edição n.º 15 |
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espólio
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TEXTO: fernando gouveia
FOTOGRAFIAS: maria filomena, p. araújo, f. gouveia
FOTOMONTAGENS: paulo araújo |
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As 7 Maravilhas de Trás-os-Montes
Intróito...
Há por aí muito desassisado a pôr pouca fé na torguiana classificação
de Trás-os-Montes como "O Reino Maravilhoso", sem dúvida por ignorância do património existente um
pouco por todo este abençoado cantinho do torrão pátrio. Eis porque delegou o EITO em nós1
a missão de fundamentar tal asserção, colocando-nos na estrada à cata das provas que nem o mais
impenitente dos detractores da região pudesse refutar. Missão homérica? À partida sim; cedo,
porém, se nos tornou evidente que o difícil seria a selecção: reduzir ao canónico número
de sete as maravilhas transmontanas. O resultado desse penoso — e, porventura, injusto e discutível — processo de triagem
encontra-se nestas páginas para a apreciação dos leitores.
Desde já aceitamos um reparo — termo-nos limitado ao distrito de Vila Real. Mas se Heródoto e seus
seguidores se ficaram pelo terço oriental do Mediterrâneo e pelo Médio Oriente, quem somos nós para
superar Heródoto, que, apesar de não ser transmontano, até foi um ilustre historiador?... Em última
análise, esta limitação da área inventariada só abona em favor do esplendor de
Trás-os-Montes — se já assim nada devemos à Antiguidade clássica, o que não nos revelaria uma
investigação mais exaustiva das terras de aquém-Marão?!
Que não se protele mais o que aqui nos traz...
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fotografia de Paulo Araújo
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1. Escombreiras de Campo de Jales
Quéops mandou construir a grande pirâmide que leva o seu nome, colocando Gizé, no Egipto, no
topo da lista de maravilhas ancestrais — Trás-os-Montes respondeu à letra com as escombreiras de Campo de Jales,
imponentes acumulações de escórias que se agigantam sobre as instalações, hoje silenciosas,
das minas.
Na pirâmide de Quéops só o Faraó teve lugar — nas galerias de Jales, pelo
contrário, reinou a igualdade, não se negando sepultura nem ao mais humilde mineiro. (Não é só
o escorial de Espanha que tem um vale dos caídos por perto...) Depois, como os mortos precisam de paz, mandaram-se os
vivos para casa, e mais ninguém viu a luz ao fundo do túnel.
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fotografia de Fernando Gouveia
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2. Gasolineira Suspensa da Campeã
Na mítica — e tantas vezes vilipendiada — Babilónia situava-se, ao que se diz, a segunda maravilha
do mundo antigo: os Jardins Suspensos, mandados construir por Nabucodonosor II para agradar à sua mulher, originária
da montanhosa região da Média. Segundo Estrabão, Fílon de Bizâncio e outros, era algo como uma
gigantesca torre com jardins em patamares ou socalcos, irrigados por um complexo sistema hidráulico.
Mas a verdade é que este prodígio técnico-arquitectónico poderá nunca ter
existido, excepto na cabeça dos historiadores e poetas gregos — ao contrário do posto de gasolina que alcantiladamente
se ergue sobre o ubérrimo vale da Campeã; esse, brotando da fonte inesgotável que é a
imaginação dos engenheiros que construíram o IP4, tornou-se realidade, para maior glória de
Trás-os-Montes. Que outra região em Portugal — no Mundo! — se deu a tal trabalho para materializar a metáfora
do preço dos combustíveis? Uma vez mais, os transmontanos mostram o caminho.
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fotomontagem de Paulo Araújo
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3. Imagem de Deus contra os Ímpios
Em Olímpia, na Grécia ocidental, realizavam-se os Jogos Olímpicos originais, em honra do
deus supremo, Zeus. No templo dedicado a esta divindade erguia-se a terceira maravilha do mundo clássico: a Estátua
de Zeus Olímpico, da obra do grande Fídias.
Ficaria Trás-os-Montes para trás neste particular? Sabemos bem que não — por cá
temos algo (no mínimo) igualmente magnificente, verdadeira Imagem de Deus contra os Ímpios: A Voz de
Trás-os-Montes [VTM] que, conforme a seguir se demonstrará, tem muitas semelhanças com o
monumento olímpico.
Em primeiro lugar temos a própria natureza (obviamente) estática da estátua. Maior
parecença não poderíamos encontrar na VTM que, fiel a criador (ao Criador?), não evoluiu nada
nestes cinquenta anos que leva de existência. (Só cinquenta? Pelo estilo editorial, dir-se-ia — e esta é a
segunda semelhança — contemporânea da escultura de Fídias, datada do século quinto antes da nossa era...)
