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questionário
TEXTO: gil silva
FOTOGRAFIAS: pedro martins colaço


fotografia de Pedro Martins Colaço


António Cabral


Nasceu em Castedo do Douro, aldeia do concelho de Alijó. Que recordações guarda da sua infância?

— É verdade, nasci numa aldeia que, como os ribeiros, corre para o rio: correm os olhos dos homens, correm as vinhas e o desejo de partir. Eu também parti, deixando lá a minha infância que continua, onde estou, no que escrevo. E continua a imagem duma terra, a um tempo feroz e doce, que não conhece plainos acomodatícios.

O facto de ter nascido no meio rural influenciou a sua escrita e a sua procura de tradições populares?

— A minha escrita reflecte-me, como aliás acontece com todos os escritores, e esse reflexo é o do que em mim vai ficando do tempo vivido e a viver. A minha residência oficial é numa cidade; a minha residência espiritual é o pensamento. De resto a pequena cidade de Vila Real, apesar de urbanística e arquitectonicamente me entristecer, algumas vezes, é suficientemente bem emoldurada de serranias e ambientes rurais que me agradam e estimulam. Da minha terra natal e desta cidade é que eu tenho viajado com a memória e com os olhos para estudar e definir a nossa identidade cultural que está conjuntamente nas nossas tradições populares e no modo como vamos ouvindo, assumindo a nossa terra e tudo quanto a rodeia. Pode lá um homem não dar o sabor à vasilha!

Passou grande parte da sua juventude no Seminário de Vila Real, onde adquiriu formação, quer académica, quer religiosa. Como comenta o tempo passado no Seminário?

— Embora prosseguisse depois outros estudos, recebi formação muito importante no Seminário de Vila Real. Ora como hei-de comentar o tempo que ali passei? Foi o da minha juventude e, apesar dalgumas restrições (bem mais graves eram as da política ditatorial), recordo esse tempo com bastante saudade. Foi então que ganhei o gosto da escrita literária, chegando a publicar um livro de poemas. Já vê que... Ah, é verdade, mantenho, talvez mais vivas, as crenças religiosas desse tempo.

Qual ou quais os seus escritores favoritos (portugueses e estrangeiros)?

— Não tenho nenhum escritor favorito, pois os motivos de atracção acabam por ser diferentes em todos os que figuram nas minhas estantes. Por exemplo, o que me deslumbra no "Prometeu Agrilhoado", de Ésquilo, e na "Antígona", de Sófocles (a grandeza da vontade, seja qual for o preço, contra o despotismo), não é o que para mim avulta na "Odisseia", de Homero (o espírito de aventura e o sortilégio do desconhecido). Camões, Vieira, Garrett, por aí fora, só em certos aspectos me são preferências.


fotografia de Pedro Martins Colaço


Que tipo de escrita mais o fascina: a poesia, o teatro ou a prosa?

— A poesia, sem dúvida. Livro de ficção ou de teatro onde ela não se faça sentir, não exprime bem aquilo a que Platão chamava o esplendor da verdade, isto é, a beleza. A literariedade é, antes de mais, poeticidade. De resto, o oposto da poesia não é a prosa, pois há muita prosa a que especificamente se chama e de facto é prosa poética; e andam muitos versos por aí que não têm poesia nenhuma.

A região de Trás-os-Montes é uma fonte de inspiração para muitos autores e parece sê-lo também para si. É verdade? Porquê?

— A nossa região figura, mais ou menos visivelmente, em muitos livros, como pano de fundo, sejam eles de carácter literário, de investigação ou simplesmente de informação. Ainda recentemente foi publicada uma obra importantíssima, de poesia e de fotografia, com o patrocínio do Instituto de Navegabilidade do Douro ("Douro – Um Percurso de Segredos"). E o Douro pesa tanto na minha obra poética que em "Antologia dos Poemas Durienses" reuni textos de todos os meus livros de poesia. Lá está: o sabor à vasilha. Quem o pode verdadeiramente evitar?

O Douro candidatou-se a património mundial. Que lhe apraz dizer sobre esta candidatura?

— Boa é a candidatura, até porque o Douro vinhateiro tem características únicas em todo o mundo. O que é preciso é que os valores durienses, de quadrantes vários, sejam tidos na devida consideração. E é preciso ainda trabalhar na definição do sistema cultural do Alto Douro pois, à margem dessa definição, nunca saberemos bem o que estamos a elevar à categoria de património mundial. Além da paisagem e das vinhas, dos produtos da terra e sua história, sua expressão, há a imagem que vai sendo transmitida através de todos nós: tradições, crenças, vivências, saberes, padrões de comportamento como festas e jogos, entre outros, ambiente social e tendências, artes, etc.

José Leon Machado considera-o, com A. M. Pires Cabral e Bento da Cruz, um dos maiores escritores transmontanos da actualidade. Por sua vez A. M. Pires Cabral considera-o, a par de Miguel Torga, um dos maiores poetas do Douro vinhateiro. Que opina sobre isto?

