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editorial
TEXTO: maria filomena


fotografia de Paulo Araújo
Paulo Araújo


L'air du temps


1 – Que não se fale do cancro, que é horrível, muito menos de sida, que nem queremos pensar nisso, vamos que nos contam entre os contagiados de amanhã. Nem de abortos, que os não há. Nem de seios amputados, que afecta os arquétipos de deusa-mãe e de Vénus.

2 – E os mortos da barbárie africana, às centenas, às dezenas de milhar. E os que sobrevivem, aterrorizados, doentes, famintos, usados pelos seus líderes como chantagem para reclamarem dinheiro dos países ricos, gasto depois em armas concebidas pelos mesmos países ricos. Lei do eterno retorno. Eterna loucura.

3 – E os imigrantes clandestinos a morrerem como tordos nos contentores de Dover, nas lanchas de Gibraltar, nas balsas dos mares cubanos, e depois a dormirem nos vãos das portas, nas passagens subterrâneas das cidades, novos ratos urbanos, enquanto não vão parar à prisão. Ou então nutrem as fileiras do trabalho ignorado, nova escravatura de que se vai falando, mas vai passando... e ficando. Submetem-se aos aguilhões do sol e do frio, à alta probabilidade de entrarem para as estatísticas — se as houvesse — dos que se vão esborrachando de um 10º andar ou dos pilares de uma ponte.

4 – E os media que passam pela crosta destas chagas quando não há mais gritos, mais tinta, mais ouro, mais sangue, mais decote, mais qualquer coisa que dê um saborzinho a açúcar e a pimenta ao dia-a-dia dos zés-ninguéns e das simplesmente marias, a quem vão anestesiando para estes não sentirem que não sabem que a vida est ailleurs.

5 – E as mulheres violentadas, a maior parte, dentro de casa. E estas e as outras, que não dizem nada. Vergonha pode mais que raiva em quem foi domesticada no berço, na escola, pelos contos de fadas, pelas bonecas, pela televisão, pelas linhas e entrelinhas do mundo.

6 – E as mulheres que imigram para a prostituição, brasileiras e eslavas. E os clientes delas. Não faltam pais de família, senhores de negócios sérios, prontos a um dá-cá-toma-lá velho como a humanidade, diz-se. Abre os bolsos ele, abre as pernas ela, e só o abrir dela anda nas bocas do mundo.

7 – E os políticos, ainda meio atordoados pelo balanceio entre a fé na ciência, em que fica bem militar, e a vertigem das ondas da lógica mediática, que, no ápice de um flash noticioso, enfia no mesmo colar contas do pesadelo de Tchernobyl, da Síndroma dos Balcãs, da BSE. Então, pelo sim pelo não, proíbe-se o comércio dos transgénicos. Prevenção que nasce paralítica se não for acompanhada de vigilância do tráfico.

8 – E a variação dos mandamentos da Igreja consoante se trate de vacas magras ou gordas. Assim se grita pelas necessidades do corpo, no terceiro mundo. Assim se clama contra o corpo, no mundo da abundância, que em gozos arrotantes se nega à vida espiritual.

9 – E o cortejo quotidiano da Ignorância, que num despejo de bacante exibe os louros recebidos nos altares da televisão, na oratória de alguns jornais, na retórica pedagógica de certas escolas, na falácia científica de tantas universidades, no trono da Casa Branca. E as flores com que o povo rigorosamente fiel junca as avenidas do triunfo. Assim celebrada, abandonou, por desnecessário, o manejo das máscaras com que cobria o pudor.

10 – E a perversão das leis da culpabilização. «A culpa é das sanções», dizem os iraquianos, que neste coro vão louvando a tirania. Primeira lição de Maquiavel revisto por Sherlock Holmes: «Que não vos falte um embargo. Elementar, majestade.»

A culpa é dos outros, claro. Dos maus. Dos lobos. A culpa é "deles": os do governo, os dos partidos, os chefes, os da Europa, os americanos. Dos que têm que fazer alguma coisa pela gente. Perdoar-nos as dívidas, dar-nos um subsídio, um rendimento qualquer, no mínimo. Mesmo boa actriz, ninguém quer a culpa. E então remaquilha-se. Em tempos de antigos regimes é o rosto dos ferozes Anticristos, as garras dos infernos deste e do outro mundo. Em tempos de liberdade é a economia de mercado, com as suas impiedades — que não esconde —, a produtividade, a avaliação tornada pública, a competitividade. Que pena não haver desses lobos com orelhas bem peludas, e boca bastante grande para abocanhar as culpas, as irresponsabilidades, as incompetências, a inércia.

E se nem sequer houvesse lobo? Talvez o Capuchinho Vermelho se perdesse na floresta. Pior será se vierem aí os lobos pós-neoliberais: gigantescos, famélicos... e invisíveis. O Capuchinho Vermelho vai ficar muito assustado com a confusão. Pode ser que se veja, de uma vez por todas, ao espelho de Alice.

 


filomena@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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