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entrevista
ENTREVISTA: rui ângelo araújo e carlos chaves
FOTOGRAFIAS: paulo araújo


fotografia de Paulo Araújo
fotografia de Paulo Araújo

Nasceu numa aldeia de setenta fogos que hoje tem trinta ou quarenta. Na vida, como no seminário, não lê só os livros "oficiais". É o que se podia chamar um "menino rabino".

Etnógrafo, animador cultural, "botânico", exorcista de crendices. António Lourenço Fontes: barrosão, com a graça de Deus. Um padre levado dos diabos.


Padre António Lourenço Fontes
Uma ida à bruxa


A cena passa-se numa cozinha rústica, antiga, em volta de uma lareira. Quatro pessoas e um gravador. Bruxas, muitas bruxas rodeiam a conversa, penduradas, misturadas com santos e anjos... Até o pobre do menino Jesus, em palhas de barro deitado, é assombrado por uma feiticeira com a sua vassoura. Esta fauna mítica está aqui para assistir a um acto inquisitorial.

Experimentam-se poções de ervas várias que aquecem os espíritos presentes na sessão. Material provatório, neste julgamento sumário.

O inquirido nega abjurar os falsos deuses que os autos dizem que promove. Estão-lhe na alma empedernidamente barrosã. Os inquisidores apenas necessitam testemunhar um exorcismo para dar o veredicto.

O telefone toca. A linha do diabo, certamente. A voz ecoa na velha cozinha com o à-vontade de um espirito habitué e com o volume permitido por tecnologias diabólicas — o telefone é posto em função de altavoz. Do lado de lá uma voz diáfana fala de depressões antigas, de dúvidas modernas, de um deus que perturba, de reencarnações... O diabo a quatro.

E eis o exorcismo. Padre Fontes serve-se do mais antigo dos instrumentos — a voz — e vade retro Satanás! que está na hora da verdade.

— Culpado! Culpado de exorcizar bruxas e fantasmas religiosos! — gritam como que possuídos os inquisidores.


Aquilo que poderia parecer uma "ida à bruxa", tão do agrado de demasiada gente, foi uma conversa amena, desmitificadora, iconoclasta até. Padre Fontes não celebra rituais pagãos — incentiva tradições inofensivas. O sacerdote barrosão não promove bruxas e duendes — relembra raízes e costumes ancestrais. O pároco de Vilar de Perdizes não desvia as almas paroquianas do caminho da luz — dá-lhes uma identidade e elucida-as sobre as falácias das crenças, as católicas incluídas.

A sua casa está recheada de miniaturas de bruxas e outros artefactos "místicos", mas o seu discurso é o do esclarecimento, da elucidação.

Quando o telefone tocou a meio da entrevista para que alguém falasse de um "deus que perturba e castiga", padre Fontes é claro e incisivo: «O deus que perturba não é Deus. O castigo não é Deus que o faz, é o ser humano o causador dele. É o provocante e o actor.» A voz no telefone recorre aos espíritos, às reencarnações de que muitos falam. Padre Fontes: «São alucinações e duplicação de personalidade, não são "espíritos vivos". Uma confusão que pode acontecer a qualquer um de nós.» A voz insiste que numa conferência ouviu um "catedrático" afirmar que está cientificamente provado... Resposta: «Todos os espíritas lhe chamam ciência. Isso é uma forma de garantir a mentira.» No final, ainda tempo de humor, quase a despropósito: «Nietzsche dizia: "admiro os padres que endeusam um deus que os crucifica."» O padre ri-se da sua própria condição.

O telefone na casa do padre não pára de tocar dia e noite. As gentes recorrem àquele número em desespero de alma, cheias de fantasmas e visões, mas António Lourenço Fontes sabe que elas apenas querem ser ouvidas. Tem sempre uma palavra de esclarecimento pronta. Desiludam-se os românticos que vêem no padre o último dos exorcistas. As esconjuras que ele faz são do domínio da psicologia.

