— Dançaste o tango?
— De tangos, não ouvi senão um ou outro tocador de rua. Alinham com esses vendedores de tudo, que
pelas grandes cidades mantêm viva a tradição das feiras. O anacronismo do figurino por que se vestem contrastam
de tal modo com o desleixo hippy dos vendedores, que despertam menos atenção que compaixão.
— Compaixão?! Como assim?
— Assim como todas as personagens românticas, persistentes numa espécie de alienação
que aparenta filósofos, poetas, enamorados, mendigos, palhaços de circos decadentes e ultimamente parece que
também certos defensores de velhas — e menos velhas — utopias...
— Mas conta-me de Buenos Aires.
— Lembra Madrid com os telhados e o branco dos edifícios de Lisboa, uma nota acima de Praga e de
Varsóvia no parque automóvel, mais uns retoques de Roma nos cafés e nas lojas elegantes dos bairros de
Palermo e Recoleta.
— Recoleta? Onde está aquele cemitério que dá para um centro de cultura e lazer e onde
está a Evita...
— Bom, o cemitério está protegido por paredes bem altas, de modo que só se vê o seu
interior durante o horário de visitas. De noite, dir-se-ia uma muralha marroquina. O cemitério é imponente
pelos túmulos monumentais, mas... como hei-de dizer... inquietantes. Inquietantes porque nessa grandeza parecem feitos
para gente viva e afinal, vistos de ângulos que os enfileire, emergem numa desproporção de formas, que acusa
a sua indisfarçável função: a de palácios para "viver" na horizontal.
— Perfeito para o descanso eterno.
— Eterno enquanto a caríssima renda for paga. Caso contrário, nem o estatuto de decesso os livra
do despejo.
— Não me digas?! Bom, mas deixemos os mortos e fala-me da vida, das pessoas.
— Como país de imigrantes, a Argentina acolheu gente de vários cantos da Europa. E as últimas
levas são de outros países da América Latina. Esta mistura deu uma gente muito bonita, olhos que nem te digo,
mas isto é muito discutível, claro...
»Em relação à vida, lembro-te que Lorca disse que a vida late em Buenos Aires, o que a bem
dizer não é grande coisa, pois é claro, que a vida late em todas as cidades... Por falar num poeta, aproveito
para te recordar nomes da riquíssima literatura argentina: Leopoldo Lugones, Jorge Luís Borges, Horacio Quiroga,
Ernesto Sabato, Julio Cortázar, Ricardo Piglia, Abelardo Castillo, Manuel Mujica Lainez, Juan Filloy... Sempre achei
curiosa esta vitalidade literária. Alguns sustentam que a fome argentina de literatura é uma tentativa de
compensação dum relativo vazio histórico. Eu opino que a quantidade das livrarias da capital tem algo que
ver com isto. Se é causa ou efeito, não sei. Mas que são muitas e boas, mau grado a exorbitância dos
preços dos livros, não duvides.
— Mais coisas que te tenham surpreendido.
— O Rio de la Plata. Por mais que me tenham dito que é terroso e pardo, não o imaginava tão
feio. A mim, que da água aprecio as transparências e os azuis e verdes, um rio assim parece-me mesmo um lameiro a
fingir, um lameiro lamacento. Mas, como sabes, os recursos da imaginação são infindáveis e há
mesmo tentações poéticas que sucumbem ao efeito da fotografia retocada e o adjectivam de... dourado!
— Coisas bonitas, eu quero coisas bonitas, ora...
— As árvores. É isso mesmo. Há-as por todo o lado. Mesmo nos bairros pobres. E de muitas
qualidades. Alamedas de plátanos, um jardim japonês, sombras dos jacarandás, debaixo dos quais dá
gosto o viajante estafado das montras e dos museus deitar-se e bater com os olhos numa abóbada de verde tenro, apoiada em
troncos que parecem veias de mancebos robustos e a perderem-se em delicadíssimas ramificações de vasos
capilares de menina...
— Inspiradores, esses jacarandás.
— E os magníficos ficus? Majestosos nas copas bicentenárias, inverosímeis nos troncos
escorados por raízes que se dobram num enrugado carnudo como patas de dragões adormecidos. Atravessava o parque da
cidade e pensava num parque assim, que Lisboa não tem nem terá tão cedo. Avaliava condições
climáticas e concluía como diverge a nossa pobre realidade florestal da diversidade possível. Passava pelo
bosque que leva ao aeroporto e era um desenrolar de espécies numa quantidade incansável... E não ter havido
um amante das árvores em Portugal! Um que ardesse em sonhos de verde e desatasse a plantar árvores com zelos de
megalomania. Mas não! Houve loucos da canela, do ouro, do marfim, dos escravos, do orgulhosamente sós, das estradas,
da Europa... e os parques à espera.
— E porque esperas pelos outros? Porque não fazes nada por isso? Plantar árvores é
fácil.
— Hum... E os ficus, os jacarandás, onde os vou buscar? E onde os planto?
— Mas há pinheiros, castanheiros, plátanos, faias, cedros, tílias...