo de água que ninguém bebesse e me fitasse da mesa com um interesse apaixonado e ridículo. Também eu me sinto ridícula.

Senhor doutor, corte a sua mão esquerda! Não vê como tantas vezes ela é inútil? Note bem a isenção do seu gesto quando é feito só com a mão direita. Repare na limpidez de um aceno de saudação ou de despedida, sem que a mão esquerda os perturbe. Não me julgue idiota, doutor! Continue a ouvir-me com a atenção que desde o início me dispensou e não se escandalize com estas preces desconcertantes. Pois bem: vou contar-lhe a minha história. Começo numa ilha longínqua, para lá de todos os oceanos conhecidos, a qual parece existir unicamente no âmago dos sonhos. É uma ilha verde e silenciosa. Um governo de excepção dirige as trajectórias de cada um. Toda a gente obedece, porque não há razões para não obedecer. Naquela ilha, não se conhece senão a obediência, que de tão cega chega a parecer iluminada. Prevalece ali um regime democrático, sem mácula, cheio de unanimidade nas decisões tomadas, cheio de estupidez em muitas delas. É uma democracia vertical que desenha uma linha horizontal. Por hábito, diz-se sim ao discurso do pregador, à eloquência do demagogo, às ordens do tirano. Se obrigarem alguém a enfiar a cabeça num balde de lixo, as pernas numa fornalha abrasadora e os cotovelos entre rodas dentadas, que alegria desatinada invade de alto a baixo aquela criatura!

Uma das decisões, a última de que me lembro, foi tal que a considero absurda por inteiro. Mas o absurdo não o descobri impunemente. Nunca se descobre impunemente o absurdo. Todos os habitantes acharam que seria conveniente separarem-se das mãos. Foi uma ordem governamental, que coincidiu com nitidez com a vontade dos súbditos. Aperfeiçoaram-se algumas guilhotinas, accionadas por um sistema eléctrico, que desembaraçavam as pessoas da extremidade dos membros superiores. Numa cidade assim, é como se se recusasse a história dos homens, porque ela é, antes de tudo, uma história das mãos. Já pensou em cortar uma das suas mãos, a esquerda, por exemplo? Eu sei que me estou a repetir! Mas vim aqui para que o senhor me ajude, na qualidade de psicólogo clínico, ou psiquiatra, não sei bem, nem isso interessa para o caso. Já pensou? Ora, aqueles seres nunca ousaram pensar no assunto. Era normal ficarem manetas, se também eram manetas de discernimento.

Que se passou depois disso? Não sei ao certo qual o rumo que aquelas entidades seguiram. Não tive mais notícias do povo desde o dia da mutilação geral. Ainda assim, conheço o percurso das mãos. Todas elas, por um capricho da espécie, se uniram pelo carpo à outra mão, partilhando o mesmo espírito e seguindo iguais desígnios. Acontece que nessa cidade havia um homem maneta da mão esquerda. Chamava-se Leonardo e tinha, nessa altura, trinta anos. Como compreende, só lhe cortaram a mão que possuía, a dextra. No mesmo instante em que se separou do corpo, esta mão sentiu-se magnetizada de todas as direcções. Era o apelo da cinza a que a sua congénere, a canhota, estava agora reduzida, repartindo-se por locais indefinidos.

Atraída por uma força a toda a volta de si, a mão direita de Leonardo viu-se impelida a um esforço enorme de concentração, a fim de evitar uma explosão de ossos, veias e tendões. Com este esforço, susteve a dispersão e condenou-se a um inelutável abandono. Nesse estado, alcançou a lucidez e cercou-se de desespero. Pensou suicidar-se. Não lhe restavam grandes alternativas vitais. O esmagamento, a trucidação e a fogueira eram algumas das opções que os cinco dedos imaginavam, como cinco cérebros a formarem a unidade da mente. Com grande probabilidade, afirmo-lhe que as outras mãos não desenvolveram esta aptidão. Nunca lhes fez falta. É como se, unidas uma à outra, se anulassem reciprocamente. Aliás, para que é precisa a mente perscrutadora quando se aprende a voar? Aquelas mãos voam, sabe?!

Mas voltemos à mão de Leonardo. Durante algum tempo, a malograda vegetou por ermos e baldios. Foi definhando aos poucos, por carecer de alimento. É que uma mão alimenta-se da carícia verdadeira de outra mão. Um dia, entrou num barco estrangeiro, surripiou uma luva de marujo, escondeu-se num contentor de melancias, abrigou-se do frio dentro da luva, magoou-se num fio de canivete, colou-se a um mastro, rasgou uma gávea, tocou na mão dormente de um marinheiro, tropeçou num rato morto, tombou um bule prateado, queimou a palma, foi pontapeada, uma gaivota defecou sobre ela, uma palavra fê-la estremecer, subiu a amurada, avistou a costa, desembarcou na praia, enterrou-se na areia, subiu as rochas, fugiu aos passeantes domingueiros, assustou uma prostituta, acordou um vagabundo, esbofeteou um político, adormeceu dentro de um sapato, sonhou com outra mão; entrou, sonâmbula, num elevador; entrou, desperta, neste consultório.

