edição n.º 16 |
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crónica de viagem
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TEXTO e FOTOGRAFIAS: nelson pereira |
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Naturalidades de Goa
Mercado
O mercado popular de Pangim é um enorme e superpovoado labirinto onde se vende quase de tudo. Os
espaços estão preenchidos ao milímetro, e é frequente os clientes terem de se baixar sob a
"ameaça" das mercadorias expostas. Os estrangeiros que se estreiam no lugar, para além de fascinados, sentem-se
à vontade. Os portugueses em especial.
Fazem-se sempre algumas compras. A variedade dos artigos expostos é tal que dá vontade de levar
qualquer coisa. Discutem-se muito os preços, no inglês acessível dos comerciantes e, à despedida,
é vulgar ouvir umas palavras amigas em português. Como se verá adiante, há quem não goste muito
de dar a cara a falar o português. Mesmo 36 anos após o trauma.
Numa das veredas mais apinhadas de gente, um goês, acompanhado da filha, rigorosamente trajada à
indiana, estendeu a mão, espontaneamente:
— Chamo-me Valdemar Pereira e pertencia à Polícia do Estado Português da Índia.
Conhecia pessoalmente e muito bem o general Vassalo e Silva. Que é feito dele?
Apresentou a filha e estivemos algum tempo na conversa.
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— Em 1961, como gostava de ficar na minha terra, lá tive que assinar pela independência.
Fiquei especialmente emocionado com este encontro. O meu pai estivera também em Goa, em 1954–56. Tinha
um jipe distribuído e podia viajar por todo o lado, constantemente. Ficou com enormes saudades duma terra que bem conheceu
e não perde ocasião de recordar episódios, pessoas e lugares desses bons tempos. Foi mais por essa
razão particular que fui a Goa.
Sacerdote
Muitos goeses encolhiam-se na hora de falar Português.
Perto de Mapuçá, visitei um templo hindu. O sacerdote, com as vestes típicas do cargo,
muito profissional, parecia um indiano dos quatro costados, sem grandes simpatias pelo modo de vida ocidental. Em inglês,
enquanto o sino do templo soava com intermitência, mostrou todos os espaços e equipamentos religiosos. Exaustivamente.
Esmerou-se bastante com as carroças de rodas ferradas, enormes, que transportam os "andores" dos deuses: Shiva, Ganesh,
etc. são São em tudo idênticas às que em muitos sítios de Portugal transportam pesados andores.
Todos ouviam o "clérigo" com muita atenção e não houve grandes problemas de interpretação
porque o inglês que usava era acessível. Em certo momento, fez uma pausa na explanação para se gabar
que recebeu ali o Dr. Mário Soares. Gostara muito, ainda por cima. Caiu-lhe muito bem, muito bem mesmo, uma frase do
ex-presidente: «Respeito a vossa terra, porque os meus compatriotas estiveram cá durante séculos, com grandes
preocupações religiosas, mas também porque vocês, indianos, têm um religião ancestral
digna da maior admiração.»
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detalhe
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Já no fim da visita, o sacerdote hindu, talvez por lhe ter feito muitas perguntas, virou-se para mim e,
discretamente, fez-me um pedido. Queria cinquenta rupias. Disse isso em óptimo português. Fiquei banzado.
— Então, tu falas tão bem o português e estiveste a arengar em inglês o tempo todo?
Não se admite, pá! Ainda por cima, se precisas de...
— É que o português é a língua do colonialismo...
Como, apesar de tudo, era bastante simpático, convenci-o a aceitar resignadamente uma boa moeda
portuguesa de cinquenta escudos. Disse-lhe que já era pós-colonialista... Ficou bem com ela.
Fotografias
Uma das colegas do grupo que me acompanhava, goesa de nascimento mas que não revia terras indianas desde
1961, trazia consigo umas quantas e preciosas fotografias 6x9. Durante as saídas, levava-as na mão. Tinha a
preocupação permamente de rever os lugares e monumentos ali retratados. Repetia muitos comentários que o
pai fizera, a propósito de cada uma delas, ao longo de mais de trinta anos de forte saudade. Os templos hindus reviu-os
praticamente todos. As igrejas cristãs ia-as detectando também com alguma facilidade. Só uma delas, de certa
fotogenia, lhe escapou completamente. Pedia a ajuda do Prof. Dr. Teotónio de Souza, um sábio ex-jesuíta,
natural de Goa, que guiava a visita.
— Em Goa, há mais de trezentas igrejas cristãs. Essa não estou a ver qual seja...
Viram-se, na altura, pelo menos, três igrejas em construção, o que faz supor que daqui a
mais uns anos a tarefa de identificação dos templos se tornará ainda mais complexa.
