edição n.º 16 |
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questionário
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TEXTO: gil silva
FOTOGRAFIAS: pedro martins colaço |
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António Cabral
Nasceu em Castedo do Douro, aldeia do concelho de Alijó. Que recordações guarda da sua
infância?
— É verdade, nasci numa aldeia que, como os ribeiros, corre para o rio: correm os olhos dos homens,
correm as vinhas e o desejo de partir. Eu também parti, deixando lá a minha infância que continua, onde estou,
no que escrevo. E continua a imagem duma terra, a um tempo feroz e doce, que não conhece plainos acomodatícios.
O facto de ter nascido no meio rural influenciou a sua escrita e a sua procura de tradições
populares?
— A minha escrita reflecte-me, como aliás acontece com todos os escritores, e esse reflexo é o do
que em mim vai ficando do tempo vivido e a viver. A minha residência oficial é numa cidade; a minha residência
espiritual é o pensamento. De resto a pequena cidade de Vila Real, apesar de urbanística e arquitectonicamente me
entristecer, algumas vezes, é suficientemente bem emoldurada de serranias e ambientes rurais que me agradam e estimulam.
Da minha terra natal e desta cidade é que eu tenho viajado com a memória e com os olhos para estudar e definir a
nossa identidade cultural que está conjuntamente nas nossas tradições populares e no modo como vamos ouvindo,
assumindo a nossa terra e tudo quanto a rodeia. Pode lá um homem não dar o sabor à vasilha!
Passou grande parte da sua juventude no Seminário de Vila Real, onde adquiriu formação,
quer académica, quer religiosa. Como comenta o tempo passado no Seminário?
— Embora prosseguisse depois outros estudos, recebi formação muito importante no Seminário
de Vila Real. Ora como hei-de comentar o tempo que ali passei? Foi o da minha juventude e, apesar dalgumas restrições
(bem mais graves eram as da política ditatorial), recordo esse tempo com bastante saudade. Foi então que ganhei o
gosto da escrita literária, chegando a publicar um livro de poemas. Já vê que... Ah, é verdade,
mantenho, talvez mais vivas, as crenças religiosas desse tempo.
Qual ou quais os seus escritores favoritos (portugueses e estrangeiros)?
— Não tenho nenhum escritor favorito, pois os motivos de atracção acabam por ser diferentes
em todos os que figuram nas minhas estantes. Por exemplo, o que me deslumbra no "Prometeu Agrilhoado", de Ésquilo,
e na "Antígona", de Sófocles (a grandeza da vontade, seja qual for o preço, contra o despotismo),
não é o que para mim avulta na "Odisseia", de Homero (o espírito de aventura e o sortilégio
do desconhecido). Camões, Vieira, Garrett, por aí fora, só em certos aspectos me são preferências.
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Que tipo de escrita mais o fascina: a poesia, o teatro ou a prosa?
— A poesia, sem dúvida. Livro de ficção ou de teatro onde ela não se faça
sentir, não exprime bem aquilo a que Platão chamava o esplendor da verdade, isto é, a beleza. A literariedade
é, antes de mais, poeticidade. De resto, o oposto da poesia não é a prosa, pois há muita prosa a que
especificamente se chama e de facto é prosa poética; e andam muitos versos por aí que não têm
poesia nenhuma.
A região de Trás-os-Montes é uma fonte de inspiração para muitos autores
e parece sê-lo também para si. É verdade? Porquê?
— A nossa região figura, mais ou menos visivelmente, em muitos livros, como pano de fundo, sejam eles de
carácter literário, de investigação ou simplesmente de informação. Ainda recentemente
foi publicada uma obra importantíssima, de poesia e de fotografia, com o patrocínio do Instituto de Navegabilidade
do Douro ("Douro – Um Percurso de Segredos"). E o Douro pesa tanto na minha obra poética que em "Antologia
dos Poemas Durienses" reuni textos de todos os meus livros de poesia. Lá está: o sabor à vasilha. Quem
o pode verdadeiramente evitar?
O Douro candidatou-se a património mundial. Que lhe apraz dizer sobre esta candidatura?
— Boa é a candidatura, até porque o Douro vinhateiro tem características únicas em
todo o mundo. O que é preciso é que os valores durienses, de quadrantes vários, sejam tidos na devida
consideração. E é preciso ainda trabalhar na definição do sistema cultural do Alto Douro pois,
à margem dessa definição, nunca saberemos bem o que estamos a elevar à categoria de património
mundial. Além da paisagem e das vinhas, dos produtos da terra e sua história, sua expressão, há a
imagem que vai sendo transmitida através de todos nós: tradições, crenças, vivências,
saberes, padrões de comportamento como festas e jogos, entre outros, ambiente social e tendências, artes, etc.
José Leon Machado considera-o, com A. M. Pires Cabral e Bento da Cruz, um dos maiores escritores
transmontanos da actualidade. Por sua vez A. M. Pires Cabral considera-o, a par de Miguel Torga, um dos maiores poetas do Douro
vinhateiro. Que opina sobre isto?
