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TEXTO: fernando gouveia
FOTOGRAFIAS: maria filomena, p. araújo, f. gouveia
FOTOMONTAGENS: paulo araújo


As 7 Maravilhas de
Trás-os-Montes


Intróito...

Há por aí muito desassisado a pôr pouca fé na torguiana classificação de Trás-os-Montes como "O Reino Maravilhoso", sem dúvida por ignorância do património existente um pouco por todo este abençoado cantinho do torrão pátrio. Eis porque delegou o EITO em nós1 a missão de fundamentar tal asserção, colocando-nos na estrada à cata das provas que nem o mais impenitente dos detractores da região pudesse refutar. Missão homérica? À partida sim; cedo, porém, se nos tornou evidente que o difícil seria a selecção: reduzir ao canónico número de sete as maravilhas transmontanas. O resultado desse penoso — e, porventura, injusto e discutível — processo de triagem encontra-se nestas páginas para a apreciação dos leitores.

Desde já aceitamos um reparo — termo-nos limitado ao distrito de Vila Real. Mas se Heródoto e seus seguidores se ficaram pelo terço oriental do Mediterrâneo e pelo Médio Oriente, quem somos nós para superar Heródoto, que, apesar de não ser transmontano, até foi um ilustre historiador?... Em última análise, esta limitação da área inventariada só abona em favor do esplendor de Trás-os-Montes — se já assim nada devemos à Antiguidade clássica, o que não nos revelaria uma investigação mais exaustiva das terras de aquém-Marão?!

Que não se protele mais o que aqui nos traz...



fotografia de Paulo Araújo
fotografia de Paulo Araújo


1. Escombreiras de Campo de Jales

Quéops mandou construir a grande pirâmide que leva o seu nome, colocando Gizé, no Egipto, no topo da lista de maravilhas ancestrais — Trás-os-Montes respondeu à letra com as escombreiras de Campo de Jales, imponentes acumulações de escórias que se agigantam sobre as instalações, hoje silenciosas, das minas.

Na pirâmide de Quéops só o Faraó teve lugar — nas galerias de Jales, pelo contrário, reinou a igualdade, não se negando sepultura nem ao mais humilde mineiro. (Não é só o escorial de Espanha que tem um vale dos caídos por perto...) Depois, como os mortos precisam de paz, mandaram-se os vivos para casa, e mais ninguém viu a luz ao fundo do túnel.



fotografia de Fernando Gouveia
fotografia de Fernando Gouveia


2. Gasolineira Suspensa da Campeã

Na mítica — e tantas vezes vilipendiada — Babilónia situava-se, ao que se diz, a segunda maravilha do mundo antigo: os Jardins Suspensos, mandados construir por Nabucodonosor II para agradar à sua mulher, originária da montanhosa região da Média. Segundo Estrabão, Fílon de Bizâncio e outros, era algo como uma gigantesca torre com jardins em patamares ou socalcos, irrigados por um complexo sistema hidráulico.

Mas a verdade é que este prodígio técnico-arquitectónico poderá nunca ter existido, excepto na cabeça dos historiadores e poetas gregos — ao contrário do posto de gasolina que alcantiladamente se ergue sobre o ubérrimo vale da Campeã; esse, brotando da fonte inesgotável que é a imaginação dos engenheiros que construíram o IP4, tornou-se realidade, para maior glória de Trás-os-Montes. Que outra região em Portugal — no Mundo! — se deu a tal trabalho para materializar a metáfora do preço dos combustíveis? Uma vez mais, os transmontanos mostram o caminho.



fotomontagem de Paulo Araújo
fotomontagem de Paulo Araújo


3. Imagem de Deus contra os Ímpios

Em Olímpia, na Grécia ocidental, realizavam-se os Jogos Olímpicos originais, em honra do deus supremo, Zeus. No templo dedicado a esta divindade erguia-se a terceira maravilha do mundo clássico: a Estátua de Zeus Olímpico, da obra do grande Fídias.

Ficaria Trás-os-Montes para trás neste particular? Sabemos bem que não — por cá temos algo (no mínimo) igualmente magnificente, verdadeira Imagem de Deus contra os Ímpios: A Voz de Trás-os-Montes [VTM] que, conforme a seguir se demonstrará, tem muitas semelhanças com o monumento olímpico.

Em primeiro lugar temos a própria natureza (obviamente) estática da estátua. Maior parecença não poderíamos encontrar na VTM que, fiel a criador (ao Criador?), não evoluiu nada nestes cinquenta anos que leva de existência. (Só cinquenta? Pelo estilo editorial, dir-se-ia — e esta é a segunda semelhança — contemporânea da escultura de Fídias, datada do século quinto antes da nossa era...)

