1. Anunciação.
Naqueles tempos vivia em Bragança um homem chamado Fernando, da tribo dos Cepedas. Era jornalista e
trabalhava como correspondente regional do DN e da TSF. Certo dia, apareceu-lhe um anjo do Senhor: «Ave, Fernando, ó cheio
de graça! O Senhor é contigo.» O jornalista ficou perturbado com estas palavras e perguntava-se o que quereria dizer
aquela saudação. Então o anjo continuou: «Nada receies, Fernando, pois que as tuas obras encontraram merecimento
ante o Altíssimo. Reunirás éne meios e darás à luz uma revista, a que porás o nome de
Loa.» Fernando Cepeda, de cabeça à toa, perguntou ao anjo: «Como é que isso pode ser, se não passo
de um rude bragançano?» Mas o anjo respondeu-lhe: «Quando se quer, os objectivos podem ser conseguidos. E para Deus — e
transmontanos! — não há nada impossível.» O jornalista disse então: «Eis o escriba do Senhor.
Faça-se em mim segundo a Sua vontade!» E o anjo retirou-se.
2. Apresentação ao Templo.
Em cumprindo-se o tempo, nasceu a Loa, tal como predissera o anjo. E foram Fernando Cepeda e Cristina
Simões a Alfândega da Fé (onde senão aqui?!) apresentá-la ao templo da comunicação
social. Todos os jornalistas presentes se chamavam Simeão; eram bons e piedosos e esperavam que Deus mandasse a
salvação ao povo de Trás-os-Montes. Quando os pais da neófita Loa estavam no templo para cumprirem
o que a tradição prescrevia, todos os Simeões, como um só corpo, tomaram-na nos braços, deram
graças a Deus e disseram: «Agora, Senhor, já podes deixar-nos morrer, pois cumpriste a tua palavra! A Loa
é o Salvador e a glória dos transmontanos, teu povo.» E, dito isto, lançaram-se aos acepipes.
3. Infância da Loa.
Depois de terem cumprido tudo o que a Lei do Marketing manda fazer, Fernando e Cristina voltaram com a
Loa para a sua terra. A revista crescia e todos os que a liam ficavam maravilhados com a sua sapiência. Tinha uma
especial predilecção por comparações e parábolas. Dizia coisas como «É mais fácil
uma grande reportagem ocupar menos de página e meia de texto, do que fazer-se o acordo entre o sujeito e o verbo». Ou, em
momentos de verdadeiro êxtase místico, «O facto de a natureza humana não ter sido criada "instantaneamente"
mas criando-se a si própria ao longo do tempo, cria a necessidade de se falar da estrutura humana num âmbito em que
o homem se molda a si próprio». Os fiéis seguidores perguntavam à Loa o que queria ela dizer com
aquelas coisas, e ela respondia-lhes: «A vocês é dado conhecer os mistérios do Reino Maravilhoso, mas aos
outros são apresentados como proposições circulares, para que olhem e não vejam, leiam e não
entendam.»
4. A doutrina e a tentação.
No primeiro ano de vida da Loa, Deus falou-lhe no deserto: «Não importunarás o senhor teu
Bispo, colocando-lhe questões relevantes! Se fores a um jantar, não incomodes os comensais com palavras: eles
estarão de boca cheia (como darás a ver a toda a gente)! Se te convidarem para uma festa, retribui: mostra as fotos
da tribo, que ela será generosa contigo!» A Loa a tudo fielmente obedeceu, e desta forma nasceram as "entrevistas"
e as Loas Sociais, cumprindo-se o que as Sagradas Escrituras dizem: «Asinus asinum fricat.»
No deserto, também o Demónio falou, e as suas tentações foram incomensuráveis:
«Escreve segundo as leis da gramática! Não vendas felino por leporídeo! Inova! Ousa! Denuncia esta "sociedade
cada vez mais adormecida pela lógica do poder instalado"! Faz jus às Loas do Abade de Baçal!» Mas a tudo a
Loa resistiu com o fervor dos escolhidos, e tudo fez de modo contrário às tentações. O
Demónio então deixou-a e aproximaram-se alguns anjos que começaram a servi-la. (Fotos dos anjos a publicar
na ‘Loa’ Social do número três...)
5. Pregações de Fernando Editorialista (In Excelsis Vara).
Fernando Editorialista foi, entretanto, por todas as terras junto do rio Douro e para cá dos montes e
pregava assim ao povo: «Não queremos ser lidos como concorrentes de uma imprensa regional implantada e com história
nesta região — a César o que é de César!» E o povo perguntava a Fernando Editorialista: «Que devemos
então fazer?» E ele respondia: «Se forem convidados para um jantar de homenagem, ide e levai um amigo! Se um ex-ministro
pedir para o acompanhardes uma légua, segui-o por duas.» O povo começou a suspeitar, e todos perguntavam a si
próprios se Fernando não seria o Messias. Mas ele explicou-lhes: «Eu maravilho-vos com a suprema excelência
da palavra escrita, mas está para chegar quem tem mais autoridade do que eu, e a esse eu nem sequer mereço a honra
de lhe mudar o pneu do automóvel. Ele maravilhar-vos-á com os feitos a obrar na Assembleia da República,
onde se espera que seja uma voz incómoda na defesa desta região cada vez mais abandonada.» Era com estas e com
outras exortações que Fernando Editorialista anunciava ao povo a Boa Nova.
* Com Lucas e Mateus (os evangelistas, não os pimbas).