edição n.º 16 |
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reportagem
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REPORTAGEM: Rui A. Araújo, Carlos Chaves e
P. Araújo
FOTOGRAFIAS: Paulo Araújo |
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* «The Ucranian women are more beautiful than the Portuguese»,
ou, em português, «as mulheres ucranianas são boas como o milho». Nós só traduzimos...
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Há uma lacuna que afronta os repórteres regionais nos dias de hoje. (Não, não falamos
da falta de imaginação, essa não é novidade, e isto não é a Loa). A lacuna de que
falamos tem a ver com os novos tempos de globalização em que vivemos, tem a ver com os refluxos da história
(seja lá o que isso for). A lacuna de que falamos tem a ver com a falta de conhecimentos da língua ucraniana. Verdade!
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Yurin
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Gastas as páginas dos jornais de paróquia a falar dos portugueses emigrados nas Alemanhas e nas
Franças da nossa diáspora, chegou agora o tempo de falarmos de outra migração, neste caso a
imigração. De Leste. Há anos, senão décadas, que o nosso país é procurado por
cidadãos africanos das ex-colónias como se de um oásis se tratasse. Recentemente, são os despojados da
queda do muro que dão o "salto" para cá. A uns e outros esperam-nos os CCBs, as auto-estradas e os Alquevas. Em
Trás-os-Montes não há grandes obras públicas, para desespero do bom amante do betão que é
o transmontano, mas está escrito que nem só de grandes obras vive o emigrante.
Décadas depois da saída do primeiro transmontano para as amarguras da Europa central, eis que chegou
a nossa vez de acolher os deserdados do desmembramento da URSS. Como já se terão apercebido, andam aí ucranianos
e russos. No concelho aguiarense tem sido a indústria da pedra a acolhê-los. Nas pedreiras das imediações,
o sotaque, que antes vivia dos trejeitos penafidelenses, enche-se agora do estranho linguajar do oriente da Europa.
A Portugal, pátria de emigrantes, foi-lhe dada a oportunidade de provar que é melhor anfitrião
do que os países que nos acolheram e acolhem. Nem sempre, ou quase nunca, o país tem aproveitado essa oportunidade.
Que o digam os muitos negros impossibilitados de disfarçar a cor num pais onde é politicamente correcto dizer-se que
não há racismo. Que o digam os homens de Leste que chegam com promessas de bons ordenados e se vêem obrigados
a trabalhar e a viver na miséria por empreiteiros sem escrúpulos. Trás-os-Montes, que tem uma grossa fatia da
sua população residente no estrangeiro, tem a obrigação moral de receber com toda a dignidade aqueles
que agora procuram melhores salários nestas serranias.
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Yurin a trabalhar
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A firma Irmãos Queirós (passe a publicidade) está a cumprir esse desígnio.
São já oito os ucranianos que ali trabalham, legalizados ou em vias de. Os ordenados são bons, se tivermos
em conta que a alimentação e o alojamento estão por conta da firma. Também as condições
de alojamento são boas: uma vivenda dos anos 70, com piscina(!), num local bucólico junto ao rio Avelames, em Pedras
Salgadas. Se a firma está contente com a vontade de trabalhar dos homens, com a sua correcção e empenho,
também eles se dizem satisfeitos com o acolhimento. (Nesta nova relação entre o patronato local e a
mão-de-obra estrangeira reside a pergunta sobre as estatísticas de desemprego da região, sobre as
razões desse desemprego, sobre uma certa tendência para a preguiça...)
Falámos com Yurin e Oleg. Faltava-nos o domínio da sua língua, é certo, e eles ainda
percebem e falam pouco português (o inglês da nossa esperança também se revelou quase inútil).
Tradutores de ucraniano não estavam ao alcance da nossa depauperada bolsa (tão coitadinhos que nós somos).
Por isso a coisa foi mesmo assim.
