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história & literatura
TEXTO: luís c. teixeira


A tertúlia do Hotel Universal
Falar de cor de Rosa
Da tertúlia do Hotel Universal ao Dantas de A Severa


Que procuravam os academistas alfacinhas na estância termal de Pedras Salgadas nos férteis anos 20? Uma fuga ao discurso oficialmente correcto? Uma infidelidade inebriante?! Ou uma suprema síntese da literatura soft?...

Porque presidia Marques Rosa a uma tertúlia designada "Serrote Table"? Para inglês ver ou para aplicar a efectiva arte de conversar anunciada pela psicanálise freudiana? E os resultados dessa tertúlia? Rascunhos ou ensaios críticos? Tretas ou romances cor-de-rosa a profetizar o emblemático Corín Tellado?
Dedicatória do livro 'Cantares'

E o Dantas? Se nasceu também Júlio, porque razão só lhe chamam Dantas? Em que circunstâncias morre esse tal Júlio? Com a pompa de um herói nacional! Como a fadista Severa (imortalizada no écran?)... Ou como o último "(Ceia) dos Cardeais", após uma gula literária de 48 edições até 1962! De que forma nasce o monstro Dantas na história da literatura portuguesa? Pela boca e raiva desenfreada de um Almada, fundador das visões futuristas? Pelo triste fado luso de justificar um passo para (um estádio novo) com a inépcia dos outros (o tal ultrapassado). Ou simplesmente, porque essa geração de tradicionalistas, que Dantas representava, merecia tal sentença?!

Que responda quem quiser!

Tertúlia cor-de-Rosa no Hotel Universal

Na abertura do Verão, Marques Rosa convencia a esposa Maria Emília a ficar no Gerês. A saúde dela agradecia! Ele também... Tal como as divinas Pedras Salgadas, regadas de águas milagrosas e cobertas de frondosas árvores (um cenário quase paradisíaco!). Igualmente os seus amigos rejubilavam. Escritores. Poetas. Ensaístas. Músicos. Tradutores. Outros!
Poema 'Cruel Castigo'

M. Rosa presidia à tertúlia na marquise traseira do Hotel Universal, local por excelência iluminante, mas fresco pela presença de um riacho bucólico. O Avelames de seu nome. Com um pesado medalhão, ostentando um porco reluzente, e um martelo da praxe (leia-se da ordem) eivado da sua condição de notário, o ilustre literário invoca os clássicos da pseudo-racionalidade greco-latina, os eruditos do prodigieux século XVIII e o inabalável Júlio Dantas. De cujus (independentemente da sua presença física, ou não, na altura de botar faladura).1 Apesar de tão vasto repertório, a "Serrote Table" encerrava-se sobre si própria, já que a figura do presidente (o termo era usado literalmente pelos mesmíssimos participantes) determinava verbomanias frequentes e que nada tinham a ver com o ambiente familiar pretendido.

Buscava-se a história palaciana (o culto ao herói sebastianista), a filologia clássica (única base da literatura moderna!?), o drama lusitano (irremediavelmente marcado pela frustração da epopeia marítima) e o romantismo desencantado (e fora de tempo). Exultava-se com J. Dantas! No mais puro academismo literário, muitas vezes ligado às instituições oficiais... Perante este tédio temático, não é difícil descobrir que o espaço destinado ao "serrote" (critica, mais ou menos selecta, no titubeante calão académico) seria provavelmente o mais interessante. A malícia (ainda que quase sempre superficial), o retrato psicológico (tão linear que não arrisca chegar à introspecção), o anti-clericalismo (quantas vezes camuflado — o próprio M. Rosa não ligava à religião, mas respeitava...) e os argumentos lançados contra os modernistas, mais ou menos serridentados (leia-se a propósito as anteriores criticas de J. Dantas ao primeiro número da revista Orpheu -1915-, com Almada Negreiros a ser um dos fundadores). Resta-nos os dois aspectos mais positivos da tertúlia: a leitura e comentário de poesia e as pequenas peças de teatro, escritas e representadas pelos próprios em cenários improvisados. Ambas associadas à música.
Marques Rosa

Entusiasta da odisseia romana (mormente o estudo das estradas), Marques Rosa (nado algures pela Nazaré e alternando Lisboa com Alvaiázere) evidenciava uma paixão pelas diferentes nuances do historicismo literário — D. Mécia e Princesa Joana (romances históricos do século XIII e XV respectivamente), bem como Livia, episódios da invasão romana na Lusitânia —, também pelo ensaio critico, com a obra O nosso voto, e pela poesia, com Minuete (monólogo em verso) e Sonetos (com direito a 2.ª edição em 1922). Entre muitas obras, é todavia no prefácio da novela histórica tripartida Três Mulheres, que o seu amigo Júlio Dantas o referencia com algumas considerações pormenorizadas. «Dentro dêsse homem singular vivem duas pessoas literárias diferentes. Ora nos surge o Marques Rosa provecto, investigador, beneditino (...); ora nos aparece o Marques Rosa apaixonado, moço, elêgante (...)». Para mais à frente concretizar «o primeiro entrega-se ao estudo da história, é filólogo e etnógrafo nas horas vagas, possue aquela cultura humanista que o século XVIII caracterisou pela palavra 'erudição'; o segundo, inquieto como um bezouro doirado, faz versos, idealisa, sonha, ama (...)».2 Ultrapassou mesmo nessa procura alguns academistas, pois as suas referências culturais não se limitavam à colossal Academia das Ciências de Lisboa. Frequentava a Torre do Tombo para saciar as constantes dúvidas surgidas na saga da história fantástica.