— Toda a afirmação desse género tem um valor temporal. Sinto-me bem acompanhado, mas
é preciso não esquecer que a história da arte literária é um processo. Há jovens muito
talentosos e outros com produções de relevo, os quais, se não cito, é porque não tenho a
veleidade de lhes conhecer toda a obra ou, nalguns casos, parte substancial.
No seu livro "Tradições Populares II" fala-nos de diversas tradições e
costumes. Qual a importância de manter e recuperar tradições?
— Uma coisa é manter e outra recuperar. O que o povo mantém não deve ser apenas objecto do
nosso estudo, mas também, quanto possível, da nossa participação. Recuperar tradições
é, todavia, um caso melindroso, já que põe a nu o problema da autenticidade. Falo evidentemente das
tradições que se abandonaram e não daquelas cujas manifestações se interromperam por alguns
anos, mesmo décadas, por falta de condições comunitárias. Dou um exemplo: se em determinada localidade,
deixou ao longo de trinta anos de se representar um determinado auto (Ramos, Auto da Paixão ou outro), porque morreu o
ensaiador ou se desintegrou a comissão que o promovia, a tradição retoma-se ou recupera-se autenticamente,
sempre que houver disponibilidade para tal.
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Ainda no livro "Tradições Populares II", diz, em relação às Pulhas e aos
Casamentos: «O costume (...) extinguiu-se, quase completamente, como outros costumes tidos como "bárbaros" ou
"destabilizadores".»1 Perante esta afirmação, o que se lhe oferece dizer sobre os touros de Barrancos,
a matança do porco ou as chegas de bois?
— As Pulhas não se extinguiram totalmente, uma vez que, sob a forma benigna dos Casamentos, continuam,
tal como acontece, entre outros sítios, em Campo de Jales. A agressividade de censurar pública e estrondosamente
certa vida privada é que foi eliminada ou esmoreceu. Quanto à matança do porco: não confundir uma
prática corrente e necessária ao homem com um acto de crueldade, mesmo que a matança tenha um carácter
festivo, desde que não refinando o sofrimento do animal. As chegas de bois não visam a morte, reproduzindo, embora
desportivamente, o que se passa no campo. Quanto às touradas de Barrancos: alegar a tradição não as
desculpa, de contrário teríamos de pactuar com outras, como a do canibalismo e a de abandonar pais e avós
quando velhos e inúteis para o trabalho. Não deve, quanto a mim, matar-se um animal, seja ele qual for, até
ao requinte dum sofrimento espectacular.
«A cultura, de resto, não é um organismo autónomo e definitivo e evolui com o homem que
a habita e pela qual é habitado.»2 Não acha que a evolução de certos hábitos culturais
dos portugueses tem como consequência a extinção de costumes e tradições? Não será
essa mudança natural (e criadora de outros costumes)?
— Concordo com as duas questões e respondo pela afirmativa, salvaguardando os costumes e
tradições inerentes ao que se tem por natureza humana, casos de subir a um pau ensebado (ou com preparado
escorregadio) e tentar acertar com uma vara num objecto, tendo os olhos vendados, entre muitos outros.
"Quem sai aos seus não degenera." Com toda esta evolução e a rapidez com que o mundo
avança, estaremos a degenerar ou a evoluir para formas superiores de existência?
— Pelo menos enquanto a ciência não assinalar o termo da expansão do universo, não
é cientificamente legítimo afirmar que não tem sentido a evolução para formas superiores de
existência. Desde o Big-Bang que o mundo evolui. E estou convencido de que evolui para o mais perfeito. Sob este aspecto
concordo com Hegel, dentro duma "tradição" de pensamento que já vem de Heráclito.
Na realidade, a visão "usual" de Trás-os-Montes e Alto Douro não será uma imagem
mítica, resultante de memórias próprias ou de estereótipos inculcados?
— Se por visão usual se entender, por parte dos transmontanos e durienses, um apego acrítico ao
terrunho, estou de acordo. Tratando-se, como penso que se trata na maior parte dos casos, duma atitude resultante do amor à
terra, pelos encantos naturais que se lhe reconhecem, e o convívio reforça, e pelo direito aliado ao dever de
reivindicar para ela as condições de vida que se atribuem às outras regiões, então a imagem
que dela se faça (sempre mítica no que tem de símbolo comunitário), fruto natural de memórias
próprias, nada tem de estereótipo.
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Não existirá na literatura transmontana uma demasiado forte identificação com as
tradições e o modus vivendi dos transmontanos, uma visão unívoca da sua história?
Será redutora esta espécie de "escola" literária, ou, pelo contrário, servirá para consolidar
uma identidade?
— Preferia designar de regionalista e não de transmontana a obra conjunta dos nossos escritores. A
resposta poderia ir muito longe, mas limito-me a dizer que no mundo de hoje, de tão intensa comunicação,
não há lugar para literaturas características duma região, mas sim de interesse pelo mundo rural, o
que em princípio nada tem a ver com idílios e bucolismo. A esse interesse tem-se-lhe chamado regionalismo que, no
fim de contas, é um termo algo equívoco, mas tem servido, pelo seu maior grau de generalidade. Ora um escritor
regionalista é-o na medida em que se prende a uma certa região, em alguns dos seu livros ou em parte deles. Eu,
por exemplo, quando escrevo não penso apenas na minha região e quando penso, tal como outros, não deixo de
sintonizar-me com uma identidade cultural.
