edição n.º 15 vai para a página do index da edição
 
crónica de viagem
TEXTO: maria jacinto
FOTOGRAFIA: marc romanelli


fotografia de Marc Romanelli
«Por este andar ainda vou
perder o Herman SIC»

* Título de um álbum de Roger Waters, ex-Pink Floyd. Tem pouco a ver com o texto mas fica sempre bem.


The pros and cons of hitch-hiking *


"Fronteira: estrema que separa duas regiões
ou dois países confinantes; raia; limite."
(dic. Da Língua Portuguesa — Porto Editora)

Passei a manhã à procura de uma autoridade portuguesa em Viena, que me pudesse salvar as férias. Mas, como era Sábado, esbarrei com o nariz nas portas fechadas da Embaixada Portuguesa, da Secção Consular, da União Comercial, da Representação permanente de Portugal em Viena, e de um qualquer patrício que me ajudasse a entrar na Republica Checa. Também telefonei para a Embaixada Checa, mas eles «não podiam fazer nada por mim... Sem passaporte eu não entraria no país...» — Obrigadinha. — A embaixada austríaca em Lisboa foi muito prestável: mandar-me-iam um passaporte de Lisboa, se eu esperasse uns dias... (tipo até eu já ter regressado a Portugal...) Não me posso queixar de falta de aviso. Mas não é disso que me queixo.

Quando já não tinha a quem apelar, fui sentar-me na Catedral de St. Stephen. Se calhar, só lá fui para descansar à sombra... Mas fui. Entrei e fiquei quietinha a ouvir a missa em Alemão, tentando descobrir a correspondência com as missas portuguesas, e provavelmente, perdida das orações, no meu parco Alemão.

Quando saí para o Sol brilhante vinha decidida a arriscar e tentar passar a fronteira com o meu B.I. Por muito que eu pensasse, não conseguia deixar de achar o passaporte um livrinho ridículo, e a fronteira uma coisa mesquinha.

As fronteiras deveriam servir para se dar as boas vindas aos viajantes e não para ser uma raivosa marcação de território do homem, na lógica de qualquer ser irracional, que pretenda proteger-se da partilha com um outro seu igual. Ingenuidade minha. Eu sei. Mas como já vivi o medo de atravessar uma linha de tanques apontados à Áustria, para entrar na Hungria e cinco anos depois fiz o mesmo percurso e encontrei apenas os campos de trigo a dourarem placidamente, julguei que a queda do Muro de Berlim e a dissolução da U. R. S. S. representassem o despertar da liberdade e da fraternidade entre os Europeus. Ingenuidade, não. Isto já foi burrice. Os exemplos da Bósnia, da Sérvia, das emergentes mafias dos países de leste, deveriam ter minado a minha confiança no Homem. Porém, tudo foi desacreditado e esquecido enquanto eu olhava para os passaportes das minhas amigas. Que livrinhos parvos. Que poder têm estes cadernitos de capa cor de vinho e elegantes letras douradas? Que são eles mais do que um Bilhete de Identidade? De que maneira podem eles testemunhar a minha honra ou honestidade? Eu queria acreditar na bondade, na generosidade das pessoas simples... E foi com aquelas dúvidas e a certeza de saber quem sou, que decidi arriscar.

Nem os rogos, nem os choros com que persegui os guardas fronteiriços me ajudaram. Prometi que na Segunda-feira seguinte iria à embaixada portuguesa em Praga arranjar um passaporte. Argumentei que era uma simples turista numa viagem organizada e que não podia ficar para ali sozinha... Elogiei a beleza de Praga, que me motivara a viagem... Enfim, fiz das tripas coração, mas foi tudo em vão. Nada demoveu o chefe da Guarda, que, depois de declarar que eu não passaria, se fechou numa cabina de vidro, evitando o meu olhar molhado e as vozes pedinchosas dos guardas mais novos.

Os jovens guardas, falantes do Inglês e do Alemão, tentaram acalmar-me e demover o velho. Mas este só dizia que se fossem eles a chegar assim a Portugal, não os deixariam entrar, e que era para eu ver que com eles não se brinca... Eu observava o prazer com que ele dizia isto e imaginava-o num outro cenário: via-lhe um capacete com SS em vez do boné, imaginava-o a empurrar e a dar pancadas de espingarda a frágeis mulheres que arrastavam as suas magrezas cadavéricas pela lama gelada de Theresin ou de Aushwitz... Então pensei: somos todos cães de Pavlov. Cada um de nós desempenha o papel para que foi condicionado. E todos nós com muito rigor. Eu comportei-me como a menina que sempre leva a sua por diante e que não sabe ouvir «não». Os guardas jovens desempenharam o papel da nova geração checa, mais generosa, desabituada do medo das regras impostas à razão individual, e envergonhada por terem um chefe tão bruto. O bruto, por seu lado, foi o mais genuíno, e seguiu a disciplina com que sempre obedeceu cegamente (porque ver podia ser morrer). E se sempre cumpriu as ordens dos superiores, não seria agora que o poderiam acusar de relaxamento com o seu dever.

Se calhar eu devia ter-lhe oferecido dinheiro para me deixar passar... Mas como é que isso se faz? Quanto custaria a honra daquele velho guarda? E com que conversa se sugeriria tal negócio? Pois... isso eu não saberia fazer... E ainda podia ser pior e receber uma resposta mais agressiva...

Foi assim que me encontrei com os sacos de viagem a esmagarem-me os ombros enquanto percorria os 200 metros até à terra de ninguém entre a Áustria e a Republica Checa, vendo o autocarro espanhol a desaparecer com as minhas amigas lacrimosas, pelo campo de girassóis.

Não passar a fronteira foi muito mau, mas eu sabia que corria esse risco. O que eu não podia imaginar e que foi mais difícil, foi descobrir que ninguém me dava boleia. Os polacos tinham «o carro cheio»; os checos «não podiam»; um casal italiano disse que com o carro da embaixada «era proibido» dar boleia... foram tantas respostas negativas, mais ou menos arrogantes, que a minha desilusão começou a transformar-se em desespero. Nunca pensei deparar-me com tanta frieza. Algumas pessoas pareciam felicitar-se pelo meu infortúnio e outras empinavam o nariz como se de repente se sentissem muito importantes por me poderem recusar ajuda. Pensei em procurar uma solução que não dependesse da boa vontade dos viajantes, mas além de girassóis, não se via mais nada. Nem um autocarro ou paragem de um, nem um taxi, nem uma aldeia próxima, nem uma casa, ainda particular que fosse. Nada! Comecei a imaginar que teria de dormir ao relento e que já não tinha idade para tal aventura. Então, neste meu desespero, chegou a Eva, que me salvou dos 70 km de distância até Viena.

Eva é descendente de mãe checa e pai austríaco. Nunca tinha dado boleia na vida, e fê-lo dividida entre o medo do que eu (pobre de mim...) lhe pudesse fazer e um sentimento de obrigação moral para com o namorado romeno, que não entenderia tal falta de solidariedade. Para Eva, todos os povos à volta do Mediterrâneo são iguais: são pessoas alegres, comunicativas, solidárias... será? Gostei da descrição. Gostei muito que a Eva me contasse histórias do avô e que me deixasse mesmo à porta do hotel que escolhi para passar o fim de semana. Gostei muito de ter comigo o cartão de crédito... Gostei de reencontrar a minha amada Viena, que me acolheu como se eu lhe pertencesse.

 

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

vai para o topo da página vai para o texto seguinte vai para o texto anterior