— Toda a afirmação desse género tem um valor temporal. Sinto-me bem acompanhado, mas é preciso não esquecer que a história da arte literária é um processo. Há jovens muito talentosos e outros com produções de relevo, os quais, se não cito, é porque não tenho a veleidade de lhes conhecer toda a obra ou, nalguns casos, parte substancial.

No seu livro "Tradições Populares II" fala-nos de diversas tradições e costumes. Qual a importância de manter e recuperar tradições?

— Uma coisa é manter e outra recuperar. O que o povo mantém não deve ser apenas objecto do nosso estudo, mas também, quanto possível, da nossa participação. Recuperar tradições é, todavia, um caso melindroso, já que põe a nu o problema da autenticidade. Falo evidentemente das tradições que se abandonaram e não daquelas cujas manifestações se interromperam por alguns anos, mesmo décadas, por falta de condições comunitárias. Dou um exemplo: se em determinada localidade, deixou ao longo de trinta anos de se representar um determinado auto (Ramos, Auto da Paixão ou outro), porque morreu o ensaiador ou se desintegrou a comissão que o promovia, a tradição retoma-se ou recupera-se autenticamente, sempre que houver disponibilidade para tal.


fotografia de Pedro Martins Colaço


Ainda no livro "Tradições Populares II", diz, em relação às Pulhas e aos Casamentos: «O costume (...) extinguiu-se, quase completamente, como outros costumes tidos como "bárbaros" ou "destabilizadores".»1 Perante esta afirmação, o que se lhe oferece dizer sobre os touros de Barrancos, a matança do porco ou as chegas de bois?

— As Pulhas não se extinguiram totalmente, uma vez que, sob a forma benigna dos Casamentos, continuam, tal como acontece, entre outros sítios, em Campo de Jales. A agressividade de censurar pública e estrondosamente certa vida privada é que foi eliminada ou esmoreceu. Quanto à matança do porco: não confundir uma prática corrente e necessária ao homem com um acto de crueldade, mesmo que a matança tenha um carácter festivo, desde que não refinando o sofrimento do animal. As chegas de bois não visam a morte, reproduzindo, embora desportivamente, o que se passa no campo. Quanto às touradas de Barrancos: alegar a tradição não as desculpa, de contrário teríamos de pactuar com outras, como a do canibalismo e a de abandonar pais e avós quando velhos e inúteis para o trabalho. Não deve, quanto a mim, matar-se um animal, seja ele qual for, até ao requinte dum sofrimento espectacular.

«A cultura, de resto, não é um organismo autónomo e definitivo e evolui com o homem que a habita e pela qual é habitado.»2 Não acha que a evolução de certos hábitos culturais dos portugueses tem como consequência a extinção de costumes e tradições? Não será essa mudança natural (e criadora de outros costumes)?

— Concordo com as duas questões e respondo pela afirmativa, salvaguardando os costumes e tradições inerentes ao que se tem por natureza humana, casos de subir a um pau ensebado (ou com preparado escorregadio) e tentar acertar com uma vara num objecto, tendo os olhos vendados, entre muitos outros.

"Quem sai aos seus não degenera." Com toda esta evolução e a rapidez com que o mundo avança, estaremos a degenerar ou a evoluir para formas superiores de existência?

— Pelo menos enquanto a ciência não assinalar o termo da expansão do universo, não é cientificamente legítimo afirmar que não tem sentido a evolução para formas superiores de existência. Desde o Big-Bang que o mundo evolui. E estou convencido de que evolui para o mais perfeito. Sob este aspecto concordo com Hegel, dentro duma "tradição" de pensamento que já vem de Heráclito.

Na realidade, a visão "usual" de Trás-os-Montes e Alto Douro não será uma imagem mítica, resultante de memórias próprias ou de estereótipos inculcados?

— Se por visão usual se entender, por parte dos transmontanos e durienses, um apego acrítico ao terrunho, estou de acordo. Tratando-se, como penso que se trata na maior parte dos casos, duma atitude resultante do amor à terra, pelos encantos naturais que se lhe reconhecem, e o convívio reforça, e pelo direito aliado ao dever de reivindicar para ela as condições de vida que se atribuem às outras regiões, então a imagem que dela se faça (sempre mítica no que tem de símbolo comunitário), fruto natural de memórias próprias, nada tem de estereótipo.


fotografia de Pedro Martins Colaço


Não existirá na literatura transmontana uma demasiado forte identificação com as tradições e o modus vivendi dos transmontanos, uma visão unívoca da sua história? Será redutora esta espécie de "escola" literária, ou, pelo contrário, servirá para consolidar uma identidade?

— Preferia designar de regionalista e não de transmontana a obra conjunta dos nossos escritores. A resposta poderia ir muito longe, mas limito-me a dizer que no mundo de hoje, de tão intensa comunicação, não há lugar para literaturas características duma região, mas sim de interesse pelo mundo rural, o que em princípio nada tem a ver com idílios e bucolismo. A esse interesse tem-se-lhe chamado regionalismo que, no fim de contas, é um termo algo equívoco, mas tem servido, pelo seu maior grau de generalidade. Ora um escritor regionalista é-o na medida em que se prende a uma certa região, em alguns dos seu livros ou em parte deles. Eu, por exemplo, quando escrevo não penso apenas na minha região e quando penso, tal como outros, não deixo de sintonizar-me com uma identidade cultural.

