As malhas
que ela tece
Conhecemos a Palmira na última "Mostra das Terras de Aguiar", que de resto foi a primeira em que
participou.
O stand, como outros nas imediações, anunciava produtos de artesanato. Ao tear, em vez da
imagem gasta e coitadinha dos negros trajos de uma septuagenária, ícone obsessivo e de eficácia duvidosa de
uma região já de si deprimida, estava a jovialidade e a beleza de uma ninfa que de negro apenas tinha os olhos e os
cabelos.
O cenário era exuberante. Viam-se nas paredes mantas e tapetes multicolores e, à volta da
artesã, alegres e curiosas crianças observavam atentamente a actividade. Paciente e pormenorizadamente, a jovem
explicava a misteriosa arte de entrelaçar fios e retalhos. As mãos grandes e seguras, ainda que delicadas, em
movimentos leves e ritmados, precisos, transformavam os novelos de fio e as tiras de tecido em telas geométricas que iriam
adornar chãos e paredes. Como as crianças, também os adultos se deixavam contagiar pela beleza do quadro. Que
melhor cartão de visita para uma região do que esta Penélope tecendo enquanto esperava pelo seu Ulisses
(pára-quedista algures nos mares de Timor)?
Nasceu no início dos anos oitenta, não em Ítaca, mas na aldeia de Reguengo, Vila Pouca
de Aguiar. Estudou até ao 12.º ano, na área de humanísticas, e tem um curso de computadores. É a mais
velha de seis irmãos.
A mãe, com quem aprendeu o ofício, utilizava o tear da vizinha sempre que urgia renovar os tapetes
da casa, até que, há cerca de 5 anos, o pai resolveu comprar um, antigo mas em bom estado. A Palmira afeiçoou-se
desde logo ao aparato. Foi aperfeiçoando a técnica e hoje é a mais hábil e criativa tecedeira que
conhecemos (a verdade é que não conhecemos muitas).
Não se dedica ao tear a tempo inteiro, porque é muito difícil conseguir mercado para os
produtos que faz. Por isso, tem um emprego na Vila. Ainda assim, com a chegada do Verão e o crescimento dos dias, retorna
ao labor de tecedeira.
Apesar de na aldeia haver mais três teares, pertencentes a senhoras idosas, a Palmira trouxe uma
renovação estética à arte de tecer. Não só por utilizar novos desenhos e formas.
Não podíamos ficar alheios.
Depois de décadas a mostrar Trás-os-Montes ao mundo como um postal a preto e branco, de eternas
viúvas deprimidas e pastores desalentados, em que o cinzento é muito mais do que o do granito, propomos uma
actualização da imagem promocional, onde, respeitando a tradição e preservando actividades, se mostra
uma região conhecedora do seu passado mas não presa a ele. É preciso que o mundo saiba que em
Trás-os-Montes não nascemos todos com sessenta anos. Por exemplo, a Joana, filha da Palmira, é uma linda
menina com apenas quinze meses.