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editorial
rui ângelo araújo


Capa da edição n.º 15 (dezembro de 2000)
Capa da edição n.º 15
(dezembro de 2000)


A intelligentzia regional


Miguel Esteves Cardoso adaptou, em tempos, o conceito universal de intelligentzia à realidade deste país. Ao contrário das outras nações, o que nós teríamos seria uma indigentzia nacional. A tentação é demasiado forte para ser evitada: teremos nós uma indigentzia regional?

Olhando em volta, confessemos, torna-se difícil responder negativamente a esta questão. A cultura nos nossos lados reduz-se à etnografia ou confunde-se com a pompa dos eventos. O cheiro a mofo antecede qualquer acontecimento e a desertificação preenche os espaços. Temos universidade, está bom de ver, mas está longe a dinâmica e o cosmopolitismo que isso deveria significar. O dejá vu é a regra que norteia as escassas produções culturais que se atrevem a tal.

A intelligentzia regional ocupa-se a lastimar a falta de eventos ou a passear um falso protagonismo pelos salões. Nos jornais, quando fala de cultura, estende uma pomposa prosa de fin-de-siècle — e, como indica o francesismo, o século é o dezanove. Proliferam as publicações literárias duma imbecil jactância provinciana e a intelligentzia assobia para o lado, quando não aplaude. As instituições cumprem (quando cumprem) uma moralista cota mínima da alta cultura dos espaços vazios e alimentam a viciosa cultura popular. É o papel que lhes cabe enquanto gestoras de vontades. Eleitorais. Que faz a intelligentzia? Assessora os pelouros.

Mesmo que se perceba a função da Filandorra e do Teatro em Movimento, não pode deixar de espantar que o teatro que acrescenta alguma coisa ao Gil Vicente insista em ser feito para lá do Marão. Para só mencionar o mais fácil de resolver. Mas nem isso merece um pio de ninguém. Tudo está calmo.

Existe uma fronteira invisível no Alto de Espinho, a porta do "Reino Maravilhoso", onde as gentes que chegam ou regressam se despem de conceitos e passam a ostentar preconceitos. «Lastimemo-nos e aguardemos o maná dos céus», canta-se em coro.

Usar-se-á como argumento o estado geral do país; mas não é esta a terra onde se diz que «ninguém tem nada a ensinar ao transmontano»?

Onde param as vanguardas transmontanas? Existem? Recolheram-se a um qualquer cargo burocrático e aguardam a posteridade no silêncio tumular dos gabinetes? E as gerações de sangue-na-guelra? Procuram admissão nos mesmos gabinetes?

A verdade é que será preciso que algo mude para que afastemos de vez uma certa confusão entre intelligentzia e indigentzia.

 


ruiaaraujo@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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