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Estas anacrónicas são servidas em dose dupla: leia
também a do Manuel Guimarães.
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As Vacas
Desamadas. Maltratadas. Incompreendidas. Instrumentos de dislates. «É uma vaca» tanto serve para exprimir
a raiva em relação a uma mulher sem escrúpulos, como para referir o seu lado libidinoso, estranha
associação. Em versão mais apaixonada diz-se «C'a ganda vaca!» (baca, em versão nortenha extensiva a
todos os exemplos, já fica esclarecido). Quando a sorte bate à porta também sói dizer-se «Tive uma vaca!...»
(há quem acrescente, do caraças).
Ora as vacas não merecem tanto despautério. Na minha aldeia, escondida num vale, protegida pela
serra d'Arga, cada casa possuía, nos remotos tempos da minha infância, no mínimo, uma vaca. Uma era pouco, era´
sinal de pobreza. Duas era razoável, mais de três sinal de abastança. Nunca chegavam à meia dúzia;
quatro, cinco, o máximo. As vacas viviam por debaixo das casas, nas cortes, lugar que só mais tarde soube serem da
fidalguia. O quarto da minha tia solteira, gorda, com a pele fina das mulheres do campo, o quarto dessa minha tia tinha um buraco
no soalho, disfarçado por um tapete de trapos que, afastado do seu lugar e da sua função, permitia espreitar
a corte onde estavam as vacas, vizinhas do andar de baixo. Só se via o escuro. Mas vinha o cheiro. Inesquecível. E
podia-se imaginar a vaca. Dormindo. O seu enorme corpo em repouso. As vacas caladas. Sonhando.
Durante o dia as vacas eram cangadas ao carro e lá iam todos, carro, vacas, tia, a doce Argentina, para as
leiras carregar o milho em Agosto, os cestos da vindima em Setembro, o mato no Inverno. Nos outros meses ligavam-se ao arado e
percorriam as leiras para lá e para cá, rasgando sulcos, daí vieram os versos, quem havia de dizer.
Também tinham momentos de lazer eram mandadas para o monte. Ide e alimentai-vos. Ordem bíblica. E elas iam e
voltavam à tardinha, os chocalhos pendurados ao pescoço anunciavam o regresso, o crepúsculo chegava com elas,
o padre lembrava-se e tocava o sino para as avés-marias, não seria bem deus com os anjos, mas era deus com as vacas
com certeza. A vida das vacas não era fácil, não só pelo trabalho a que eram sujeitas, mas também
porque não havia bois na aldeia. Os machos eram vendidos pouco tempo depois de terem visto a luz do dia. Só restavam
as fêmeas, por causa do leite, penso, que lhes era retirado ao fim do dia pelas mãos hábeis das mulheres que se
agachavam e puxavam as tetas até as esvaziarem. Quando as vacas davam sinais de desejarem um macho, o que era facilmente
percebido pelo nervosismo que as possuía, então eram levadas ao boi. O boi vivia na aldeia seguinte. Onde vais,
Maria? Vou levar a vaca ao boi. Era um mistério, o que se passava nessa corte. No regresso, a vaca vinha mais calma,
sonolenta até. E depois começava a engordar, a ficar redonda, cada vez mais redonda. E mais não sei. Um dia
aparecia um bezerrinho, com o pêlo todo lambido e as pernas trôpegas.
Gosto de vacas. Galegas, piscas e turinas que são as espécies que conheci. As piscas são mais
fidalgas, as turinas têm um ar um pouco estrangeiro, holandês, imaginava eu, as galegas, as mais bonitas. Mas todas
têm uns olhos grandes, escuros, tristes. De uma doçura sem fim. Gosto do seu passo lento, da postura humilde,
até da barbela que descai por debaixo do focinho, macia e dúctil. Gosto de passar a mão pelo seu dorso,
devagar. E chamar Bonita como quem chama por um igual. Gosto de as ver a comer erva, metódicas e vagarosas ao longo da
leira e depois de fartas, sentadas a olhar o céu. Gosto de as ouvir quando regressam a casa, à noitinha, guiadas
pela certeza de que têm uma casa à espera. Quando uma vaca se perde, vai-se para o monte e chama-se, procura-se
até ser encontrada. Nem que se perca a noite. Como se faltasse alguém da família.
As vacas ficaram-me num canto da memória, misturadas com leiras, milho, lenha, verão.
Sentadas olham o céu em paisagens de mansidão.
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