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Unidos... até que a morte nos separe
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Da morte-resíduo à morte-horizonte
Com Nicolau de Cusa aprendemos que, no infinito, os opostos coincidem. Por conseguinte, tal como «no
círculo infinitamente grande a circunferência coincide com a tangente»,1 também num
espaço-tempo infinito a via rectilínea da vida integra o paradoxo recurvo da morte. Mas, dado que o infinito excede
a condição humana, não é fácil suprimir o único «problema filosófico
verdadeiramente sério: (...) o suicídio».2 É que a precariedade irrevogável da vida
impõe a urgência de saber se ela merece ou não ser vivida e se a auto-destruição soluciona o
drama estrutural da finitude. Entretanto, enquanto se almeja (ou não) resolver esse desassossego, há dois opostos
que, mesmo no finito, parecem reconciliados: o ridículo e a seriedade. Qual par inseparável, convivem em harmonia
a pantomina grotesca e quotidiana de cadáveres adiados e a séria inevitabilidade da morte, a marcar o ritmo
na eterna sinfonia do absurdo.
Sendo problemático em si e para si mesmo, o ser humano é um transeunte numa encruzilhada de
sombras, ainda que invente estruturas paralelas que lhe douram os passos com ilusórias evidências. É
provável que toda a questão que ele coloca e em que de modo mais nítido se coloca a si próprio em
plenitude resulte do sentimento de ser um ser-para-a-morte, sem outra saída realmente consistente que não
seja aquela em que a integração dessa futura circunstância se torne possível. Da morte tudo se disse
e dirá, e os interstícios de silêncio desse dizer são preenchidos pela recusa apaixonada da
aniquilação. O incómodo magnetiza a palavra, obriga-a a gravitar à sua volta, sem que ela lhe
apreenda o centro nevrálgico. É que a morte é, a um tempo, inefável mutismo e inesgotável
apelo semântico.
Do jardim de Epicuro recebemos o convite para conjurar o medo que dela emana, porquanto ao viver nada se sente
a seu respeito e, quando se morre, nada de concreto se sente. Portanto, não fará grande sentido que fira «como a
raiva dum cilício / A certeza da morte / Colada ao corpo».3 Será, então, tal certeza uma
presença-ausência equívoca ou um incontornável manancial de dúvidas e receios? Facto demasiado
óbvio, ela converte-se, na consciência individual antecipante, com maior ou menor intensidade, num evento escandaloso.
Por isso, torna-se necessário (ou talvez não) «justificar a vida em face da inverosimilhança da morte»,4
condenando-se ao deslumbramento, ou à lucidez.
No divertissement viu Pascal uma forma humana de ocultar esse pesadelo permanente. Vindo do exterior, o
divertimento permite embotar a sensibilidade em relação à vertigem do fim. Com efeito, os homens, não
podendo «acabar com a morte, a miséria, a ignorância, (...) tiveram a ideia de, para se tornarem felizes, não
pensar nelas».5 No pólo oposto, está a assunção do «ser-para-a-morte», como aparece em
Heidegger. Embora observemos a dos outros, a morte é sempre algo individual e pessoal, portanto incomutável. Quando
é tomada como possibilidade existencial, ela dá-nos a chave da existência autêntica. Antecipando-a, o
homem reconhece transitoriedade de todos os seus projectos, e, ao considerar tudo sub specie mortis, numa vivência
de angústia, ele possui o autêntico sentido da situação e do presente.6 Sartre
recusará esta perspectiva, vendo na morte um puro facto exterior ao indivíduo. «Eu não posso [escreve]
descobrir a minha morte, nem esperar por ela, nem tomar uma atitude para com ela, pois ela é o que se revela como
indescobrível, o que desarma todas as esperas (...)».7 Não sendo nenhuma estrutura que faça parte
das possibilidades da pessoa, ela não se confunde com a finitude. Com efeito, «a realidade-humana manter-se-ia finita,
ainda que fosse imortal, porque ela se faz finita ao escolher-se humana».8
Nesse sentido, a angústia não se vincula à morte: vincula-se à liberdade.
