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crónica de viagem
TEXTO e FOTOGRAFIAS: nelson pereira


fotografia de Nelson Pereira


Naturalidades de Goa


Mercado

O mercado popular de Pangim é um enorme e superpovoado labirinto onde se vende quase de tudo. Os espaços estão preenchidos ao milímetro, e é frequente os clientes terem de se baixar sob a "ameaça" das mercadorias expostas. Os estrangeiros que se estreiam no lugar, para além de fascinados, sentem-se à vontade. Os portugueses em especial.

Fazem-se sempre algumas compras. A variedade dos artigos expostos é tal que dá vontade de levar qualquer coisa. Discutem-se muito os preços, no inglês acessível dos comerciantes e, à despedida, é vulgar ouvir umas palavras amigas em português. Como se verá adiante, há quem não goste muito de dar a cara a falar o português. Mesmo 36 anos após o trauma.

Numa das veredas mais apinhadas de gente, um goês, acompanhado da filha, rigorosamente trajada à indiana, estendeu a mão, espontaneamente:

— Chamo-me Valdemar Pereira e pertencia à Polícia do Estado Português da Índia. Conhecia pessoalmente e muito bem o general Vassalo e Silva. Que é feito dele?

Apresentou a filha e estivemos algum tempo na conversa.


fotografia de Nelson Pereira


— Em 1961, como gostava de ficar na minha terra, lá tive que assinar pela independência.

Fiquei especialmente emocionado com este encontro. O meu pai estivera também em Goa, em 1954–56. Tinha um jipe distribuído e podia viajar por todo o lado, constantemente. Ficou com enormes saudades duma terra que bem conheceu e não perde ocasião de recordar episódios, pessoas e lugares desses bons tempos. Foi mais por essa razão particular que fui a Goa.


Sacerdote

Muitos goeses encolhiam-se na hora de falar Português.

Perto de Mapuçá, visitei um templo hindu. O sacerdote, com as vestes típicas do cargo, muito profissional, parecia um indiano dos quatro costados, sem grandes simpatias pelo modo de vida ocidental. Em inglês, enquanto o sino do templo soava com intermitência, mostrou todos os espaços e equipamentos religiosos. Exaustivamente. Esmerou-se bastante com as carroças de rodas ferradas, enormes, que transportam os "andores" dos deuses: Shiva, Ganesh, etc. são São em tudo idênticas às que em muitos sítios de Portugal transportam pesados andores. Todos ouviam o "clérigo" com muita atenção e não houve grandes problemas de interpretação porque o inglês que usava era acessível. Em certo momento, fez uma pausa na explanação para se gabar que recebeu ali o Dr. Mário Soares. Gostara muito, ainda por cima. Caiu-lhe muito bem, muito bem mesmo, uma frase do ex-presidente: «Respeito a vossa terra, porque os meus compatriotas estiveram cá durante séculos, com grandes preocupações religiosas, mas também porque vocês, indianos, têm um religião ancestral digna da maior admiração.»


fotografia de Nelson Pereira

detalhe: 'Gate donated by Aston Queiroz'
detalhe


Já no fim da visita, o sacerdote hindu, talvez por lhe ter feito muitas perguntas, virou-se para mim e, discretamente, fez-me um pedido. Queria cinquenta rupias. Disse isso em óptimo português. Fiquei banzado.

— Então, tu falas tão bem o português e estiveste a arengar em inglês o tempo todo? Não se admite, pá! Ainda por cima, se precisas de...

— É que o português é a língua do colonialismo...

Como, apesar de tudo, era bastante simpático, convenci-o a aceitar resignadamente uma boa moeda portuguesa de cinquenta escudos. Disse-lhe que já era pós-colonialista... Ficou bem com ela.


Fotografias

Uma das colegas do grupo que me acompanhava, goesa de nascimento mas que não revia terras indianas desde 1961, trazia consigo umas quantas e preciosas fotografias 6x9. Durante as saídas, levava-as na mão. Tinha a preocupação permamente de rever os lugares e monumentos ali retratados. Repetia muitos comentários que o pai fizera, a propósito de cada uma delas, ao longo de mais de trinta anos de forte saudade. Os templos hindus reviu-os praticamente todos. As igrejas cristãs ia-as detectando também com alguma facilidade. Só uma delas, de certa fotogenia, lhe escapou completamente. Pedia a ajuda do Prof. Dr. Teotónio de Souza, um sábio ex-jesuíta, natural de Goa, que guiava a visita.

— Em Goa, há mais de trezentas igrejas cristãs. Essa não estou a ver qual seja...