Por fim, segundo Estrabão e Pausânidas, entre outros, a estátua de Zeus era feita de marfim e ouro ricamente lavrados — mas não é aí que ela e a VTM se aparentam. Não, a afinidade é mais interior: é que, tal como a estátua de Zeus não era maciça, A Voz de Trás-os-Montes é oca. Amén.



fotografia de Maria Filomena
fotografia de Maria Filomena

detalhe da fotografia anterior
(detalhe)


4. Templo de Vénus no Alto do Pópulo

A quarta maravilha da antiguidade era o Templo de Ártemis, em Éfeso, na Ásia Menor, actual Turquia. Como era hábito nos templos da Antiguidade, o seu recinto era simultaneamente lugar de culto e mercado. O seu epígono transmontano encontra-se no Alto do Pópulo, concelho de Alijó, e embora se encontre actualmente desactivado, ainda conserva muito do seu esplendor, sendo mesmo de registar uma mais-valia posterior à sua criação, conforme adiante se verá.

Tal como no original grego, no templo do Alto do Pópulo prestava-se fervorosamente culto a uma única divindade feminina, mas nestas longitudes a escolha recaiu sobre a romana Vénus. Fosse Ceres a padroeira em questão, e também neste santuário transmontano se veriam à venda couves e beterrabas; porém, sendo outra a patrona, tiveram os passantes que contentar-se com mercado diverso... Mas, não obstante o nome romano do orago, investigações por nós levadas a cabo indicam que o culto do Alto do Pópulo estava estreitamente relacionado com esses outros da Ásia Menor: diz quem sabe que, cá como lá, dedicavam-se fervorosamente os fiéis a rituais extáticos.

O fim da Templo de Vénus foi menos ingrato que o do de Ártemis (destruído em 401 d. C. por S. João Crisóstomo, sem dúvida por divergências quanto ao estilo arquitectónico...): Um dia passou por lá o Redentor e, desconfiado que um «Vai, e não voltes a pecar» não seria suficiente numa época em que já não vamos lá com duas tretas, não esteve com meias medidas e instalou-se no telhado do monumento, onde ainda pode ser visto hoje.



fotografia de Paulo Araújo
fotografia de Paulo Araújo


5. Túmulo da Indústria Transmontana

A segunda maravilha de natureza funerária era o túmulo do Rei Mausolo de Halicarnasso, cidade não longe de Éfeso; tão magnífica era esta edificação, que a partir daí a palavra "mausoleu" passou a designar os grandes túmulos. Trás-os-Montes, primeira entre as regiões de Portugal até mesmo na morte, não tardou a rivalizar com Halicarnasso em grandiosidade — e como o moribundo mais à mão era a indústria regional, logo se providenciou o majestoso cadáver da Tabopan.

Mas as semelhanças não se ficam por aqui: tal como as ruínas do túmulo do Rei Mausolo encontraram a sua derradeira vocação como material de construção para as fortificações dos cavaleiros de Malta, também as ruínas do túmulo da indústria transmontana se reinventaram, não há muito tempo, como base para os treinos das tropas da KFOR. Nada se perde (dizem...), tudo se transforma.



fotografia de Maria Filomena
fotografia de Maria Filomena


6. “Igreja geodésica” de Castro (Alijó)

O primeiro farol (como estrutura permanente) de que há registo constituiu-se como a sexta maravilha do mundo antigo; situava-se no delta do Nilo, não longe de Alexandria, mais exactamente na ilha de Faros, de onde lhe ficou o nome. Embora não querendo entrar em polémica com Ana Maria Aguiar Macedo,2 propomos para correspondente transmontano de tão luminoso monumento a capela que se encontra num cume próximo do cemitério de Castro, Alijó.

A sua condição eclesiástica justifica, desde logo, a vocação farólica de emanador da Luz da Fé, se bem que, sendo uma estrutura desprovida dos modernos meios de comunicação, a capela de Castro apenas seja eficaz para as almas que naveguem "à vista" (ao contrário da igreja de Santo António, em Vila Real, que, transmitindo a liturgia para o exterior através de megafones, é igualmente redentora em dias de nevoeiro...).

Onde reside, então, a vantagem justificadora de ser esta, e não outra, a igreja eleita? Pasmem, mas o factor decisivo proveio, não da Igreja Católica, mas dos Serviços Geográficos do Exército, mais exactamente dos militares que colocam os marcos geodésicos. Estes, lendo strictu sensu o livrinho que diz que os marcos devem ser levantados nos cumes dos montes, deitaram mãos à obra, com o resultado que a fotografia documenta.