A Igreja, a granítica Igreja, no seu inevitável e ancestral caminho de afastamento, a espaços censura o padre. Vê nele um promotor do paganismo, da superstição. Tem que telefonar ao Padre Fontes para que lhe sejam esconjurados todos os fantasmas que criou ao longo de séculos. Alguém lhe dê o número...


Fale-nos da sua infância.

Nasci numa aldeia de setenta fogos que hoje tem trinta ou quarenta, éramos para aí vinte na escola e agora são muito menos. Só fiz três anos na primária; passei da segunda para a quarta. Mas nunca me convenci nem hoje me convenço que tenha alguma luminosidade mais do que ninguém. A professora na primária punha-me a ler o Diário da República quando tinha visitas. Mas também levei umas palmadas.

Porque razão?

Uma vez porque fui aos ninhos em vez de ir à escola. Mas não chorei.

Foi para padre por influência do padre da sua aldeia. Conte lá como foi.

Era o Padre Francisco. (Depois casou-se.) Gostei do estilo dele...


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Mario Soares barrosão?...


Convivia com ele?

Ele vinha para casa dos meus pais fazer serão e eu ia para casa dele rezar o terço, ouvir rádio... Tinha um rádio que punha na janela com as goelas abertas... Aquilo era uma novidade raríssima. Ninguém mais tinha rádio lá na minha terra. Então eu pensava: «Quando for padre vou comprar um rádio.»

Não me vai dizer que foi para o seminário para comprar um rádio?

Foi um pretexto. Mas também era para fazer sermões.

Admirava os sermões do padre Francisco?

Admirava os do anterior a ele. Eu com quatro, cinco anos fazia sermões, a imitar os padres. O padre era a única figura que se demarcava na aldeia.

Ir para o seminário era uma maneira de ir estudar?

Não havia outra hipótese. Isto em 1950...

Que idade tem?

Tenho 61.

Está conservado.

É do lume, conserva as carnes...

E no seminário...

Os meu colegas começaram a debandar ao quinto ano. Da minha região vieram todos embora, só fiquei eu. Lá fui resistindo às saudades dos amigos... Depois chegou a fase dos dezanove anos, as namoradas... As raparigas desafiavam, «vais, não vais; namoras, não namoras». E eu também andei por aí. Quando vinha do seminário encontrava as moças da terra todas encantadoras e eu gostava da convivência com elas.

Quando acabou o seminário ficou colocado onde?

Em casa dos pais (risos). Ainda não tinha idade para ser padre. Acabei aos 22 anos e a idade normal era aos 24. Mas fiz o seminário sempre um bocado à rasca. Houve um ano em que fui expulso.

Foi expulso?

Foi no 9º ano. Por ordem do sr. Bispo. Eu perguntei a reitor porquê e ele disse-me para perguntar ao sr. Bispo. E eu lá fui. «Porque andaste a dançar o dia inteiro numa festa», disse-me ele. Não foi o dia inteiro, só foi uma tarde, de manhã não se baila...

Houve alguém que fez queixa?

Ou o padre da freguesia onde fui bailar ou o arcipreste de Montalegre. Lá me vim embora. Aquilo tinha coincidido com as férias e eu tinha deixado lá a mala. Depois das férias fui com os outros que regressavam para buscar a mala. Nessa altura disseram-me para ficar. Desconfio que houve diligências do padre da minha terra. A mim não me consultaram, não fiz diligência nenhuma, pelo contrário: andei nas festas, bailei com quem quis...

Então pensei: se por uma coisa destas me aceitaram de volta então agora posso brincar eu. Os últimos quatro anos fiz do seminário um paraíso. Para mim e para os outros. Eu projectava slides, chamava conferencistas, fazia cinema (não era qualquer cinema); fazíamos carnavais... Foram os anos em que menos estudei. Comprava livros que não eram os obrigatórios. Não lia só o livro do professor, lia livros paralelos, de psicologia, de filosofia...

Gosta de ler?

Já vem desde a escola primária. Para mim o livro é o companheiro mais calado, mais paciente, mais rico, mais dócil, mais respeitador, mais presente...

Ainda lê?

Eu passo o dia a ler. Hoje menos, passo muitas horas no computador.

