A toda essa cáfila de excêntricos,
de maníacos, de perniciosos;
A toda essa gente execrável,
cuja única habilidade mais não é
do que consumir a paciência da gente;
A toda essa espécie de doença, de herpes,
que se espalha por toda a parte,
por todo o nosso corpo,
e nos contamina até a própria Alma;
A todos os intelectuais de prosa pestilenta,
A todos os artistas em geral,
de maneira que não escape
um único exemplar.
Porque o que eu quero
É que se fundam todos em ácido sulfúrico.
Irra!
Que se me arrepia a espinha!
Ó músicos narcisistas e languinhentos
intérpretes em decomposição
ó filhos de pautas diminutas
fazei-me o obséquio de parar de tocar
de tanger essas guitarras gementes
porque me tirais da compostura
calai-me esses instrumentos
de uma vez por todas
que ainda me dá uma síncope
ó batutas rambanas
ó comparsas ternários
ó sinfonias rolantes
ó adoradores de Bach que bebeis em sua honra
aduladores de barba de três dias
moldadores de barro de Barcelos
ocarinas em forma de galo
jarros que enfeitais as montras
charros de bebedeiras monstras
ó fígaros da púcara
ó plágios de domingo
ó fantasmas tenores da ópera
ó solistas ó sulistas «ó sole mio»
ó bitolas de Beethoven
noctívagos de Chopin
monges chupistas de Béla Bartók
ó Béla Bar toca
toca a marcha do defunto
porque o que eu quero
é que essa cambada de melros
tocadores de sinfonietas
se extinga molto presto
nem mais um andamento
nem allegro nem pianissimo
para essa escuma de músicos
irra!
só ao pronunciar a palavra
dá-se-me um arrepio na espinha
ó romancistas parasitas da escrita
ó poetas piegas
ó sonetos medidos ao milímetro
«ó alma minha que não sossegas»
ó carneiros barrigudos e pessimistas
que passeais os vossos cornos intelectuais
pelas ruas de Paris
ulálá
e vós saramagos seres amargos
que paristes ensaios invisíveis
onde pusestes os pontos que não os vejo?
ó portugas apessoados que fingis
que fingis o que deveras fingis
ó portugas imbecis que fugis
da literatura como o diabo da cruz
ai Jesus ai Jesus
que se me arrepia a espinha
ó poetas fatalistas
ó boémios fadistas
ó guerreiros de junco
ó nações ó canhões
ó metralhadoras da língua
ó antiaéreas de quintal
ó camelos de perdição
ó triste odisseia dos canaviais
ó Espanca sem esperança
morra dantes ou depois
ó convencidos da vida
que pegais na pena
como se fosse a própria pila
ó alma de pedreiros
ó poetas mirolhos de rima luzidia
que produzistes camiões de versos
homéricos e pindéricos
e que cantarolastes o amor e o mar
como se o amor e o mar
precisassem de ser cantados
ó camélias alexandrinas
ó comédias divinas
ó inclassificáveis mestres clássicos
de fin-de-siècle
infames mascadores de chiclete
ardei nas chamas que vos chamam
vós e a vossa escrita janota
morrei
morrei nas profundezas do infernos
irra!
que se me arrepia a espinha