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reportagem
TEXTOS: luís c. teixeira e rui a. araújo
FOTOGRAFIAS: espólio da ARCPA


fotografia do espólio da ARCPA
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Pombal de Ansiães
A aldeia é tão bonita quando vamos de visita


«Pombal de Ansiães é uma freguesia do concelho de Carrazeda de Ansiães, distrito de Bragança. Está integrada na região de Trás-os-Montes e Alto Douro e com ela possui um conjunto de características comuns, a nível do relevo, clima, recursos naturais e actividades económicas, pelo que, falar da freguesia de Pombal, é falar, salvaguardadas as devidas proporções, de toda uma vasta área com bastantes semelhanças.»

Este texto, extraído do boletim comemorativo dos vinte e cinco anos da ARCPA (Associação Recreativa e Cultural de Pombal de Ansiães), é a introdução que basta para o exercício que a seguir se faz. Luís C. Teixeira e Rui A. Araújo foram a Pombal depois da ressaca do mediático "Farpa", o festival de artes que ali se realiza, descobrir se «falar da freguesia de Pombal, é falar (...) de toda uma vasta área com bastantes semelhanças». Descubra o leitor o que eles viram e tire as suas conclusões.



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«Ó querida, e se encomendássemos ao padre Fontes uma desgarrada para a missa do nosso casamento?»

1. A aldeia possível

Toda a aldeia tem a sua romaria. Pombal de Ansiães tem duas. Uma é a que a prende ao território, lhe concede sentimento de pertença, como todas as tradições. Existe como existem as igrejas e as pedras da calçada. Estão lá porque sempre estiveram. A outra romaria também se consubstancia em arraial, mas marca-a uma indelével sombra de vanguarda.

Pombal de Ansiães é a aldeia possível: exequível e imaginável. Como todas as aldeias tem as suas casas antigas degradadas, as vivendas do novo-riquismo migrante, as suas práticas agrícolas ancestrais, os seus hábitos e rotinas resultantes da interioridade, a sua população com aspirações pragmáticas. A aldeia possível. Mas perpassa na sua história um toque de originalidade que faz dela a aldeia imaginável.

Desde o princípio do século, lado a lado com as tradições e vivências indiferenciadas duma comum aldeia transmontana, ali convive o imaginário do teatro. A população, atreita às suas tarefas e convivências da mais banal existência rural, habituou-se a compatibilizá-las com a intenção criativa (ou com a intenção recriativa, o teatro) e de tão longa data vêm as performances artísticas que ganharam o direito de disputar as honras de romaria com o patrono da terra. O "Farpa", Festival de Artes de Pombal de Ansiães, é o culminar de anos de intenção artística, e, verdadeiro arraial da cultura, faz desesperar o patrono, S. Lourenço, que tem que aguardar treze longos dias (e noites) até que lhe seja erigida a festa a que tem ancestral direito.

Tudo começaria nos anos vinte quando a juventude da aldeia criava o "Clube Ancianista" e iniciava a representação teatral sob a batuta disciplinadora do oficial do exército António Areias. De lá para cá as instituições sucederam-se, mas o fio do teatro manteve-se e renovou-se. Como o ciclo da vinha, coisa em que terra também é fértil. Tal como outros ajuntamentos vulgares, o teatro fazia-se ao ar livre ou em quinteiros e ocupava a quase totalidade da população. No "palco" ou na "plateia" ninguém ficava indiferente. Hoje diz-se na aldeia que mais de noventa por cento da população já pisou o palco, o que por si só faria toda uma estatística da diferença.

No verão quente de 1975, António Garcia e Carlos Fernandes, que já tinham liderado a juventude local em representações várias nos anos antecedentes, fundam a ARCPA, a associação recreativa e cultural da terra.

De um rol de actividades (desportos, folclore, música, artes plásticas, feira de vinhos...) se compõe o currículo da ARCPA, mas aquilo que faz dela um caso especial no Nordeste transmontano é a "farpa" que nos últimos três anos tem cravado no dorso da imobilidade e pimbalhice regional.

O "Farpa" dura mais do que a criação do mundo. São treze dias para recriar uma aldeia ou uma região. Enquanto nas freguesias do "reino" se estouram os foguetes que anunciam as Ágatas e as Rutes Marlenes desta vida transmontana, em Pombal aprontam-se as coisas para a lírica do teatro, para a harmonia da música, para a poesia, a pintura, a fotografia... Ainda que a qualidade possa não ser a característica definidora de todos os eventos que preenchem aqueles dias intensos, certo é que estão arredados dos "quinteiros" de Pombal as boys e girls bands que existem em excesso, neste final de milénio, nas noites estivais dos burgos transmontanos.

