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poemas a tira-linhas
Suponhamos
Suponhamos que há um segredo maior na minha vida. Suponhamos que decido revelar-te o segredo maior da
minha vida. Suponhamos que fazes parte do segredo maior da minha vida, sem que o possas, à partida, imaginar. Suponhamos que
me ouves, corajosa, sem pestanejar tão-pouco. Suponhamos que eu prossigo, corajoso, sem pestanejar tão-pouco.
Suponhamos que nem músculos à volta das pestanas. Suponhamos que no fim o silêncio predomina, como só
ele predomina depois de grande temporal. Suponhamos que o silêncio é o tempo que passa e amordaça, ao mesmo
tempo. Suponhamos que engolimos em seco. Suponhamos que nem em seco conseguimos engolir. Suponhamos um mosquito que me pousa enfim
na cara, incapaz de o repelir. Suponhamos que nem eu, nem tu, nem nós, sequer um movimento. Suponhamos o impávido
terror de quando tudo está perdido. Suponhamos o sentido arrebatado pela falta de sentido. Suponhamos que nem mesmo a falta
de sentido. Suponhamos nossos olhos evitando nossos olhos. Suponhamos nossos olhos nem sequer evitando nossos olhos. Suponhamos
que nem lágrimas, nem lembrança de sorrisos. Suponhamos o tique-taque do relógio e nada mais de auditivo que
supor. Suponhamos que sou tique e tu és taque, ou ao contrário, tanto faz. Suponhamos que nem sequer tanto nos faz.
Suponhamos que afinal me dou conta que respiro. Suponhamos que afinal me decido pelo tique. Suponhamos um mosquito que me pousa
enfim na cara e o consigo repelir. Suponhamos que afinal nem tudo está perdido. Suponhamos que regressa a lembrança
de sorrisos através duma lágrima consentida e com sentido. Suponhamos que de novo engulo em seco e logo após
engulo a lágrima, e quase esboças um sorriso. Suponhamos que abres o sorriso e me revejo em teus lábios.
Suponhamos que rompemos o silêncio, como só nós o conseguimos depois de grande calmaria. Suponhamos que entre
nós não há segredos. Suponhamos que me abraças. Suponhamos.
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