[Toca o telefone. Padre Fontes activa a função de altavoz. Por causa das «dores no pescoço»...]

Estas pessoas que lhe ligam são pessoas com necessidade de falar?

E de alguém que as ouça. Mas às vezes são horas. Não raro, horas de histerismo.


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Eu não acredito em bruxas...


O que é que encontram em si?

Confiança...

Abertura, talvez?

...Disponibilidade...

Física e psicológica?

Não sei se se pode chamar direcção espiritual.

O Padre Fontes está constantemente a desmistificar e desmitificar as coisas, ao contrário do que muitas pessoas pensam de si, o organizador do Congresso...

A maior parte destas "doenças" e traumas são consequência dos medos que nos incutiu a religião católica e outras. As religiões caem neste erro: provocam nas pessoas dependências, traumas, para depois darem resposta, para que as pessoas sejam dependentes. Às vezes sem maldade. Eu creio que muitos padres pregam e fazem certas coisas porque é assim que está lá no livro. Mas sem maldade.

Como o Inferno: a visão que deu à pessoa que lhe telefonou não tem nada a ver com fogo e essas coisas. Aliás, o papa há pouco tempo acabou por vir dizer o mesmo.

Isso já vem cem anos atrasado.

No entanto, nele é surpreendente que o tenha dito.

Sim, sim, eu gostei de o ouvir. Temos dado razão a muita gente, mas o que acontece é que só damos passado uns tempos. Eu quando saí do seminário acabei com o traje e com o cabeção. (Um dia apareci com ele na igreja de um padre, ao domingo, na festa. Ofereci-me para ajudar à missa. Ele pôs-me fora da sacristia.) (Risos.)

O Padre Fontes vai ser um dia uma espécie de Frei Bartolomeu dos Mártires do Barroso? [O arcebispo que terá pedido no Concílio de Trento a abolição do celibato, ou pelo menos a excepção para os padres do Barroso.]

Não... Eu sou mais vasto do que ele. Ele dizia «ao menos para os Barrosões», eu digo, para toda a gente (risos).

Defende o fim do celibato, portanto.

Quem é que não defende?

Deve haver muitos dentro da Igreja.

Há, dentro e fora. Mesmo na hierarquia creio que há quem defenda.

Então porque é que não acaba?

A hierarquia é o Papa, neste caso. E algumas pessoas.

Vistas as coisas há vantagens, mas há muitas desvantagens. As vantagens são a liberdade, o tempo, a dedicação... Se tiver mulheres e filhos tem que trabalhar mais. Nós, assim, ainda fazemos algum acto social, ficamos baratos à comunidade.

Alguns...

Alguns ficam bem caros ao povo que servem. Em vez de padres operários, são obreiros. Padres que são capazes de ter alguma vocação de empreiteiros, de construtores...

E o Padre Fontes?

Dava um bom presidente da junta, dizem alguns.

Se não fosse padre o que é que era? Pastor?

Não sei o que seria. Nunca pensei... Eu se não tinha ido para padre era como os meus irmão, era um lavrador... Era emigrante. Não tinha ido estudar.

Ser padre aqui nesta região foi uma ajuda para si...

Sou diferente do comum... Sou útil à sociedade...


fotografia de Paulo Araújo
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Acabou por ter algum ascendente sobre as pessoas.

Isso já vinha. A minha família já tinha ascendente. O meu pai era um ricalhaço americano. A nossa casa estava sempre aberta. Tínhamos bens, não havia fome, éramos uma família bem vista. Socialmente acima da média.

E o seu pai não os punha a estudar?

Não havia ninguém a estudar nesse tempo. Não era normal. Os meus pais eram analfabetos.

Ser Padre, apesar de tudo, possibilitou-lhe outra abertura em relação ao meio onde estava inserido, mas nunca se sabe se tendo outra vivência...

Mas a abertura que tenho é o seguinte: eu não leio só o livro oficial. Eu leio livros paralelos. Não leio só o da medicina convencional...

A sua paixão pelas plantas vem detrás, ou...