A insistência nalgumas especificidades culturais transmontanas, podendo cristalizar o que é ser transmontano, não sufocará um património humano de criatividade, imaginação, descoberta?

— A referência cultural não cristaliza: deixa ver através do cristal. Só o fundamentalismo e a visão redutora dum sistema cultural aberto colidem com a liberdade criadora duma comunidade. A cultura evolui, está visto. Já o disse. E, se evolui, descobre novas formas. Nenhum escritor, aliás, e nenhum etnógrafo visam sufocar a imaginação e, mesmo que visassem, como o iriam conseguir? Não é próprio da escrita literária, porque não a identifica, fazer política ou qualquer espécie de propaganda. Por outro lado, nenhuma visão cultural é unívoca: só a que o não seja corre esse risco.

«Não sabia (ainda) que o javali é bicho finório, faro subtilíssimo que, se os eleitores de todos os quadrantes, sobretudo os das aldeolas, partilhassem em um por cento, não iam nas tramóias de uns tantos espertalhões (por isso minguados de talento e de outros predicados condizentes com a função almejada, onde os tlíntamos se ouvem cantar por antecipação) e dificilmente se deixariam enlaçar.»3 É esta a opinião que tem dos políticos e da política?

— Repare que eu falo só de uns tantos espertalhões, minguados de talento e com o faro nos tlíntamos. A política tanto faz parte da natureza humana que já Aristóteles definia o homem como um animal político.

Tem vários poemas seus musicados por grandes nomes da música de intervenção, Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira e o padre Francisco Fanhais. Considera-se um intervencionista?

— Escritor intervencionista, sim, quer antes, quer depois do 25 de Abril. Como Prometeu ou Antígona, oponho-me ao despotismo e seus avatares. Não confundir, porém, intervencionismo com propaganda ou radicalização política. Esta minha maneira de ser tem-me trazido alguns dissabores. Traga. A minha consciência fica mais robustecida. Mas repare: nem tudo é intervencionismo no que escrevo, se não a minha vida seria uma tensão permanente.

«...o seu bunker e mal iria se assim não fosse, impedindo o homem de guardar segredos, levedar memórias e amadurecer intenções, ao abrigo dos voyeurs, que os há em todo o mundo, desde um quelho a uma avenida.»4 Big Brother? p align=justify>— Não posso falar aprofundadamente do "Big Brother", porque as poucas cenas que desse programa vi (e, quando acompanhado, a fim de não fazer perrices, poderei ainda ver), repeliram-me. Aquilo não me parece um bunker, mas um laboratório público de robots.


fotografia de Pedro Martins Colaço


O que poderia ou deveria ser feito para acabarmos com os malefícios da interioridade a que estamos votados em Trás-os-Montes e Alto Douro?

— Já escrevi muito sobre isso. Para não alongar a entrevista, direi apenas que, quando nos convencermos de que as populações são os verdadeiros agentes do seu próprio desenvolvimento — com a ajuda de toda a espécie de poder, evidentemente —, teremos dado um passo importantíssimo. Isso prende-se com o conceito antropológico de cultura. Podíamos instalar a Internet em todas as escolas e juntas de freguesia, fazer passar uma auto-estrada ao lado de cada aldeia, que nem assim a desertificação iria suster-se. Talvez pelo contrário. Era como se disséssemos: vá, saí dessa espelunca.

A delegação do INATEL, a que preside, tem tido uma intervenção muito grande (pelo menos) na área da cultura popular. É esta a vocação do INATEL ou é uma natural personalização que faz da instituição?

— O INATEL move-se em três grandes áreas: cultura (sobretudo a popular), desporto (amador e para todos) e turismo (social, de férias e sénior), tendo em vista o aproveitamento e a animação dos tempos livres dos trabalhadores portugueses. O haver-me dedicado à teoria do jogo e à animação dos jogos populares é anterior à minha entrada na delegação do INATEL para este distrito, acontecendo que as tradições populares foram sempre um dos campos privilegiados da sua animação cultural.

Que futuro antevê para a cultura nesta região?

— Contrariar os efeitos nocivos da globalização não depende apenas de nós. Mas ai do nosso planeta, se a cultura viesse a uniformizar-se: não passaríamos de títeres telecomandados. O que não acontecerá. Os políticos e os economistas começam a aperceber-se de que interferir negativamente nas culturas regionais gera a instabilidade e, através dela, um clima de guerra, a própria guerra. O futuro da nossa cultura deve preocupar-nos.


Notas:
1 António Cabral, "Tradições Populares – II", INATEL, p. 48.
2 António Cabral, "Tradições Populares – II", INATEL, p. 49.
3 António Cabral, "A Noiva de Caná", Editorial Notícias, p. 11.
4 António Cabral, "A Noiva de Caná", Editorial Notícias, p. 1.

 


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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