Assim, os que deram à capela de Castro a forma de farol foram igualmente os primeiros agraciados (a priori, o que é milagre maior!) pela sua luz — pois só mesmo uns "iluminados" se lembrariam de pôr o marco em tal sítio.



fotomontagem de Paulo Araújo
fotomontagem de Paulo Araújo


7. Colosso do Barroso

Muito se escreveu sobre o Colosso de Rodes — a gigantesca estátua que se ergueu nas proximidades da entrada do porto da ilha grega com o mesmo nome —, não raro com mais fantasia que verdade: a mais famosa das lendas é a de que o Colosso se apresentava de pernas abertas sobre a dita entrada (o que, além de impossível, seria indecoroso até para pagãos). Somemos os efeitos negativos dos exageros ao facto de a estátua apenas ter durado 56 anos (foi destruída por um terramoto), e torna-se fácil perceber por que razão a sua existência foi posta em causa por muitos.

Desse mal não sofre Barroso da Fonte [BF], sétima e última maravilha transmontana: Scribo (et scribo, et scribo, et scribo...) ergo sum. De facto, tão profícuo é este ilustre transmontano — colaborando com (quase) tudo o que consegue fazer passar-se por jornal regional ou local3 —, que o que muita gente duvida é que BF seja apenas um, e não uma legião clonada por algum cientista louco versado nas excomungadas artes da engenharia genética... Ou isso, ou Deus não só o inspira, como também lhe concedeu um cheirinho da sua divina ubiquidade.

Mas BF é mais do que um colosso: é um Titã, um campeão de duelos medievais, incansável na defesa da honra da sua Dama, Trás-os-Montes. Ouse alguém questionar os méritos da região — sequer lhe perpasse a ideia pela cabeça! — e eis BF, fero e assanhado, a esgrimir slogans na imprensa. Qual ‘Q’ do Instituto Português da Qualidade, qual certificado ISO 9001: Barroso da Fonte — o Colosso do Barroso, o Super Transmontano — é o único garante de qualidade e autenticidade de que Trás-os-Montes e os transmontanos necessitam!4


Assim concluímos o nosso périplo pelas jóias das coroa deste Reino Maravilhoso.


Nota final: Mais uma vez reafirmamos a injustiça da subordinação ao número canónico, que nos obrigou a preterir incontáveis pérolas transmontanas — mas a tradição ainda é o que era, em especial quando falamos da nobre terra de aquém-Marão. E para que não pensem que falamos por falar, aqui ficam registados alguns desses formidáveis candidatos que — porventura injustamente, pois mérito não lhes falta — não figuram no presente cânone: A oliveira da torre da Sé de Vila Real, que quando der azeite será sem dúvida sacro (sugerimos que se comercialize sob a marca "Azeite Oliveira da Sé(rra)"); esse humilde servo de Cristo que é «Dom Joaquim Gonçalves por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica Bispo de Vila Real»;5 o IP4, local privilegiado na região para encontros frente-a-frente (falhou o Fórum de Trás-os-Montes, restam-nos as "iniciativas bilaterais"); o IP3, que no distrito de Vila Real soma às já anunciadas portagens virtuais uma persistente existência virtual (em Trás-os-Montes vamos sempre um passo à frente...); e a futura catedral da capital bragançana, cujos méritos já foram largamente expostos em edição anterior.

E mais não dizemos, para não fomentar a delapidadora inveja nas restantes regiões.


Notas:
1 Apenas devido à muita insistência aceitámos, relutantes como estávamos em invadir os domínios do Luís Teixeira...
2 Citando A. M. A. Macedo (A Voz de Trás-os-Montes n.º 2589, de 6 de Janeiro de 2000): «Que melhor porvir para este Jornal do que ser um novo Farol de Alexandria — uma das Sete Maravilhas do Mundo — desta vez a espalhar a luz do saber e a voz de todos nós?» A VTM é verdadeiramente maravilhosa, mas — não querendo ser acusados de favorecimento pelos verdadeiros restantes órgãos de informação regional — tivemos de refrear o ânimo cumulativo e atribuir-lhe "apenas" o estatuto de terceira maravilha transmontana.
3 Até ver, o Eito tem mantido a virgindade. Deo juvante, tê-lo-emos qualquer dia nestas páginas.
4 Esperamos ansiosamente a instituição do certificado PQPRD (Pessoa de Qualidade Produzida em Região Demarcada), cuja atribuição estaria ao criterioso cargo de BF.
5 Título de um artigo em A Voz de Trás-os-Montes n.º 2629, de 26 de Outubro de 2000.

 


fgouveia@periferica.org

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