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anacrónica [1]
TEXTO: manuel guimarães
ILUSTRAÇÃO: francisco lameirão


ilustração de Francisco Lameirão

Estas anacrónicas são servidas em dose dupla: leia também a da Luísa Costa.


As Vacas


a mimosa, a amarela, a preta, sim, a preta, a tal que afocinhava na corte, enquanto o meu amigo tentava descansar no seu quarto ao contrário, com a corte por cima e a bosta estrutural na parede a escorrer pelas tábuas do soalho, a vaca preta alucinante, abundante em alta tonelagem, grandes cascos, ruidosamente prostituídos, esta vaca pariu uma cabra, se bem se lembram, depois de se ter acoitado com um bode. aberrações, mas no prado não é nada disto, os bois fazem os ninhos nos beirais dos telhados, e a primavera segue o seu curso florido, enquanto a mimosa e a amarela comem malmequeres.

havia o aido da vaca, com uma porta azul de chapa ondulada, como era ainda miúdo, a vaca parecia enorme, e tinha medo dela. por isso me refugiava no telhado, a pensar como seria a vida da vaca no meio do milho, a ver se não estragava as moreias, que era onde a gente brincava.

ainda as há, pelo menos nas aldeias de Barroso, em Pitões, por exemplo, onde a bosta se acumula em camadas consistentes e férteis, cheias de metano, com tanta energia que dava para iluminar uma casa.

e foi assim que imaginou a grande defecança vacanal. biliões de vacas largando bosta consistente pelo planeta, e um fumador inveterado, quando acender o fósforo será o segundo big bang, bang bang, bum. e o cheiro será tal que nem em Júpiter tirarão a mão do nariz, mãos de Júpiter, como é lógico, que são daquelas perfeitas e grandes, próprias para apertar as tetas vacanais em êxtases apalermados, esta é a ditosa vaca, minha amada, assim falava o verso inconsequente.

e as espécies, a mirandesa, a barrosã, a turina. a turina encontra um touruno e fica na dúvida, será boi? vaca não é, com certeza, e o boi não muge assim.

baca, braço direito de baco, assistiu a várias transmutações durante séculos, e encontra-se vigilante, no seu reclinar bovino, baca é que sabe de luas, e nunca precisou de consultar um oráculo, nem nunca soube o que isso era.

assim se encontrava o meu amigo, rodeado de bosta por todos os lados, menos por um, o chão. digam-lhe que ponha um chão novo. um chão novo é logo outra coisa, dá logo outro ar. e, se lhe sair a lotaria, sempre pode comprar uma vaca e pô-la no terceiro andar ao Campo Grande, e o esfola-vaca não lhe pega, que assim fica resguardada.

 


guimaraes@portugalmail.pt

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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