Não filosofámos sobre as diferenças entre 40 anos de salazarismo e seis décadas de
comunismo; não contrapusemos Eça, Camilo e Pessoa à literatura ucraniana (até porque a desconhecemos,
e desconfiamos que os bigodudos portugueses pouco lhes dirão); não nos revelaram segredos da indústria
ucraniana, nem nos fascinaram com as lendas populares de Vinnitsa ou as estórias urbanas de Zaporozche, as terras de
origem de um e outro. Mas ficámos a saber que os russos Tolstoi e Dostoiévsky são estudados nas escolas
ucranianas, que Yurin e Oleg viviam melhor antes de 1989, que, apesar de tudo, o comunismo não lhes diz nada (pelo menos
a julgar pela expressão de Yurin), que aparentam um certo receio em abordar algumas questões mais políticas,
que o actual presidente Kutchma é «mais ou menos»...
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Oleg
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Yurin era mecânico e motorista. Na Ucrânia deixou a mulher, veterinária, e dois filhos
pequenos. Oleg, que trabalhava com máquinas numa fábrica de fios eléctricos, também deixou o filho
com a mulher, contabilista. Agora Oleg continua a trabalhar com máquinas, mas ao fim do dia não tem a família
à espera dele. Quando chega às margens do rio Avelames, o bucolismo da paisagem só lhe serve para distrair
as memórias.
Estão em Portugal há cinco meses e nas pedreiras há quatro. Como os emigrantes portugueses,
alimentam a esperança de em alguns anos ganhar o suficiente para remediar o resto da vida na terra-mãe. Entretanto,
acumulam esperançadamente meses de serviço e têm a mesma esperança que a lisura dos patrões
lhes permita umas futuras férias junto da família.
Escolheram Portugal não pelos lindos olhos das portuguesas (nem sequer hesitam em defender que as
mulheres ucranianas são mais bonitas do que as portuguesas, não sabemos se por temerem que as esposas venham a ler
o Eito Fora...), mas porque notaram uma maior facilidade em conseguir a legalização. O que, bem vistas as coisas,
não deixa de ser um elogio a esta nobre nação.
A chuva tão persistente que encontraram por cá aborrece-os e aumenta-lhes as saudades de casa.
«Na Ucrânia é mais frio», dizem, «mas não chove tanto». As temperaturas chegam a descer aos trinta graus
negativos («agora estão dez, doze negativos», diz Yurin, que contacta regularmente a família por telefone ou carta),
mas no verão os termómetros também sobem aos trinta graus positivos, e o Mar Negro é convidativo
nessa altura.
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Oleg a trabalhar
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Afirmam não ser grandes bebedores (a vodka era só por causa do frio...), e por isso, instados a
comentar os vinhos portugas, não são muito palavrosos na apreciação. A comida, que usa os mesmo
produtos, mas com diferente confecção, parece-lhes bem. Também a paisagem transmontana não lhes
merece muitos comentários. «Diferente.» O que se percebe é que Yurin e Oleg não são muito exigentes:
um bom salário (e este bom é relativo, como se sabe) e um bom patrão, são as premissas suficientes
para que não se arrependam da vinda. O resto, a paisagem, a gastronomia, o clima não conta muito. «Portugal bom
para trabalhar, Ucrânia bom para viver.»
Nas folgas, tratam da roupa, jogam bilhar nos cafés dos arredores, ou metem-se no autocarro e vão
até à sede do concelho encontrar outros "camaradas". Quando o à-vontade for suficiente, então talvez
arrisquem uns passeios maiores e arranjem maneira de se divertir mais. É que alguns são solteiros e Espanha
está aqui tão perto...
Lamentamos que as grandes questões, a filosofia, a política, a literatura, a sociologia,
não tenham tido lugar nesta reportagem (o nosso domínio da linguagem gestual não permite o recurso a
conceitos abstractos). Mas voltaremos à carga. Quando Yurin, Oleg e companheiros dominarem o português. Ou
nós o ucraniano...
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EITO FORA: transmontano sem preconceitos
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