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poemas a tira-linhas
O astronautas das abelhas
No horizonte recortado o Sol afunda-se. Uma estranha silhueta de astronauta, que rapidamente percebo apicultor,
abre a cancela de um lugar, o das colmeias. É daquelas portas que no fundo nada fecham, apenas procuram afirmar um
território. Imagino que a mestria com que visita a cidade das abelhas lhe vem dos sucessivos anos de picadas. O amor,
seja lá isso o que for, tem o seu quê de masoquista. Apesar do crescente lusco-fusco, vê-se, como à
luz do meio-dia, o afecto que une o homem ao enxame. Com cara de vai-fraco-o-negócio, a mulher do astronauta das abelhas
vende um frasco de mel a uma camponesa que ali pára, julgo que de regresso a casa. Não fosse o rebanho um pouco ao
lado, por trás de outra cancela, daquelas que no fundo nada fecham, e o apicultor talvez passasse as vulgares passas do
Algarve. Enfim, umas coisas vão dando para as outras no quotidiano de quem tem de resistir. É no Algarve,
aliás, que tudo isto se passa. Esse Algarve arredado do mar, que também o há. Quero acreditar que este
pastor de abelhas e ovelhas é de facto um happy cultor. Entretanto já não se vê o Sol há
pelo menos meia hora. Mas a luz que ainda aí resta chega-me para prender os olhos na camponesa que se afasta, frasco de
mel na mão direita, pelo caminho que conduz à aldeia. Eis que se senta numa pedra inesperada, de olhar colocado no
crepúsculo, como se ele ainda lá estivesse. Não sei que lucidez anda na alma desta gente simples. Tudo isto
me encanta. E tudo isto me assusta, no momento em que compreendo o quanto não sou daqui. Ligo o motor de arranque, por via
das dúvidas, e rumo às luzes da cidade, que a esta hora já estarão decerto acesas. Para se perceber o
campo é preciso ter-se nascido no campo, ou pelo menos ter-se renascido nele. Ainda não foi hoje que o consegui.
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