Toda a gente que anda aqui no campo conhece. A minha mãe é que me mandava apanhar os chás. A mim e aos meus irmãos. Os chás que ela usava eu também aprendi a usar. Não é que eu seja de tomar muitos chás.

Acredita nos seus efeitos?

A natureza tem vitalidade, isso tem. Agora, o misticismo utilizo-o como parte do passado, como a etnografia, a tradição. Sou capaz de ter um amuleto aí mas não dou valor ao amuleto. Sou capaz de ter a arruda à porta, mas não me defende de nada, não é? Hoje trago uma bruxa no carro. É um pretexto para falar com as pessoas. Para elas contarem lendas, histórias, tradições.

Que depois regista... Disse que se corre o risco de se perder todo este património quando morrerem as pessoas mais velhas.

Há coisas que só eles sabem.

Isso é essencial para o desenvolvimento desta região?

O valor de uma região está na sua especificidade.

Só? O culto exacerbado da identidade não pode levar a que as pessoas se fechem?

Isso é fanatismo. Eu acho que cada um deve afirmar-se com consciência daquilo que é e com respeito pelo que os outros são. Eu não quero ser igual aos outros. Eu sou o que sou.

Mas se calhar é tão ou mais importante as pessoas estarem atentas e procurarem conhecer o resto do mundo...

Ah, bom... Saber o que está à minha volta... Eu conheço os outros, mas mantenho o meu.

Quando era novo, juntava dinheiro e ia um mês para férias. À boleia. Corri o país todo e a Espanha toda à boleia. Sempre sozinho. Levava uma tenda que arranjei no quartel de Chaves (três panos pesados e uma dúzia de cavilhas), uma cozinha de petróleo, roupa, uma capa de estudante que servia de manta para me tapar de noite... Quando ia a Lisboa via tudo quanto era museu, paços, igrejas.

Mais tarde ia a cursos missionários, cursos religiosos. Nessa altura eram os trabalhos pesados na aldeia, as cegadas, as malhadas, e escapava-me a isso (risos). Mas eu gostava de ir.

Nessas minhas viagens aprendi o inglês e o francês. Hoje, se me equilibro mais ou menos nessas duas línguas devo-o a isso.

Por outro lado, eu fiz o máximo que pude com esta gente aqui... Ainda tenho uma biblioteca lá na aldeia. Criei uma biblioteca naquela escola. Depois vim para aqui fiz o mesmo. Tenho aí uma biblioteca... livros para quem quer ler. Ninguém lá vai. Está aberto. Quem quiser leva. Infelizmente ninguém leva nem fica com nada.

Antigamente aqui em Vilar de Perdizes ninguém estudava. A gente fazia contrabando e ganhava dinheiro que chegava. Atrofiava-se com o contrabando. Na parte cultural ficou parada séculos. Só quando o contrabando acabou é que os pais mandaram os filhos estudar. Alguns já eram adultos e já não estudaram, só os mais jovens. Mas estes, também levados pela indolência, porque já tinham princípios de não esforço, já lá não vão. São poucos os que se safam. Então eu tenho feito algum trabalho de apoio a esta gente nesse domínio.

Tem uma função cultural, mais do que religiosa até?

A minha mensagem de padre passa pela acção... No jornal [Notícias do Barroso] não tem nada de especificamente religioso. Eu sei o que eles querem, o que eles precisam, então é isso que eu dou. A religião vai nas entrelinhas.


fotografia de Paulo Araújo
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O facto de ser mediático, como sabe que é, traz-lhe percalços, é bom para si, é-lhe indiferente?

Sou eu que me exponho. Eu é que consinto isso (e sou vítima disso). Se as pessoas encontram que eu tenho alguma coisa que possa dar, eu dou.

É o caso da sua participação nos "jantares de sexta-feira treze" e coisas assim? Faz isso porque lhe dá prazer?

Às vezes ir a algumas coisas para mim é pesado. Mas estou bem onde estou. Estou bem em todo o lado.

O prazer, a razão de eu fazer isso, sabes qual é?... A razão da sexta-feira treze é a de reviver culturas e dinamizar os restaurantes. Nas épocas mortas; em Agosto não fazia isto.