Por fim, segundo Estrabão e Pausânidas, entre outros, a estátua de Zeus era feita de marfim
e ouro ricamente lavrados — mas não é aí que ela e a VTM se aparentam. Não, a afinidade
é mais interior: é que, tal como a estátua de Zeus não era maciça, A Voz de
Trás-os-Montes é oca. Amén.
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fotografia de Maria Filomena

(detalhe)
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4. Templo de Vénus no Alto do Pópulo
A quarta maravilha da antiguidade era o Templo de Ártemis, em Éfeso, na Ásia Menor, actual
Turquia. Como era hábito nos templos da Antiguidade, o seu recinto era simultaneamente lugar de culto e mercado. O seu
epígono transmontano encontra-se no Alto do Pópulo, concelho de Alijó, e embora se encontre actualmente
desactivado, ainda conserva muito do seu esplendor, sendo mesmo de registar uma mais-valia posterior à sua
criação, conforme adiante se verá.
Tal como no original grego, no templo do Alto do Pópulo prestava-se fervorosamente culto a uma
única divindade feminina, mas nestas longitudes a escolha recaiu sobre a romana Vénus. Fosse Ceres a padroeira em
questão, e também neste santuário transmontano se veriam à venda couves e beterrabas; porém,
sendo outra a patrona, tiveram os passantes que contentar-se com mercado diverso... Mas, não obstante o nome romano do
orago, investigações por nós levadas a cabo indicam que o culto do Alto do Pópulo estava estreitamente
relacionado com esses outros da Ásia Menor: diz quem sabe que, cá como lá, dedicavam-se fervorosamente os
fiéis a rituais extáticos.
O fim da Templo de Vénus foi menos ingrato que o do de Ártemis (destruído em 401 d. C. por
S. João Crisóstomo, sem dúvida por divergências quanto ao estilo arquitectónico...): Um dia
passou por lá o Redentor e, desconfiado que um «Vai, e não voltes a pecar» não seria suficiente numa
época em que já não vamos lá com duas tretas, não esteve com meias medidas e instalou-se no
telhado do monumento, onde ainda pode ser visto hoje.
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fotografia de Paulo Araújo
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5. Túmulo da Indústria Transmontana
A segunda maravilha de natureza funerária era o túmulo do Rei Mausolo de Halicarnasso, cidade
não longe de Éfeso; tão magnífica era esta edificação, que a partir daí a
palavra "mausoleu" passou a designar os grandes túmulos. Trás-os-Montes, primeira entre as regiões de
Portugal até mesmo na morte, não tardou a rivalizar com Halicarnasso em grandiosidade — e como o moribundo mais
à mão era a indústria regional, logo se providenciou o majestoso cadáver da Tabopan.
Mas as semelhanças não se ficam por aqui: tal como as ruínas do túmulo do Rei
Mausolo encontraram a sua derradeira vocação como material de construção para as
fortificações dos cavaleiros de Malta, também as ruínas do túmulo da indústria
transmontana se reinventaram, não há muito tempo, como base para os treinos das tropas da KFOR. Nada se perde
(dizem...), tudo se transforma.
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fotografia de Maria Filomena
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6. Igreja geodésica de Castro (Alijó)
O primeiro farol (como estrutura permanente) de que há registo constituiu-se como a sexta maravilha do
mundo antigo; situava-se no delta do Nilo, não longe de Alexandria, mais exactamente na ilha de Faros, de onde lhe ficou
o nome. Embora não querendo entrar em polémica com Ana Maria Aguiar Macedo,2 propomos para correspondente
transmontano de tão luminoso monumento a capela que se encontra num cume próximo do cemitério de Castro, Alijó.
A sua condição eclesiástica justifica, desde logo, a vocação farólica
de emanador da Luz da Fé, se bem que, sendo uma estrutura desprovida dos modernos meios de comunicação, a
capela de Castro apenas seja eficaz para as almas que naveguem "à vista" (ao contrário da igreja de Santo
António, em Vila Real, que, transmitindo a liturgia para o exterior através de megafones, é igualmente
redentora em dias de nevoeiro...).
Onde reside, então, a vantagem justificadora de ser esta, e não outra, a igreja eleita? Pasmem,
mas o factor decisivo proveio, não da Igreja Católica, mas dos Serviços Geográficos do Exército,
mais exactamente dos militares que colocam os marcos geodésicos. Estes, lendo strictu sensu o livrinho que diz que
os marcos devem ser levantados nos cumes dos montes, deitaram mãos à obra, com o resultado que a fotografia
documenta.
Assim, os que deram à capela de Castro a forma de farol foram igualmente os primeiros agraciados (a
priori, o que é milagre maior!) pela sua luz — pois só mesmo uns "iluminados" se lembrariam de pôr o
marco em tal sítio.
