Passei a manhã à procura de uma autoridade portuguesa em Viena, que me pudesse salvar as
férias. Mas, como era Sábado, esbarrei com o nariz nas portas fechadas da Embaixada Portuguesa, da
Secção Consular, da União Comercial, da Representação permanente de Portugal em Viena, e de
um qualquer patrício que me ajudasse a entrar na Republica Checa. Também telefonei para a Embaixada Checa, mas
eles «não podiam fazer nada por mim... Sem passaporte eu não entraria no país...» — Obrigadinha. — A
embaixada austríaca em Lisboa foi muito prestável: mandar-me-iam um passaporte de Lisboa, se eu esperasse uns dias...
(tipo até eu já ter regressado a Portugal...) Não me posso queixar de falta de aviso. Mas não
é disso que me queixo.
Quando já não tinha a quem apelar, fui sentar-me na Catedral de St. Stephen. Se calhar, só
lá fui para descansar à sombra... Mas fui. Entrei e fiquei quietinha a ouvir a missa em Alemão, tentando
descobrir a correspondência com as missas portuguesas, e provavelmente, perdida das orações, no meu parco
Alemão.
Quando saí para o Sol brilhante vinha decidida a arriscar e tentar passar a fronteira com o meu B.I. Por
muito que eu pensasse, não conseguia deixar de achar o passaporte um livrinho ridículo, e a fronteira uma coisa
mesquinha.
As fronteiras deveriam servir para se dar as boas vindas aos viajantes e não para ser uma raivosa
marcação de território do homem, na lógica de qualquer ser irracional, que pretenda proteger-se da
partilha com um outro seu igual. Ingenuidade minha. Eu sei. Mas como já vivi o medo de atravessar uma linha de tanques
apontados à Áustria, para entrar na Hungria e cinco anos depois fiz o mesmo percurso e encontrei apenas os campos
de trigo a dourarem placidamente, julguei que a queda do Muro de Berlim e a dissolução da U. R. S. S. representassem
o despertar da liberdade e da fraternidade entre os Europeus. Ingenuidade, não. Isto já foi burrice. Os exemplos da
Bósnia, da Sérvia, das emergentes mafias dos países de leste, deveriam ter minado a minha confiança
no Homem. Porém, tudo foi desacreditado e esquecido enquanto eu olhava para os passaportes das minhas amigas. Que
livrinhos parvos. Que poder têm estes cadernitos de capa cor de vinho e elegantes letras douradas? Que são eles
mais do que um Bilhete de Identidade? De que maneira podem eles testemunhar a minha honra ou honestidade? Eu queria acreditar na
bondade, na generosidade das pessoas simples... E foi com aquelas dúvidas e a certeza de saber quem sou, que decidi
arriscar.
Nem os rogos, nem os choros com que persegui os guardas fronteiriços me ajudaram. Prometi que na
Segunda-feira seguinte iria à embaixada portuguesa em Praga arranjar um passaporte. Argumentei que era uma simples turista
numa viagem organizada e que não podia ficar para ali sozinha... Elogiei a beleza de Praga, que me motivara a viagem...
Enfim, fiz das tripas coração, mas foi tudo em vão. Nada demoveu o chefe da Guarda, que, depois de declarar
que eu não passaria, se fechou numa cabina de vidro, evitando o meu olhar molhado e as vozes pedinchosas dos guardas mais
novos.
Os jovens guardas, falantes do Inglês e do Alemão, tentaram acalmar-me e demover o velho. Mas este
só dizia que se fossem eles a chegar assim a Portugal, não os deixariam entrar, e que era para eu ver que com eles
não se brinca... Eu observava o prazer com que ele dizia isto e imaginava-o num outro cenário: via-lhe um capacete
com SS em vez do boné, imaginava-o a empurrar e a dar pancadas de espingarda a frágeis mulheres que arrastavam as
suas magrezas cadavéricas pela lama gelada de Theresin ou de Aushwitz... Então pensei: somos todos cães de
Pavlov. Cada um de nós desempenha o papel para que foi condicionado. E todos nós com muito rigor. Eu comportei-me
como a menina que sempre leva a sua por diante e que não sabe ouvir «não». Os guardas jovens desempenharam o papel
da nova geração checa, mais generosa, desabituada do medo das regras impostas à razão individual, e
envergonhada por terem um chefe tão bruto. O bruto, por seu lado, foi o mais genuíno, e seguiu a disciplina com que
sempre obedeceu cegamente (porque ver podia ser morrer). E se sempre cumpriu as ordens dos superiores, não seria agora que
o poderiam acusar de relaxamento com o seu dever.
Se calhar eu devia ter-lhe oferecido dinheiro para me deixar passar... Mas como é que isso se faz? Quanto
custaria a honra daquele velho guarda? E com que conversa se sugeriria tal negócio? Pois... isso eu não saberia
fazer... E ainda podia ser pior e receber uma resposta mais agressiva...
Foi assim que me encontrei com os sacos de viagem a esmagarem-me os ombros enquanto percorria os 200 metros
até à terra de ninguém entre a Áustria e a Republica Checa, vendo o autocarro espanhol a desaparecer
com as minhas amigas lacrimosas, pelo campo de girassóis.
Não passar a fronteira foi muito mau, mas eu sabia que corria esse risco. O que eu não podia
imaginar e que foi mais difícil, foi descobrir que ninguém me dava boleia. Os polacos tinham «o carro cheio»; os
checos «não podiam»; um casal italiano disse que com o carro da embaixada «era proibido» dar boleia... foram tantas
respostas negativas, mais ou menos arrogantes, que a minha desilusão começou a transformar-se em desespero. Nunca
pensei deparar-me com tanta frieza. Algumas pessoas pareciam felicitar-se pelo meu infortúnio e outras empinavam o nariz
como se de repente se sentissem muito importantes por me poderem recusar ajuda. Pensei em procurar uma solução que
não dependesse da boa vontade dos viajantes, mas além de girassóis, não se via mais nada. Nem um
autocarro ou paragem de um, nem um taxi, nem uma aldeia próxima, nem uma casa, ainda particular que fosse. Nada! Comecei
a imaginar que teria de dormir ao relento e que já não tinha idade para tal aventura. Então, neste meu
desespero, chegou a Eva, que me salvou dos 70 km de distância até Viena.
Eva é descendente de mãe checa e pai austríaco. Nunca tinha dado boleia na vida, e
fê-lo dividida entre o medo do que eu (pobre de mim...) lhe pudesse fazer e um sentimento de obrigação moral
para com o namorado romeno, que não entenderia tal falta de solidariedade. Para Eva, todos os povos à volta do
Mediterrâneo são iguais: são pessoas alegres, comunicativas, solidárias... será? Gostei da
descrição. Gostei muito que a Eva me contasse histórias do avô e que me deixasse mesmo à porta
do hotel que escolhi para passar o fim de semana. Gostei muito de ter comigo o cartão de crédito... Gostei de
reencontrar a minha amada Viena, que me acolheu como se eu lhe pertencesse.