O Lago
Hoje venho falar-te de uma devastação primitiva,
depois da qual deveriam regressar os nomes da beleza.
No meio da ruína digladiam-se espelhos,
e qualquer um deles reflecte a minha história.
Desdobro as ondas de um lago com destroços,
olho em declive o fundo que atravesso
e às vezes um peixe rápido
ensaia ao passar uma escrita que nunca será minha.
Hoje venho deixar-te uma narrativa inacabada.
Não sei registar os nomes da beleza,
nem posso dissolver as sílabas cantantes
na solidão das águas proibidas.
Do Granizo
A arremessar pedras finas se ocupam agora os deuses
e violentas.
Versos-dádiva, disseram, nascem de outra ocupação divina.
Depois, o degrau inspirado tropeça para dentro de galerias de água.
Ferido de punhais, o tejadilho sangra um plasma rumoroso.
Digo em voz alta um poema sem rima de um poeta vivo.
O aplauso involuntário acompanha-me até ao último verso,
onde colho a impressão de que também os deuses o ditaram.
Reconhecimento
Há um muro de ossos onde alguém escreveu
que a carne não tem licença de andar por perto.