edição n.º 16 |
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perfil
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REPORTAGEM: luís c. teixeira, rui a. araújo e
c. chaves
FOTOGRAFIAS: arquivo do teatro em movimento |
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Leandro em Movimento
A escolha era entre a reportagem sobre o Teatro em Movimento e o perfil de Leandro Vale, o fundador da
companhia. À chegada a Bragança, nas vidraças do café Xavier, recortava-se uma figura volumosa. Se
não houvesse fantasmas nas artes da representação, a ideia de um Orson Welles versão nordestina seria
facilmente rebatida. Era cedo para qualquer comparação de estilos, talentos ou personalidades, mas a welliana
volumetria impunha-se. Naquela vidraça o perfil insinuava-se. A excentricidade pressentia-se. A abundância de cabelo
compensava a falta de barba. O ego viria depois.
O volumoso e excêntrico Leandro Vale é o mais brigantino dos beirões. No trajar e no estar,
transpira a marginalidade dos artistas, passe o cliché. Ainda que seja originário de Oliveira do Hospital e que os
destinos do seu percurso de vida tenham a imponderabilidade de sinuosas veredas, o grande actor, encenador e dramaturgo
não hesita em contestar a existência de alheiras em Mirandela, ele que conhece bem as de Bragança. De resto,
Bragança deve-lhe uma avença pela defesa aguerrida que faz da cidade e arredores, dos cidadãos e dos produtos.
Algum exagero na atribuição de virtudes à região nordestina poderia parecer uma atitude quixotesca se
não soubéssemos que as utopias nele são de outra índole. Por isso, por conhecermos as suas utopias,
temos que nos ficar pelo bairrismo. Leandro, o beirão, o trotamundos, o «cidadão do mundo», é um bairrista.
«A melhor posta à Mirandesa é servida em Bragança!», diz...
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Sentámo-nos à mesa do Abel, em Gimonde, para a "posta", já com a certeza de que
não iríamos publicar o retrato da Companhia, mas o esboço de "um homem e companhia".
Leandro Vale é um comunista dos sete costados. Empedernido na "crença" como já poucos o
são, indefectível. Despir o seu perfil pessoal dessa vertente ideológica é um erro tão crasso
como provavelmente o será pensar a Companhia sem esse perfil que a dirige à luz de cânones «menos politicamente
correctos», como ele frisa. Mas disso fala-se mais adiante.
Iniciado aos quinze anos no CITAC, Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra,
que fundou, Leandro Vale ingressou, mais tarde, no Conservatório Nacional de Teatro, em Lisboa. Ali, em Lisboa, andou por
várias companhias; Teatro D’Arte, Gerifalto e Vasco Morgado. «Em 1961», reza a sua biografia,
«radicou-se no Porto, permanecendo ao longo de várias épocas no Teatro Experimental do Porto — de que chegou
a ser director artístico —, distribuindo a sua actividade como encenador por mais de vinte grupos de teatro da
região, onde formou duas companhias: o Teatro Popular do Porto, em sociedade com Vasco Morgado, e o Teatro
Infantil do Porto».
Pelos jornais, pelas rádios, pela televisão, pelo país andou Leandro Vale. E pelo "Reino
Maravilhoso", onde esteve na fundação do Teatro de Ensaio Transmontano. Há vinte anos dispôs-se
a fundar uma companhia de teatro em Bragança. Com o apoio da secretaria de estado da altura, com a companheira Helena Vidal
e com Inês Palma fez o Teatro em Movimento, Companhia de Teatro de Bragança.
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É o movimento o que caracteriza a companhia bragançana. Como diz Leandro, «movimento
é (também) sinónimo de itinerância». A denominação da companhia podia ser uma
precipitação, podia explicar-se pelos calores do pós vinte cinco de Abril, podia ter a ver com a
época da fundação e podia ter-se esgotado logo ali. Mas em "Leandro e Companhia" não se verificou o
arrefecimento que definiu as gerações seguintes. A itinerância não é um slogan, é uma
prática, uma forma de estar. Ainda. Outras companhias se assumem como itinerantes (por cá temos também a
Filandorra), mas Leandro explica as diferenças: «nós vamos às aldeias!»
De resto, segundo Leandro Vale, outros aspectos separam o Teatro em Movimento da maioria das
congéneres nacionais: a independência, ou, pelo menos, a necessidade de afirmar que o teatro pode ser independente.
Utopia ou resistência aos últimos suspiros de uma ideologia socialista?
Leandro, e, através dele, a Companhia, recusam as teorias estéticas que banalizam o teatro
apresentando-o como uma manifestação algo estéril ou que reduzem a sua função ao prazer
imediato. «O teatro não se define através da arte pela arte. Quando o seu objectivo é o lazer deixa
de ser teatro!» Para Leandro Vale, o teatro é, ainda e sempre, uma forma de intervenção. De
contestação. «Feito em prol da sociedade!» A itinerância, que desde o início definiu a Companhia,
pretende confirmar isso mesmo. Confrontado com a potencial promiscuidade entre a ideologia do fundador e a companhia, o grande
Vale explica: «Somos um conjunto de pessoas de diferentes posições ideológicas e que até entram em
discordância». Resolvem as coisas democraticamente, diz. Procura, deste modo, revelar uma atitude onde o colectivo vence o
individual.
