edição n.º 16 vai para a página do index da edição
 
proesia [2]
TEXTO: vítor nogueira
ILUSTRAÇÃO: francisco lameirão


ilustração de francisco lameirão
poemas a tira-linhas
Suponhamos


Suponhamos que há um segredo maior na minha vida. Suponhamos que decido revelar-te o segredo maior da minha vida. Suponhamos que fazes parte do segredo maior da minha vida, sem que o possas, à partida, imaginar. Suponhamos que me ouves, corajosa, sem pestanejar tão-pouco. Suponhamos que eu prossigo, corajoso, sem pestanejar tão-pouco. Suponhamos que nem músculos à volta das pestanas. Suponhamos que no fim o silêncio predomina, como só ele predomina depois de grande temporal. Suponhamos que o silêncio é o tempo que passa e amordaça, ao mesmo tempo. Suponhamos que engolimos em seco. Suponhamos que nem em seco conseguimos engolir. Suponhamos um mosquito que me pousa enfim na cara, incapaz de o repelir. Suponhamos que nem eu, nem tu, nem nós, sequer um movimento. Suponhamos o impávido terror de quando tudo está perdido. Suponhamos o sentido arrebatado pela falta de sentido. Suponhamos que nem mesmo a falta de sentido. Suponhamos nossos olhos evitando nossos olhos. Suponhamos nossos olhos nem sequer evitando nossos olhos. Suponhamos que nem lágrimas, nem lembrança de sorrisos. Suponhamos o tique-taque do relógio e nada mais de auditivo que supor. Suponhamos que sou tique e tu és taque, ou ao contrário, tanto faz. Suponhamos que nem sequer tanto nos faz. Suponhamos que afinal me dou conta que respiro. Suponhamos que afinal me decido pelo tique. Suponhamos um mosquito que me pousa enfim na cara e o consigo repelir. Suponhamos que afinal nem tudo está perdido. Suponhamos que regressa a lembrança de sorrisos através duma lágrima consentida e com sentido. Suponhamos que de novo engulo em seco e logo após engulo a lágrima, e quase esboças um sorriso. Suponhamos que abres o sorriso e me revejo em teus lábios. Suponhamos que rompemos o silêncio, como só nós o conseguimos depois de grande calmaria. Suponhamos que entre nós não há segredos. Suponhamos que me abraças. Suponhamos.

Os poemas a tira-linhas são servidos em dose dupla. Leia também O astronauta das abelhas.


v.nogueira@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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