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Redescoberta
Uma redescoberta chegou a ter a minha participação activa. A fotografia, com o motivo a
identificar, estava bem nítida. Tratava-se de um pequeno memorial hindu, com dois pilares ao alto e um outro, transversal,
a rematar. Na base, três degraus compridos em cimento, um deles com uma aresta partida e com um espaço oco, junto
ao chão.
Estavamos, então, nas imediações de uma imponente igreja da cidade de Goa. À
saída, bem perto, dei de caras com o pequeno monumento. É quase inacreditável como, quarenta anos depois,
está exactamente no mesmo estado que se via na fotografia. Um dos degraus tinha a mesma aresta quebrada e via-se o mesmo
espaço aberto, por baixo. Foi espantoso verificar o pormenor da resistência do cimento ao temível clima
monçónico.
Notável é também o cuidado que se nota na preservação de todos os monumentos.
Há avisos por todo o lado, com explicitação bem clara das penalidades para quem atentar contra os
vestígios do passado. Dois anos de cadeia é a melhor das penas.
Luxuriante
Goa é um paraíso de vegetação luxuriante. O verde é omnipresente, desde os
grandes arrozais às florestas. As plantas exóticas estão facilmente ao alcance dos viajantes. Pelo menos
numa viagem em Setembro, junto às bermas das estradas ou nos arredores de monumentos e espaços ajardinados,
é frequente, por exemplo, ver e tocar as "mimosas pudicas". São plantas com folhas algo parecidas com as das
mimosas. Mal se lhes toca, fecham-se imediatamente, numa grande área... Frutos como o caju, papaia, maçã e
muitos outros proliferam e vendem-se nos mercados em grandes quantidades. O facto subjacente, da fertilidade do solo, permite
aos naturais um nível de vida acima da média, para a nação indiana.
Este bom viver explicará também a tocante delicadeza dos goeses para os "turistas". Foi muito
frequente passar em lugares em que as pessoas descansavam, sentadas, e, à passagem, levantavam-se e saudavam cortesmente.
Um exemplo a importar urgentemente pela UE.
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Também é verdade que, no mercado de Mapuçá, o encantador de serpentes agarrava na
cascavel e atirava-a aos pés das pessoas que se esqueciam de dar umas rupiazitas. Ainda por cima, ria-se muito com o ar
de pânico e horror que as "vítimas" ensaiavam...
Estradas
As estradas de Goa revelam-se, como se calcula, de uma grande humildade. São estreitas, embora asfaltadas.
O problema é que estão preparadas para combater os "aceleras". Têm frequentes "speed brakers", isto é,
imponentes lombas de alcatrão. Uma pequena placa, muitas vezes abafada pela vegetação, anuncia estes esquemas
desincentivadores de loucuras ao volante.
Os motoristas indianos, muitas vezes com ordenados pouco superiores a cem rupias (500 escudos), deixam-se quase
sempre apanhar de surpresa pelas lombas artificiais. Sempre que isto acontece, os passageiros dos autocarros, que são de
tecto baixo e sem revestimento interior, saltam descontroladamente e arriscam-se facilmente a partir a cabeça. Aconteceu,
a sério, ao autor deste relato.
Outra coisa, com imensa piada, é que os autocarros não têm espelho retrovisor. Um ajudante
do condutor, sentado num banco corrido, em estilo yoga, vai de cabeça ao ar, a orientar a navegação. Com a
mão direita, faz os sinais necessários ao motorista. Com a mão que leva de fora, trata de convencer os
outros motoristas a facilitar-lhe a vida.
As "autoestradas" goesas acabam por ter pouco mais de três metros de largura e as cabines de portagem
são pequenos cubículos, humildes e deteriorados. Mesmo assim, fazem jeito. Não têm "speed brakers"...
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Naturalidade
Em Portugal somos muito discretos e convencionais na venda de coisas ligadas à morte. Em Goa, esses temas
parecem desmistificados. É banal passar-se por um cangalheiro que vende as suas urnas com a mesma agressividade comercial
dos colegas que vendem artigos mais comuns. No espaço em frente a este tipo de estabelecimentos, num cavalete,
expõem-se um ou mais caixões, em madeira natural, apenas aplainada, sem vernizes, nem adornos. Os transeuntes
passam-lhes em volta, com a maior das naturalidades.
Para tornar o negócio mais rentável, as paredes destas firmas de morte são repletas de
anúncios garridos de cremes de beleza, Coca-Cola e outras bebidas próprias de mortais, com pinturas
mortalmente apelativas de saudáveis raparigas trajadas à moda local ou ocidental... Trata-se, é claro, de
produtos para usar em vida.
Há ali uma mensagem subliminar: vive com naturalidade, de acordo com os adereços que te esperam,
quando...
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nelson.pereira@netc.pt

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EITO FORA: transmontano sem preconceitos
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