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fotomontagem de Paulo Araújo
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7. Colosso do Barroso
Muito se escreveu sobre o Colosso de Rodes — a gigantesca estátua que se ergueu nas proximidades da
entrada do porto da ilha grega com o mesmo nome —, não raro com mais fantasia que verdade: a mais famosa das lendas
é a de que o Colosso se apresentava de pernas abertas sobre a dita entrada (o que, além de impossível, seria
indecoroso até para pagãos). Somemos os efeitos negativos dos exageros ao facto de a estátua apenas ter
durado 56 anos (foi destruída por um terramoto), e torna-se fácil perceber por que razão a sua existência
foi posta em causa por muitos.
Desse mal não sofre Barroso da Fonte [BF], sétima e última maravilha transmontana: Scribo
(et scribo, et scribo, et scribo...) ergo sum. De facto, tão profícuo é este ilustre transmontano —
colaborando com (quase) tudo o que consegue fazer passar-se por jornal regional ou local3 —, que o que muita gente
duvida é que BF seja apenas um, e não uma legião clonada por algum cientista louco versado nas excomungadas
artes da engenharia genética... Ou isso, ou Deus não só o inspira, como também lhe concedeu um
cheirinho da sua divina ubiquidade.
Mas BF é mais do que um colosso: é um Titã, um campeão de duelos medievais,
incansável na defesa da honra da sua Dama, Trás-os-Montes. Ouse alguém questionar os méritos da
região — sequer lhe perpasse a ideia pela cabeça! — e eis BF, fero e assanhado, a esgrimir slogans na imprensa.
Qual ‘Q’ do Instituto Português da Qualidade, qual certificado ISO 9001: Barroso da Fonte — o Colosso do Barroso, o Super
Transmontano — é o único garante de qualidade e autenticidade de que Trás-os-Montes e os transmontanos
necessitam!4
Assim concluímos o nosso périplo pelas jóias das coroa deste Reino Maravilhoso.
Nota final: Mais uma vez reafirmamos a injustiça da subordinação ao número
canónico, que nos obrigou a preterir incontáveis pérolas transmontanas — mas a tradição ainda
é o que era, em especial quando falamos da nobre terra de aquém-Marão. E para que não pensem que
falamos por falar, aqui ficam registados alguns desses formidáveis candidatos que — porventura injustamente, pois
mérito não lhes falta — não figuram no presente cânone: A oliveira da torre da Sé de Vila Real,
que quando der azeite será sem dúvida sacro (sugerimos que se comercialize sob a marca "Azeite Oliveira da Sé(rra)");
esse humilde servo de Cristo que é «Dom Joaquim Gonçalves por mercê de Deus e da Santa Sé
Apostólica Bispo de Vila Real»;5 o IP4, local privilegiado na região para encontros frente-a-frente
(falhou o Fórum de Trás-os-Montes, restam-nos as "iniciativas bilaterais"); o IP3, que no distrito de Vila Real
soma às já anunciadas portagens virtuais uma persistente existência virtual (em Trás-os-Montes vamos
sempre um passo à frente...); e a futura catedral da capital bragançana, cujos méritos já foram
largamente expostos em edição anterior.
E mais não dizemos, para não fomentar a delapidadora inveja nas restantes regiões.
Notas:
1 Apenas devido à muita insistência aceitámos, relutantes como estávamos em
invadir os domínios do Luís Teixeira...
2 Citando A. M. A. Macedo (A Voz de Trás-os-Montes n.º 2589, de 6 de Janeiro de 2000):
«Que melhor porvir para este Jornal do que ser um novo Farol de Alexandria — uma das Sete Maravilhas do Mundo — desta vez a
espalhar a luz do saber e a voz de todos nós?» A VTM é verdadeiramente maravilhosa, mas — não querendo
ser acusados de favorecimento pelos verdadeiros restantes órgãos de informação
regional — tivemos de refrear o ânimo cumulativo e atribuir-lhe "apenas" o estatuto de terceira maravilha transmontana.
3 Até ver, o Eito tem mantido a virgindade. Deo juvante, tê-lo-emos qualquer
dia nestas páginas.
4 Esperamos ansiosamente a instituição do certificado PQPRD (Pessoa de Qualidade Produzida
em Região Demarcada), cuja atribuição estaria ao criterioso cargo de BF.
5 Título de um artigo em A Voz de Trás-os-Montes n.º 2629, de 26 de Outubro de 2000.
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fgouveia@periferica.org
Leia este e outros textos na Secret'Área,
o refúgio literário de Fernando Gouveia.

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EITO FORA: transmontano sem preconceitos
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