(Um contributo social, económico...)

A razão não é eu andar atrás das bruxas. É o fomento de uma oportunidade, organizada, com algum divertimento...

Mas tira algum prazer disso ou não?

Tiro, então! Mas se viesse dormir para a cama estava melhor. Preciso mais de relaxe e descanso do que de barulho e confusão.

Sente que tem, nessa área, uma espécie de «missão»?

Se eu não fizer ninguém faz. Eu faço aquilo que ninguém quer fazer. Arrisco.

E ganha alguma coisa com isso? É quase uma função oficial. É um dinamizador cultural e turístico. Noutras circunstâncias teria que ser pago.

Então não ganho?! Como, ganho a simpatia, também vou à festa...

Acha que as pessoas depois de si vão conseguir manter a dinâmica que tem?

Há algumas coisas que já são feitas por outras pessoas. Eu gostava de fazer mais formação para uma dúzia ou duas dúzias de jovens, um em cada aldeia... Ainda não há estrutura. Nas aldeias do Parque [do Gerês] já se criou um pouco esse espaço... Já há guias rurais. Só que funciona pouco e mal.

As pessoas queixam-se da interioridade, mas muitas vezes quem tem algum poder não tem formação ou vontade...

Alguns presidentes da junta são bons, outros não valem um pataco. Alguns acham que a terra não tem nada que se aproveite. E eu o que é que tenho feito? Aqui nos arredores as pessoas já vão despertando para outros valores. Continuam a botar a casa de pedra abaixo, mas andamos a combater isso. E tem resultado.

Fomento festas, fomento convívios a pretexto de santos que eles gostam. Se eles gostam... Sou iconoclasta nalguns aspectos, mas sou preservador de muitas tradições e restaurador de algumas.

É uma maneira das populações se manterem vivas?

Por exemplo, no dia de S. Martinho: continuo a fomentar o "Espantar os Espíritos", que as crianças fazem. Isso nem tem nada com o Padre. Alguém dirá: «então anda o padre a manter lá os espíritos pendurados!»... Nós já passámos dessa imagem primitiva, agora já não estamos a espantar os espíritos de ninguém. Estamos apenas a relembrar que o meu avô, o meu bisavô também faziam isto. Eu faço isto por memória do passado.

Fizemos as festas do Larouco, que não existiam. Um convívio entre galegos e portugueses, para aproximar. Mas descobriu-se que aqui em Vilar de Perdizes aquilo era nome de um deus, o Deus Larouco... Pensaram que eu andava a fomentar o paganismo.

A religião católica é que tem muito de paganismo...

Sim, se calhar nos rituais...

A festa do Larouco é menos religiosa do que social, cultural?

Anda à volta disso, o folclore, os gaiteiros, o presunto, as religiões populares, a paisagem, o convívio... Agora, eu falo da história do sítio. Chama-se Larouco. Larouco foi Deus... O Deus é o mesmo, Deus não tem nome (risos). Naquele tempo chamavam-lhe Larouco...

Continua a fazer desgarradas na missa?

Este ano passado fizemos... sem televisão, sem divulgação.


fotografia de Paulo Araújo
fotografia de Paulo Araújo


Está de todo arredado da organização do Congresso de medicina popular?

Não.

Porque é que no Congresso coexiste a medicina alternativa (chás, ervas, curandeiros), cuja credibilidade não será tão questionável, com charlatães como os "bruxos" e espécies afins? Porque não fazem uma triagem?

A triagem que a faça quem participa, vê e ouve.

O comunitarismo do Barroso, assunto que estudou e registou, era assente numa verdadeira solidariedade ou era mais o aspecto utilitário, prático, consequência do isolamento?

As duas coisas, mas mais a vantagem de possibilidade de ajuda, de poupar trabalho, de fazer trabalhos ordenados...

A solidariedade era induzida...

Era imposta. Isto foi povoado desde a pré-história e houve uma continuidade de experiências. Esta gente foi experimentando trabalhos, de agricultura, pecuária... O comunitarismo foi uma experiência que deu resultado e manteve-se.