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Por esta altura da conversa já tínhamos saído de Gimonde com destino ao Bem Falado,
uma boa tasca situada em frente ao novo e vasto cemitério de Bragança. Entre o futebol da clientela e o teatro que
ali nos levava (já para não falar dos copos), imiscuiu-se a política governativa, essa grande madrasta das
artes. Gerado com o alto patrocínio do Estado, o Teatro em Movimento viu-se há treze anos arredado do bolo
do IPAE, a grande panela das artes do espectáculo. Não desistiu da actividade — e é aqui que o bairrismo de
Leandro se distingue dalguma pusilanimidade em que a região é fértil —, manteve a itinerância, procurou
outros apoios, de instituições e empresas locais nacionais, e nos últimos anos, de "saco cheio", resolveu
processar o ministério. Leandro e Companhia entenderam que as fundamentações para a não
atribuição do subsídio não o eram. Fundamentadas. O parecer do IPAE dizia, sem que o Teatro em
Movimento percebesse como chegaram a tais conclusões, que a companhia não tinha qualidade e não criava
novos públicos. Em duas épocas dois processos. A verdade é que o tribunal lhes deu razão. Na terceira
época, eles que não se vendem, fizeram uma "pausa" na ofensiva. Carrilho, na era pré-Bárbara, tinha
passado o cheque. Dez mil contos. Leandro insiste na diferença: «Fizemos uma pausa, não abdicamos das críticas
e da luta, e isso é público».
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Leandro Vale tem sessenta e um anos de vida, mas os tons da volumosa cabeleira e o rosto bonacheirão
não o traem. Está ligado ao teatro há mais de quarenta anos. Isso já lhe deu, entre outras coisas,
para escrever noventa e duas peças. As outras coisas são os artigos em jornais (não há jornal no
distrito que não o tenha em algum tempo mencionado na ficha técnica), as intervenções na rádio
(actualmente na RBA), os papéis em televisão ou cinema (Mau Tempo no Canal, Fronteira Ocidental,
A Sombra dos Abutres, são exemplos), as aulas (na Escola Profissional de Carrazeda de Ansiães), a
intervenção política (vai, de novo, candidatar-se à câmara de Vimioso) e as experiências
literárias.
A sua escrita literária vive do mesmo ar que Leandro respira: o comunismo. Em "Cuba, Uma Ilha de Paz"
(Ed. Erasmos, Almada, 1995), crónica duma viagem a Cuba, procura encontrar a verdade entre o miserabilismo de que o
Ocidente dá notícia e alguma riqueza que ostentam os hotéis para turistas. Sem surpresas, depois de termos
ouvido da sua boca a infelicidade que foi a queda do muro de Berlim, encontramos coerência na nota do autor: «Nunca, desde
o início da revolução, o slogan "Pátria ou Morte! Venceremos" teve tanta consistência como a
que encontramos neste momento»... Noutras incursões, sob a forma de romance, por exemplo, dá-nos conta de factos
vividos no Porto entre 68 e 70, uma «homenagem a todos os que [como ele] lutaram na clandestinidade da grande noite fascista»
("Até podermos Estar Juntos", Ed. Cadernos do Caos, Porto, 1998.
Actor, encenador, animador, político, autor de peças de teatro (que a companhia representa),
jornalista (andou pelo República e pela RTP), cronista e sabe-se lá que mais, remata a extravagância
que cultiva com um inevitável cachimbo, que fuma desde o 16 anos. Enquanto o acende, solta as farpas, também elas
inevitáveis no meio teatral, sobre o ministério, sobre os colegas, de agora e de antanho (as dívidas de
Filipe La Féria e de Paulo Branco), sobre a Filandorra e a sua suposta partidarização, sobre a
política e os políticos (Pina Moura nunca o enganou), sobre o momento político-cultural. «Há
três espécies de grupos de teatro neste momento: os que estão com o ministro, os que estão com o IPAE
e os poucos que, como nós, não estão com ninguém». Defende que a política de subsídios
devia acabar. Entre outras propostas que vai apresentar ao ministério, sugere a substituição dos
subsídios por contratos-programa.
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Saímos do Bem Falado com destino ao caótico escritório do maciço
Leandro. Enquanto assegurava que éramos cinco os passageiros do carro (Leandro vale por dois, garante), nós,
que éramos três, fomos sabendo da sua paixão pelos Açores. Entre extremos semelhantes é como
se define: a extrema interioridade e a extrema insularidade. Ali, na região autónoma, como de resto em todo o
país (e na vizinha Espanha), o Teatro em Movimento dá o ar da sua graça. A companhia, não
raro, muda-se de armas e bagagens para as ilhas. Brevemente, Leandro Vale vai participar na adaptação para o cinema
da obra do açoriano João de Melo "Gente Feliz com Lágrimas".
O Teatro em Movimento ensaia todos os dias. Tudo para diferentes públicos. Putos, adolescentes,
estudantes do "superior", classes médias e intelectuais – «autores que ninguém teve coragem de apresentar como,
por exemplo, Paer Lagkervist». Entre outros. Autores antigos e modernos. Muitos. Os modernos também devem ser levados
às aldeias, desde que «não se agrida a identidade das pessoas». Nesta perspectiva, defende também o teatro
tradicional, feito na terrinha, pensado na sua específica concepção estética e técnica.
E não se deve esquecer a dimensão sociológica: «No final dos espectáculos fico a conversar com o
público» diz. E acrescenta: «O verdadeiro animador sócio-cultural não se retira quando o espectáculo
termina». Com alguma desilusão, afirma que em Portugal o teatro da descentralização está pr'a
acabar. E não só pela questão dos subsídios...
A noite ia longa. Não sabemos se a espessura de Leandro nos permitiu ver todo o movimento da
Companhia de Teatro de Bragança. Que nos perdoem os restantes membros, a Helena Vidal, a Glória de Sousa,
o Fábio Timor, o Vítor Pimenta, e todos os outros, se assim não aconteceu...
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EITO FORA: transmontano sem preconceitos
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