A insistência nalgumas especificidades culturais transmontanas, podendo cristalizar o que é ser
transmontano, não sufocará um património humano de criatividade, imaginação, descoberta?
— A referência cultural não cristaliza: deixa ver através do cristal. Só o
fundamentalismo e a visão redutora dum sistema cultural aberto colidem com a liberdade criadora duma comunidade. A cultura
evolui, está visto. Já o disse. E, se evolui, descobre novas formas. Nenhum escritor, aliás, e nenhum
etnógrafo visam sufocar a imaginação e, mesmo que visassem, como o iriam conseguir? Não é
próprio da escrita literária, porque não a identifica, fazer política ou qualquer espécie de
propaganda. Por outro lado, nenhuma visão cultural é unívoca: só a que o não seja corre esse
risco.
«Não sabia (ainda) que o javali é bicho finório, faro subtilíssimo que, se os
eleitores de todos os quadrantes, sobretudo os das aldeolas, partilhassem em um por cento, não iam nas tramóias de
uns tantos espertalhões (por isso minguados de talento e de outros predicados condizentes com a função
almejada, onde os tlíntamos se ouvem cantar por antecipação) e dificilmente se deixariam enlaçar.»3
É esta a opinião que tem dos políticos e da política?
— Repare que eu falo só de uns tantos espertalhões, minguados de talento e com o faro nos
tlíntamos. A política tanto faz parte da natureza humana que já Aristóteles definia o homem como um
animal político.
Tem vários poemas seus musicados por grandes nomes da música de intervenção,
Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira e o padre Francisco Fanhais. Considera-se um intervencionista?
— Escritor intervencionista, sim, quer antes, quer depois do 25 de Abril. Como Prometeu ou Antígona,
oponho-me ao despotismo e seus avatares. Não confundir, porém, intervencionismo com propaganda ou
radicalização política. Esta minha maneira de ser tem-me trazido alguns dissabores. Traga. A minha
consciência fica mais robustecida. Mas repare: nem tudo é intervencionismo no que escrevo, se não a minha
vida seria uma tensão permanente.
«...o seu bunker e mal iria se assim não fosse, impedindo o homem de guardar segredos, levedar
memórias e amadurecer intenções, ao abrigo dos voyeurs, que os há em todo o mundo, desde um
quelho a uma avenida.»4 Big Brother?
p align=justify>— Não posso falar aprofundadamente do "Big Brother", porque as poucas cenas que desse programa vi (e,
quando acompanhado, a fim de não fazer perrices, poderei ainda ver), repeliram-me. Aquilo não me parece um
bunker, mas um laboratório público de robots.
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O que poderia ou deveria ser feito para acabarmos com os malefícios da interioridade a que estamos
votados em Trás-os-Montes e Alto Douro?
— Já escrevi muito sobre isso. Para não alongar a entrevista, direi apenas que, quando nos
convencermos de que as populações são os verdadeiros agentes do seu próprio desenvolvimento — com a
ajuda de toda a espécie de poder, evidentemente —, teremos dado um passo importantíssimo. Isso prende-se com o
conceito antropológico de cultura. Podíamos instalar a Internet em todas as escolas e juntas de freguesia, fazer
passar uma auto-estrada ao lado de cada aldeia, que nem assim a desertificação iria suster-se. Talvez pelo
contrário. Era como se disséssemos: vá, saí dessa espelunca.
A delegação do INATEL, a que preside, tem tido uma intervenção muito grande (pelo
menos) na área da cultura popular. É esta a vocação do INATEL ou é uma natural
personalização que faz da instituição?
— O INATEL move-se em três grandes áreas: cultura (sobretudo a popular), desporto (amador e para
todos) e turismo (social, de férias e sénior), tendo em vista o aproveitamento e a animação dos
tempos livres dos trabalhadores portugueses. O haver-me dedicado à teoria do jogo e à animação dos
jogos populares é anterior à minha entrada na delegação do INATEL para este distrito, acontecendo
que as tradições populares foram sempre um dos campos privilegiados da sua animação cultural.
Que futuro antevê para a cultura nesta região?
— Contrariar os efeitos nocivos da globalização não depende apenas de nós. Mas ai
do nosso planeta, se a cultura viesse a uniformizar-se: não passaríamos de títeres telecomandados. O que
não acontecerá. Os políticos e os economistas começam a aperceber-se de que interferir negativamente
nas culturas regionais gera a instabilidade e, através dela, um clima de guerra, a própria guerra. O futuro da
nossa cultura deve preocupar-nos.
Notas:
1 António Cabral, "Tradições Populares – II", INATEL, p. 48.
2 António Cabral, "Tradições Populares – II", INATEL, p. 49.
3 António Cabral, "A Noiva de Caná", Editorial Notícias, p. 11.
4 António Cabral, "A Noiva de Caná", Editorial Notícias, p. 1.
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EITO FORA: transmontano sem preconceitos
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