Está na ordem do dia a chamada "pílula do dia seguinte". Há quem a considere uma pílula abortiva e há quem a considere contraceptiva. Em que momento é que considera que começa a vida humana?

A vida biológica é no acto da geração.

Todo o ser vivo tem direito ao respeito. Por outro lado, a sociedade ocidental está despovoada. Tem que haver um fomento de vida... Senão, estamos a destruir a sociedade, realmente.

Tendo em vista a existência de doenças como a sida, em que lado se coloca na questão dos contraceptivos?

Acho que a sida tem que se evitar a todo o custo. É uma doença mortal...

Aceita a utilização de contraceptivos?

Isso é com os casais. Eles é que têm que ter esse cuidado e escolha.

Com esse fim, de evitar doenças... Mas se for como controle de população?

Isso é da responsabilidade e da consciência, sem pesos, sem traumas, de qualquer casal.

Aqui no nosso caso, mas se nos reportarmos por exemplo a África?

Têm que ser orientados. A educação sexual faz falta para a prevenção da doença e para o controle da natalidade.

Não o choca nem vai contra os seus princípios que haja métodos contraceptivos? O preservativo, a pílula...

Isso é à escolha da consciência e da adaptação de cada casal. Se um médico diz que é prejudicial tomar a pílula acho que o casal faz mal em usar a pílula.

Não compartilha do fundamentalismo do Papa em relação a isso?

Acho que a Igreja não se deve meter nisso. Deve falar, aconselhar, mas não pôr nem contrapor regras oficiais, rígidas...

Curiosamente o Bispo de Bragança, que costuma ter uma postura "conservadora", agora teve uma a saída a propósito das drogas...

... Gostei dele.

Mas não fica assim um bocado...

Se calhar nunca teve uma oportunidade de se afirmar sobre esse tema como agora. Quando se afirmou, afirmou-se com o que pensava. Ele não é assim tão...

Mas a imagem que passa...

Em alguns aspectos tem umas opiniões muito... restritas. Muito rígidas.

São posições. Mesmo que um indivíduo seja empedernido no erro... Não é por maldade, não é por estupidez, não é inato. É por uma limitação ou até às vezes por uma imposição da Igreja. A mitra limita...


fotografia de Paulo Araújo
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E o bispo de Vila Real? As suas opiniões em relação à juventude actual, comportamentos...

O Bispo de Vila Real para mim é uma pessoa que escreve muito bem, fala muito bem... Tem algumas filosofias menos práticas...

Tem algumas atitudes que, se calhar, em vez de serem catalisadoras são desviantes.

É um feitio, um temperamento. Respeito isso. Eu já dei conta que cada um é como é e às vezes como não quer ser.

Quais são as suas relações com a hierarquia [da Igreja]? Boas, más?

São normais. Normalizadas... Sim.

Já li que se diz indiferente às críticas. Mas quem é que o critica?

Eu acho que toda a gente. Quanto mais a gente se expõe mais alvo é de que se diga se está bem, se está mal.

Mas tem críticas contundentes? Há algum grupo de pessoas específico?

Geralmente quem me critica são aqueles com quem trabalho. Os paroquianos. Os colegas com quem trabalho, aqueles com quem convivo ou não...

Há críticos em todos os substractos.

Eu respeito a liberdade de cada um. Não levo a mal que me vejam de uma forma distorcida ou incorrecta. Eu também não faço nada para que me vejam bem...

Faz aquilo que acha que tem que fazer?

Exacto. Às vezes sei que faço aquilo que é mau. Por exemplo na estrada sou incorrecto. Ando depressa.

O que é o pecado?

O pecado é aquilo que está errado. Na minha consciência aquilo em que eu estou a errar é pecado. O que eu faço na estrada por exemplo. Sei que é um erro. Pecado é uma forma de falar da Igreja. Às vezes risco essa palavra e ponho o mal. Pecado é o mal. O mal que faço a mim ou aos outros.

Alguma vez pôs em causa a existência de Deus?

Não.

 


'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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