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poema-manifesto
TEXTO: paulo araújo


Dedicatória


A toda essa cáfila de excêntricos,
de maníacos, de perniciosos;
A toda essa gente execrável,
cuja única habilidade mais não é
do que consumir a paciência da gente;
A toda essa espécie de doença, de herpes,
que se espalha por toda a parte,
por todo o nosso corpo,
e nos contamina até a própria Alma;
A todos os intelectuais de prosa pestilenta,
A todos os artistas em geral,
de maneira que não escape
um único exemplar.
Porque o que eu quero
É que se fundam todos em ácido sulfúrico.
Irra!
Que se me arrepia a espinha!

Ó músicos narcisistas e languinhentos
intérpretes em decomposição
ó filhos de pautas diminutas
fazei-me o obséquio de parar de tocar
de tanger essas guitarras gementes
porque me tirais da compostura
calai-me esses instrumentos
de uma vez por todas
que ainda me dá uma síncope
ó batutas rambanas
ó comparsas ternários
ó sinfonias rolantes
ó adoradores de Bach que bebeis em sua honra
aduladores de barba de três dias
moldadores de barro de Barcelos
ocarinas em forma de galo
jarros que enfeitais as montras
charros de bebedeiras monstras
ó fígaros da púcara
ó plágios de domingo
ó fantasmas tenores da ópera
ó solistas ó sulistas «ó sole mio»
ó bitolas de Beethoven
noctívagos de Chopin
monges chupistas de Béla Bartók
ó Béla Bar toca
toca a marcha do defunto
porque o que eu quero
é que essa cambada de melros
tocadores de sinfonietas
se extinga molto presto
nem mais um andamento
nem allegro nem pianissimo
para essa escuma de músicos
irra!
só ao pronunciar a palavra
dá-se-me um arrepio na espinha

ó romancistas parasitas da escrita
ó poetas piegas
ó sonetos medidos ao milímetro
«ó alma minha que não sossegas»
ó carneiros barrigudos e pessimistas
que passeais os vossos cornos intelectuais
pelas ruas de Paris
ulálá
e vós saramagos seres amargos
que paristes ensaios invisíveis
onde pusestes os pontos que não os vejo?

ó portugas apessoados que fingis
que fingis o que deveras fingis
ó portugas imbecis que fugis
da literatura como o diabo da cruz
ai Jesus ai Jesus
que se me arrepia a espinha

ó poetas fatalistas
ó boémios fadistas
ó guerreiros de junco
ó nações ó canhões
ó metralhadoras da língua
ó antiaéreas de quintal
ó camelos de perdição
ó triste odisseia dos canaviais
ó Espanca sem esperança
morra dantes ou depois
ó convencidos da vida
que pegais na pena
como se fosse a própria pila
ó alma de pedreiros

ó poetas mirolhos de rima luzidia
que produzistes camiões de versos
homéricos e pindéricos
e que cantarolastes o amor e o mar
como se o amor e o mar
precisassem de ser cantados
ó camélias alexandrinas
ó comédias divinas
ó inclassificáveis mestres clássicos
de fin-de-siècle
infames mascadores de chiclete
ardei nas chamas que vos chamam
vós e a vossa escrita janota
morrei
morrei nas profundezas do infernos
irra!
que se me arrepia a espinha

e vós artistas plásticos
almas alucinadas e excêntricas
hipérboles mirabolantes
ó que espirais entediantes
naturezas mortas pincéis de marta
pastéis de nada bordéis da nata
ó tresloucadas cabeças as vossas
que só me apetece chamar-vos
alienígenas terráqueos
batráquios de paleta
pelintras de cavalete

ó azuis do ultramar
ó vermelhões franceses
não me sujeis o chão de tinta
tanta tinta assassinada
estou-me nas tintas para todos
os vangogues pernetas das orelhas
impressionistas impostores
e vós surrealistas sobreruralistas
quem vos chamou? de onde vindes?
dali?
pois voltai para lá
voltai para a realidade
fica-vos tão bem a realidade

ó retratistas impertigados
ó trinchas rabugentas
ó cubistas de cabeça quadrada
ó clubistas do forrete
ó ratazanas bolorentas
que vos tendes como vanguardistas
mas não sois mais do que umas
míseras térmitas de museu
ainda por cima de arte sacra
arte sacra criaturas
irra!
que se me arrepia a espinha

agora vós gentalha do teatro
actores autores contra-regras
seres sem questão
personagens sem carácter
sem cafeína sem corantes
actores pseudofuturistas
detractores em todas as directrizes
malabaristas de Shakespeare
que já nada sois como dantes
nem trágicos nem comediantes
ó marionetes cambaliantes
camaleões comilões de vós próprios
insectos suicidas insecticidas
omeletes vicentinas
ó figurantes fedorentos
ó talentos parcos
tirai-me essas patas do palco
que não me deixais ver o cenário
ó tagarelas histéricos
ó figuras históricas
afónicas histriónicas
ó charlatões acrobáticos trajados
de metáforas de actores
de imitadores da vida
inventores da história
escola de escórias
impostores da memória
que buscais a glória
tarefa inglória
porque ninguém vos quer ouvir ou ver
teatro só se for o da guerra
esse sim que é teatro
mas vós actores e actrizes
vós artroses e varizes
fechai vossas bocas
baixai o pano
ponto parágrafo
que se me arrepia a espinha
irra!

e finalmente tu
abominável público
tu essa estranha forma de vida
a ralé pública
a mó anárquica
a turba
a grande manada
a cornadura humana
tu abdominável público
não penses que te absolves
porque tu não pensas
o público não pensa
existe
o público gosta é de Auchwitz
e não gosta de pintura nem de literatura
mas gosta da filha da vizinha e de ir à bola
e de ir à merda
o público gosta da coisa pública
o público gosta de pêlos púbicos
o público não é pudico
o rubicundo público
o rechonchudo público
boçal
serôdio
ronceiro
bronco
obtuso

irra!
só de pensar nessa massa movediça
dá-se-me um arrepio na espinha


pabloarau@periferica.org

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