edição n.º 16 vai para a página do index da edição
 
profissões
TEXTO: carlos chaves e paulo araújo
FOTOGRAFIAS: paulo araújo


Fotografia de Paulo Araújo

Fotografia de Paulo Araújo

Fotografia de Paulo Araújo

Fotografia de Paulo Araújo


As malhas
que ela tece


Conhecemos a Palmira na última "Mostra das Terras de Aguiar", que de resto foi a primeira em que participou.

O stand, como outros nas imediações, anunciava produtos de artesanato. Ao tear, em vez da imagem gasta e coitadinha dos negros trajos de uma septuagenária, ícone obsessivo e de eficácia duvidosa de uma região já de si deprimida, estava a jovialidade e a beleza de uma ninfa que de negro apenas tinha os olhos e os cabelos.

O cenário era exuberante. Viam-se nas paredes mantas e tapetes multicolores e, à volta da artesã, alegres e curiosas crianças observavam atentamente a actividade. Paciente e pormenorizadamente, a jovem explicava a misteriosa arte de entrelaçar fios e retalhos. As mãos grandes e seguras, ainda que delicadas, em movimentos leves e ritmados, precisos, transformavam os novelos de fio e as tiras de tecido em telas geométricas que iriam adornar chãos e paredes. Como as crianças, também os adultos se deixavam contagiar pela beleza do quadro. Que melhor cartão de visita para uma região do que esta Penélope tecendo enquanto esperava pelo seu Ulisses (pára-quedista algures nos mares de Timor)?


Nasceu no início dos anos oitenta, não em Ítaca, mas na aldeia de Reguengo, Vila Pouca de Aguiar. Estudou até ao 12.º ano, na área de humanísticas, e tem um curso de computadores. É a mais velha de seis irmãos.

A mãe, com quem aprendeu o ofício, utilizava o tear da vizinha sempre que urgia renovar os tapetes da casa, até que, há cerca de 5 anos, o pai resolveu comprar um, antigo mas em bom estado. A Palmira afeiçoou-se desde logo ao aparato. Foi aperfeiçoando a técnica e hoje é a mais hábil e criativa tecedeira que conhecemos (a verdade é que não conhecemos muitas).

Não se dedica ao tear a tempo inteiro, porque é muito difícil conseguir mercado para os produtos que faz. Por isso, tem um emprego na Vila. Ainda assim, com a chegada do Verão e o crescimento dos dias, retorna ao labor de tecedeira.

Apesar de na aldeia haver mais três teares, pertencentes a senhoras idosas, a Palmira trouxe uma renovação estética à arte de tecer. Não só por utilizar novos desenhos e formas. Não podíamos ficar alheios.


Depois de décadas a mostrar Trás-os-Montes ao mundo como um postal a preto e branco, de eternas viúvas deprimidas e pastores desalentados, em que o cinzento é muito mais do que o do granito, propomos uma actualização da imagem promocional, onde, respeitando a tradição e preservando actividades, se mostra uma região conhecedora do seu passado mas não presa a ele. É preciso que o mundo saiba que em Trás-os-Montes não nascemos todos com sessenta anos. Por exemplo, a Joana, filha da Palmira, é uma linda menina com apenas quinze meses.

 


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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