Àquela liberdade ante a qual, por vezes, as coisas se mostram numa «absurdidade fundamental».9 Nesta
súbita descoberta da existência, libertos os objectos dos seus nomes, da sua consistência e identidade,
advém o sentimento de náusea. Ora, essa ausência de estabilidade (desvanecida a palavra criadora) talvez
reflicta ainda a morte, não a do indivíduo, mas aquela que preside a todas as coisas enquanto marcadas por uma
intrínseca fragilidade. Movendo-se nesse registo, «num universo subitamente privado de ilusões e de luzes»,10
o homem sente-se como o estrangeiro, de Camus, retirando do seu exílio uma inocência que nada tem a
justificar. Na súmula de uma ordem-caos, o mundo é apreendido com náusea e espanto, esse mesmo espanto
através do qual o solitário, de Ionesco, se sentia «viver em estado de graça».11
Possibilidade mais própria ou mero facto externo e absurdo, a morte não é exorcizada
unicamente por meio do divertissement. Há outros recursos, como afastá-la para longe e inventar uma
probabilidade de se ser imortal; ou, então, faz-se uma aproximação absoluta, uma diluição
suicida, para que numa espécie de fusão mística se exceda o pensamento mórbido que dela decorre; ou
coisifica-se a morte do outro, que, morrendo, passa a ser igualmente uma coisa, lembrada em lápide, à sombra de
ciprestes, não contaminando a dignidade da pessoa; ou atribui-se o trespasse, ocorrência desagradável, ao
indefinido outrem, que não tem nome nem rosto; ou, por fim, acrescenta-se-lhe um suplemento de vida, como se de uma
pétala se tratasse, nascida tardiamente na flor que não era imarcescível e que, em todo o caso, já
não tinha lugar para ela.
Contudo, a morte lateja sempre, em cada degrau da escada que se sobe ou desce e que provavelmente não
leva a lado nenhum. É o árbitro invisível que suspende o jogo vital, e estender o olhar até ao limiar
do invisível também faz parte desse desafio. Qualquer que ele seja, o jogo vital pode não valer dez
réis de mel coado. Talvez seja esse o critério do verdadeiro jogo, sobretudo quando não se está
seguro de quando terminará, e ainda que num ultra-mundo se intuam fulgurações de imortalidade. Num jogo
assim, é dado a cada um mudar de regras e estabelecer outras medidas. Da morte como resíduo improvável e
sonegado à morte plasmando-se num horizonte sem ilusões — é o trânsito a efectuar quando se pretende
assumir a existência em todos os seus limites e possibilidades. Esse horizonte, mais do que o dos projectos de cada um,
é o espaço em que se desenrola a vida universal, sem qualquer trajectória definida. E, quando a morte
está sempre aí, «nem a vida é mensurável, nem viver é uma tarefa».12
Notas:
1 Alexandre Koyré, Do Mundo Fechado ao Universo Infinito, Gradiva, s/d, p. 15.
2 Albert Camus, O Mito de Sísifo, Edição Livros do Brasil, s/d, p. 13.
3 Miguel Torga, Orfeu Rebelde, Coimbra, 1970, p. 33.
4 Vergílio Ferreira, Aparição, Editorial Verbo, 1971, p. 35.
5 Blaise Pascal, Pensamentos, 2ª ed., Publicações Europa-América, s/d, p. 79.
6 Cf. Martin Heidegger, Être et Temps, Éditions Gallimard, 1986, p. 386.
7 Jean-Paul Sartre, O Ser e o Nada, Círculo de Leitores, 1993, p. 538.
8 Jean-Paul Sartre, op. cit., p. 538.
9 Jean-Paul Sartre, La Nausée, Éditions Gallimard, 1997, p. 184.
10 Albert Camus, op. cit., p. 16.
11 Eugène Ionesco, O Solitário, Editora Ulisseia, 1975, p. 82.
12 Stig Dagerman, A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Fenda, 1992, p. 18.
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