É por isso que Pombal é a aldeia possível. Aparentemente não tem nada que a distinga de outras parvónias. Mas as aparências iludem e a diferença faz-se de atitudes e de opções. É por isso que Pombal de Ansiães tem lugar cativo na imprensa e televisões regional e nacional, nas agendas de grupos de teatro e música de vários pontos da região e do país, no mapa daqueles que rumam em busca da alternativa...

Quando começamos a acreditar na irreversibilidade do pântano pimba, olhamos para Pombal e não vemos o casario em ruínas, a paisagem descaracterizada, a população embrutecida em frente ao televisor — vemos a aldeia possível.



fotografia do espólio da ARCPA

fotografia do espólio da ARCPA
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«Ó Sr. Juíz, então se ele andava com outro...»

2. A impossibilidade de uma aldeia

O "Farpa". Festival de Artes! Muitas! Música Tradicional e outros sons. Cinema. Escultura e pintura. Fotografia. Folclore e ranchos. Fados. Teatro. De rua, fantoches e profissional. Como o "Teatro Em Movimento" ou o "Filandorra", no corrente ano. De Vila Real e Bragança respectivamente, mas também de Sabrosa, Gaia, Gondomar, Lousada, Sintra e Beja. Mesmo assim o peso excessivo recai na música tradicional.

Em 1999, apresentaram dois grupos de teatro estrangeiros (espanhol e moçambicano). Situação que não se verificou este ano, mas que deverá ser revitalizada no próximo "Farpa".

Expressões e gestos presentes em treze dias consecutivos. Obviamente massificadores para um público quase sempre constante... Mas que não retiram valência a uma ideia, no mínimo invulgar, para um aldeia possível no quadro geográfico transmontano.

Independentemente do orgulho que provoca às gentes da terra, a mensagem mediática acaba por ser mais forte do que a própria realidade. Nesta data Pombal de Ansiães transforma-se num centro de recursos para jornalistas regionais ávidos de inovação nos seus burgos. Para os órgãos nacionais "idem aspas" porque simplesmente aconteceu "algo" cultural (se quisermos urbano) na ruralidade. Esta constatação "não impede que haja espectáculos com qualidade dentro da diversidade de estilos". Confirma o presidente Vítor Lima da ARCPA — associação da terra que organiza o evento. E acrescenta: «Em 2001, vamos fazer um avaliação e provavelmente apostar mais na qualidade em detrimento da quantidade». Como exemplo, citou o facto de em alguns dias terem existido três ou mais espectáculos na mesma noite! Todavia, onde mais se evidenciam as angústias existenciais é no cinema. Sacrificar alguma qualidade em nome do povo, ou procurar o equilíbrio quase sempre impossível de concretizar?

Com o devido respeito... porque o "Farpa" é uma causa popular. Gentes que entregam batatas, cebolas, azeite e vinhaça para aquecer a alma dos artistas. Mais, disponibilizam casas e quartos para descanso dos guerreiros, após os estrondosos banquetes dionisíacos que reúnem dezenas de convivas e, no final, os banhos gregos (versão moderna, já que por lá andam ninfas calientes) nas termas de S. Lourenço, a curta distância da aldeia. Assim se explicam entradas gratuitas em todas as actuações numa perfeita simbiose entre artistas e público. Em 1999, dez mil espectadores, segundo o relatório da ARCPA. Uma entidade que vai mais longe já que, para além do "Farpa", do desporto e dos bailaricos da praxe, dinamiza um Grupo de Teatro local, uma Escola de Música, uma Biblioteca (ainda que diminuta), um Atelier de Artes Plásticas, uma Sala de Informática e um jornal mensal (o único registado de todo o concelho de Carrazeda de Ansiães). Tudo isto actividades desenvolvidas permanentemente. Sintomático! Ou talvez não, na impossibilidade de uma aldeia!... Assim, se explica o esforço da organização na procura de apoios e mecenas para tantas concretizações. E tantos dias de festival! Aqui, orgulhosamente sós, reservam para si o último dia no qual o "pessoal da terra" bota poesia e exprime o que sabe nas artes teatrais. Uma tradição que vem de longe, até porque a esmagadora maioria da população da aldeia já fez teatro! Pombal de actores, de Ansiães, de comédias, de cores, de máscaras, de músicas, de tragédias... De vidas!


lcteixeira@aeiou.pt
ruiaaraujo@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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