Como já percebeu, eu sou a mão direita de Leonardo. Se acha que pode fazer alguma coisa por mim, para além de me ceder a sua mão esquerda, não hesite. Para que franze o sobrolho?! Se não quer cortar a sua mão, não corte! É natural que eu não viesse a beneficiar nada com isso, uma vez que não tenho qualquer afinidade com ela. Por outro lado, não o vejo capaz de alcançar para mim uma solução diferente. E já percebi, em todo o caso, que o senhor também não está interessado em separar-se da mão esquerda. Eu compreendo! Permita-me que o trate por meu caro amigo. Não é adulação! É que eu já não tenho nada a perder e gostava de, pelo menos, ganhar um amigo.

Vejo daqui o mar, ao fundo da avenida. Tem um azul que seduz, não acha, meu caro amigo? Recordo os dias em que Leonardo possuía as duas mãos e com elas batia na água clara. Às vezes pousava-nos na areia, e fazia-nos partilhar uma irmandade sem conflitos. Separei-me da irmã gémea aos vinte anos, de Leonardo aos trinta. Ao longo desses dois lustros, recebi dele uma redobrada estima, que atenuou a dor daquela perda. Recordo teclas brancas, muros de alvenaria, moscas em clausura, um seio volumoso, um prepúcio enrugado, um livro de arquitectura, um bolso com moedas, uma vela acesa, um puxador humedecido. Neste momento, ainda seria capaz de recomeçar, se não houvesse definhado tanto e o amigo me cedesse a sua mão. Ouço o rumor do trânsito que me chega da rua. Porque deixou a janela aberta? Não teme que o vento recolha esta confissão? As minhas irmãs compõem asas aos pares e, como aves perfeitas, sulcam os ares até ao infinito. Também o vento recolhe os seus murmúrios de alegria. Elas são asas eternas, espalhadas por um espaço provisório. São auto-suficientes, como um deus que não tivesse necessidade de esculpir o mundo para nele se reconhecer. Este universo criado é a mão de um deus, que dela se separou. Em toda a parte há linhas e impressões, vestígios da divindade ou simples aspirações a ela. E cada aspiração é um alento sufocado.

Vou aproximar-me da janela. Não se mexa, caro amigo! Vejo daqui a cidade inquieta de segunda-feira, e é como se estivesse perto a hora de me reconciliar com ela e com tudo o resto. Houve um dia em que, afastada do corpo, deparei com um enorme espelho num monturo abominável. Com que júbilo vi, do outro lado, aquela que seria a minha irmã gémea, se não fosse um simulacro do despojo que sou! De dedos abertos, toquei apenas uma superfície lisa e fria, quando julgava abraçar a pele irmã. Ferida de raiva, fechei-me sobre mim e parti o espelho. Foi então que supus, sangrando, que alguém conspirava com ironia contra o meu ser. Talvez na solidão não suponhamos outra coisa. Eu, que aceito o inevitável, não tolero que sejam sarcásticos comigo. No polegar inventei a viagem; no indicador, a ordem; no médio, um gesto obsceno; no anelar, o comprometimento; no mendinho, qualquer coisa que esqueci. E nunca fui capaz de inventar outra mão, outra disposição de dedos, que guardassem ideais à medida da minha natureza.

Agora — não me lamentes, amigo, e permite-me esta franqueza de trato! — vou antecipando um suicídio irremediável. Já vejo uma janela fechada, um balaústre descolorido, uma folha que secou num vaso de cimento, um lugar sem tinta na parede amarela. Ouço uma rápida melodia no terceiro andar, um chamamento maternal no segundo, o som da roupa a secar no primeiro, o motor de um carro a entrar na garagem. Já sinto a palma a mergulhar na brisa, o dorso a vislumbrar o céu mais longe, uma queda desatinada no empedrado regular, o pneu com estrias fundas de um carro veloz, um estremecimento dos dedos, as falanges a esmagarem-se, as unhas com o verniz do sangue, as linhas apagadas entre músculos, a pele perfurada pelos ossos. Já o polegar se inscreve numa fenda, já o indicador se recolhe, submisso; já o médio é um falo murcho, já o anelar é uma promessa de esquecimento, já o mínimo se desfaz. Sinto, ouço, vejo, estou pronta para a morte. Aparece-me o futuro dentro do presente, o passado mistura-se com eles. Volto a ser senhora do tempo, volto a abraçar a minha história, volto a sentir-me ridícula — e sou-o de outra maneira. Adeus, corpo em que estive! Adeus ilha verde e silenciosa! Adeus irmãs que voais tão alto! Adeus, amigo, não te verei mais!


jfborges@mail.pt

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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