Inteligente e boémio. Malicioso e mulherengo. Enfim, bon vivant!, acrescentam os descendentes de M. Rosa. Que igualmente confirmam as amizades, o já referido Júlio Dantas e Júlio Brandão, a quem dedica a obra Sonetos ("A J. B., alto e primoroso espirito; poeta mesmo na prosa"). Vieira Pinto (violinista) e Virgínia Vitorino (intelectual que mais tarde se ligou ao teatro radiofónico da Emissora Nacional). Entre outros. Entre familiares veio a falecer, na viragem da década de 20 após penosa cegueira provocada pelos diabetes. Mas sempre a trabalhar com ajuda do filho e da leal esposa Maria Emília da Silveira e Castro. Rosa.
capa do livro 'Princesa Joana' RAIO X

Nome: Policarpo MARQUES ROSA
Nascimento: Nazaré — finais da década de 50 do Séc. XIX
Morte: Alvaiázere — finais da década de 20 do Séc. XX
Actividades profissionais: Notário (mas também exercia advocacia) e Escritor (bem à sua maneira)
Obras literárias:
  O Doutor Brilhante — estudo analítico, 1880
  O nosso voto — ensaio crítico, 1900
  Missão Difícillever-de-rideau em verso, 1904
  D. Mécia — romance histórico do Séc. XIII, 1914
  Dueto de Amorlever-de-rideau em verso
  Minuete — monólogo em verso
  Sonetos — 2.ª edição, 1922
  Três Mulheres — novelas históricas, 1922
  Redondilhas — versos
  Princesa Joana — Romance histórico do Séc. XV, 1927
  Lívia — episódios da invasão romana na Lusitânia, em 130 a. C.*

* Esta obra não chegou a ser publicada; outras esgotaram na altura e raramente se encontram nos alfarrabistas.

E Dantas?

Entre o snobismo de J. Dantas e a simplicidade de J. Brandão, Maria Emília, a esposa de Marques Rosa, preferia claramente o segundo Júlio! Uma questão de gosto, obviamente pessoal, ou o resultado de um conjunto de leituras, necessariamente diferentes? Porque razão a intelectualidade, primeiro através da critica implacável e depois pelos anais da história da literatura, ousou ofuscar Dantas? Mesmo que sem efeitos em A Severa, esse ícone oferecido ao povo num écran iluminado de sonhos... Exemplo paradigmático onde a obra supera o criador? Ou um resultado de um "assassinato" literário iniciado por Almada Negreiros? Se procurarmos um móbil para tal, rapidamente deparamos com um rol de motivos: a defesa do culto ao Herói e ao Amor, a exaltação do efémero e do cosmopolitismo, e o afastamento "dos problemas nacionais actuais".3 Crónicas frívolas e mundanas. Enfim, uma cultura académica e conformista!4

Mais do que abrir um fórum de discussão, neste momento interessa escalpelizar outros aspectos positivos na obra de Júlio Dantas. Antes de mais, a valorização do teatro, que ganha um novo fôlego, não tanto pelo êxito estrondoso obtido pel'A Ceia dos Cardeais, mas sobretudo por um teatro marcadamente naturalista que emerge da peça O Reposteiro Verde (1912); depois, o jogo dramático-emocional de algumas personagens que revela segurança e consistência; ainda, as bases técnicas e classicizantes da linguagem vocabular nascidas numa formação prévia; e, finalmente, alguma responsabilidade pela divulgação (foi traduzido em muitas línguas) da literatura portuguesa, especialmente na América do Sul.

Então o Dantas recomenda-se?! Se é escritor, leia-se, mais não seja pelos seus polémicos critérios literários!

Só existe o Dantas que Almada retratou? Se fosse modelo único não estaríamos aqui, numa dúvida literária, a rascunhar outras cores e outras correntes. Ainda que o cinzento possa predominar...

Se o Dantas existe então fale-se dele! Bem ou mal! Fale-se!


Notas:
1 Malogradas que foram as tentativas de confirmar, junto da Biblioteca Municipal Júlio Dantas com sede em Lagos, alguns dados de natureza biográfico-histórica relativa a esta personagem literária.
2 Excerto do original publicado em 1922.
3 SARAIVA, A. J., História da Literatura Portuguesa, Europa-América, 8.ª ed., Lisboa, 1965.
4 O autor desta crónica (?) confessara aos seus amigos alguns preconceitos de natureza académica. Não estranha pois, esta doentia (e paradoxalmente saudável) contradição entre a importância do academismo como pano de fundo e o gozo provocado por um trilho que se pretende original, diferente e muito próprio.


lcteixeira@aeiou.pt

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