Viram-se, na altura, pelo menos, três igrejas em construção, o que faz supor que daqui a mais uns anos a tarefa de identificação dos templos se tornará ainda mais complexa.


fotografia de Nelson Pereira


Redescoberta

Uma redescoberta chegou a ter a minha participação activa. A fotografia, com o motivo a identificar, estava bem nítida. Tratava-se de um pequeno memorial hindu, com dois pilares ao alto e um outro, transversal, a rematar. Na base, três degraus compridos em cimento, um deles com uma aresta partida e com um espaço oco, junto ao chão.

Estavamos, então, nas imediações de uma imponente igreja da cidade de Goa. À saída, bem perto, dei de caras com o pequeno monumento. É quase inacreditável como, quarenta anos depois, está exactamente no mesmo estado que se via na fotografia. Um dos degraus tinha a mesma aresta quebrada e via-se o mesmo espaço aberto, por baixo. Foi espantoso verificar o pormenor da resistência do cimento ao temível clima monçónico.

Notável é também o cuidado que se nota na preservação de todos os monumentos. Há avisos por todo o lado, com explicitação bem clara das penalidades para quem atentar contra os vestígios do passado. Dois anos de cadeia é a melhor das penas.


Luxuriante

Goa é um paraíso de vegetação luxuriante. O verde é omnipresente, desde os grandes arrozais às florestas. As plantas exóticas estão facilmente ao alcance dos viajantes. Pelo menos numa viagem em Setembro, junto às bermas das estradas ou nos arredores de monumentos e espaços ajardinados, é frequente, por exemplo, ver e tocar as "mimosas pudicas". São plantas com folhas algo parecidas com as das mimosas. Mal se lhes toca, fecham-se imediatamente, numa grande área... Frutos como o caju, papaia, maçã e muitos outros proliferam e vendem-se nos mercados em grandes quantidades. O facto subjacente, da fertilidade do solo, permite aos naturais um nível de vida acima da média, para a nação indiana.

Este bom viver explicará também a tocante delicadeza dos goeses para os "turistas". Foi muito frequente passar em lugares em que as pessoas descansavam, sentadas, e, à passagem, levantavam-se e saudavam cortesmente. Um exemplo a importar urgentemente pela UE.


fotografia de Nelson Pereira


Também é verdade que, no mercado de Mapuçá, o encantador de serpentes agarrava na cascavel e atirava-a aos pés das pessoas que se esqueciam de dar umas rupiazitas. Ainda por cima, ria-se muito com o ar de pânico e horror que as "vítimas" ensaiavam...


Estradas

As estradas de Goa revelam-se, como se calcula, de uma grande humildade. São estreitas, embora asfaltadas. O problema é que estão preparadas para combater os "aceleras". Têm frequentes "speed brakers", isto é, imponentes lombas de alcatrão. Uma pequena placa, muitas vezes abafada pela vegetação, anuncia estes esquemas desincentivadores de loucuras ao volante.

Os motoristas indianos, muitas vezes com ordenados pouco superiores a cem rupias (500 escudos), deixam-se quase sempre apanhar de surpresa pelas lombas artificiais. Sempre que isto acontece, os passageiros dos autocarros, que são de tecto baixo e sem revestimento interior, saltam descontroladamente e arriscam-se facilmente a partir a cabeça. Aconteceu, a sério, ao autor deste relato.

Outra coisa, com imensa piada, é que os autocarros não têm espelho retrovisor. Um ajudante do condutor, sentado num banco corrido, em estilo yoga, vai de cabeça ao ar, a orientar a navegação. Com a mão direita, faz os sinais necessários ao motorista. Com a mão que leva de fora, trata de convencer os outros motoristas a facilitar-lhe a vida.

As "autoestradas" goesas acabam por ter pouco mais de três metros de largura e as cabines de portagem são pequenos cubículos, humildes e deteriorados. Mesmo assim, fazem jeito. Não têm "speed brakers"...


fotografia de Nelson Pereira



Naturalidade

Em Portugal somos muito discretos e convencionais na venda de coisas ligadas à morte. Em Goa, esses temas parecem desmistificados. É banal passar-se por um cangalheiro que vende as suas urnas com a mesma agressividade comercial dos colegas que vendem artigos mais comuns. No espaço em frente a este tipo de estabelecimentos, num cavalete, expõem-se um ou mais caixões, em madeira natural, apenas aplainada, sem vernizes, nem adornos. Os transeuntes passam-lhes em volta, com a maior das naturalidades.

Para tornar o negócio mais rentável, as paredes destas firmas de morte são repletas de anúncios garridos de cremes de beleza, Coca-Cola e outras bebidas próprias de mortais, com pinturas mortalmente apelativas de saudáveis raparigas trajadas à moda local ou ocidental... Trata-se, é claro, de produtos para usar em vida.

Há ali uma mensagem subliminar: vive com naturalidade, de acordo com os adereços que te esperam, quando...

 


nelson.pereira@netc.pt

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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