O dia tinha-se recolhido calmamente. João fazia a ronda diária à erma quinta, por entre o
silêncio compacto dos seus pensamentos, quando deparou subitamente com a presença de Sancho. Estacou. Ficou
surpreendido, pois nunca tinha encontrado o cão a estas horas na eira. O bicho, que sempre fora algo estranho, estava
sentado sobre as patas traseiras, fincando-se nas da frente. O maxilar apontava transversalmente as nuvens movediças e o
olhar fixo parecia inquirir os astros. Petrificado. João relembrou as noites em que os lobos desciam da montanha e uivavam
à procura de carne. Mas da boca de Sancho não saía um único som. Parecia uivar para dentro.
Como o cão não lhe ligou, deixou-o estar sossegado. Quebrou o silêncio apoiando a bota
esquerda na pedra centenária e seguiu caminho. Alinhou novamente o pensamento, ao sabor do quadro sucessivo de imagens
exteriores, e deixou de ouvir os seus passos. Dirigia-se agora para o palheiro, acendendo recordações. João
retrocedia na única máquina do tempo que podemos manipular. A memória.
O caminho, pela direita, era ladeado pelo primeiro socalco que sustentava a vinha.
O sol abrasava a terra. Vindimava-se. A Maria estava debruçada sobre o bardo. Pernas e rabo ao
léu; com umas cuecas minúsculas como nunca tinha visto. Aquele sexo farfalhudo dilacerava as entranhas virgens do
João, como uma miríade de espelhos crepitantes. Resolveu dar uma pousa ao gado. Parou a chiadeira do carro.
O sangue fervia-lhe, quando ouviu a voz de sua mãe: «que estás prá aí especado a fazer, toca mas
é o gado». Olhou uma vez mais para Maria e seguiu. Eito fora, que ainda teria que fazer mais quatro viagens nesse
dia. A Maria sempre bela. A colher uvas.
Ao fundo do caminho ficava o palheiro.
À entrada deste, existia um coberto de colmo. Chovia. O inverno cobria as serranias com a
violência de um vento gélido. Estava sentado a ler o D. Quixote quando, sem mais nem para quê, lhe caiu
no lombo o cinto do pai. Devia ter ido fazer um recado à casa do Mateus. Relembrou a frase que proferiu «estava a acabar
um capitulo, já ia...». De pouco lhe valeram as desculpas. Ficou oito dias com as costelas empenadas.
Abriu a porta do palheiro.
Um rangido áspero de carvalho. Os seus companheiros entraram todos, em algazarra juvenil. Jogava-se
às escondidas. Debaixo da palha com a Isabel; que tinha olhos de mar. Mar? Ainda nunca o tinha visto. O primeiro beijo.
Acariciou-lhe os seios com vontade primitiva; sentindo a felicidade dos oceanos todos. Foram descobertos pelo Pedro, que
também gostava dela. Acabou-se o jogo. Isabel. O único amor da sua vida.
Novamente o ranger da porta. Fechou-a, sem ter olhado sequer para dentro.
Dirigiu-se para casa com a Isabel na imaginação. Quando deu por si, estava sentado em frente ao
espelho. Mais uma vez, notou que estava a ficar velho. Fitou-se como quem se quer ver por dentro e, como se não se tivesse
achado, desviou o olhar para a sombra que recortava a parede de cal. Quarenta e oito anos. Há doze que vivia só. Se
a Isabel... mas não... não valia a pena pensar nisso. Tinha ido para Lisboa com o Pedro; via-a às vezes
quando vinha passar férias. Ainda a tinha visto a semana passada na aldeia. Estava ela, o Pedro e uma cadela que se
chamava Maçã. Tratavam com o Alberto de umas obras a fazer na casa. Ainda penetrou com violência pelo
mar adentro; mas este já não era seu. Desde há muito tempo. Olhou-se novamente no espelho. O tempo. Agora
era tarde para muita coisa... ou para tudo. Deitou-se vestido. Tapou-se com dois cobertores de lã e pegou no Livro do
Desassossego. Passadas duas horas adormeceu. Com a Isabel no pensamento.
Quando o galo cantava pela terceira vez, João acordou. Levantou-se. Calçou as botas e cofiou
ligeiramente a barba em frente do espelho. Pegou numa gabela de tocos e acendeu o lume onde colocou o café matinal a
aquecer. O computador estava embutido na porta do forno, onde se cozeram muitas vezes vinte e duas broas em cada fornada. Outros
tempos. O tempo. Pegou num naco de broa com manteiga e no café; sentou-se numa banca enfrente ao forno. Apoiou o teclado,
que estava imundo, sobre as pernas e pôs-se a navegar na net. Deu uma vista de olhos por vários jornais.
Não lhe tendo prendido a atenção nenhuma notícia, pegou na comida para o cão e dirigiu-se ao quinteiro.
Sancho não estava. Lembrou-se da noite anterior e dirigiu-se para a eira. O animal sempre tivera um comportamento
peculiar, raramente ladrava e tinha um olhar estranho. Na aldeia quase todos tinham a sua ideia sobre o bicho.
A professora Zulmira afirmava que o Sancho ainda deveria ter algum parentesco com o Alberto Caeiro. A
maneira como olhava as coisas, as formas... «Parece que o animal se alimenta com os olhos» — dizia ela. Não era mentira.
Frequentemente especava e translucidamente olhava qualquer coisa que lhe chamava a atenção. Numa noite de Natal,
não tirou os olhos da Sagrada Família desde que esta entrou em casa pelas mãos da Maria. A sua visão
ficou presa naquela caixinha, parecia aguardar que o Menino Jesus viesse brincar com ele. E no entanto, Sancho nunca tinha
sido dado a brincadeiras. Brincar, só se fosse com o olhar.
O Manuel tinha uma ideia diferente. Para ele, o animal devia ser filho de um lobo e de uma ovelha. Só tal
cruzamento poderia conceber uma criatura daquelas. Pelo seu porte atlético, o bicho era um autêntico lobo. Pelo seu
carácter hermético — de nunca se meter com ninguém, nem mesmo com outros animais —, assemelhava-se a uma
ovelha. Todavia, como todos zombavam de tal pensamento, em público defendia unicamente a descendência de lobo.
A Madalena, tida como a bruxa da aldeia, tinha a criatura por demoníaca. Um encosto, era o que o
Sancho tinha; e por entre uma gargalhada soltava a língua: «vossemecê nem que corresse o mundo inteiro,
não arranjava um animal mais azado pra si». João não ligava e seguia caminho.
Na eira, Sancho permanecia exactamente na mesma posição. Chamou-o num tom gutural. O
cão seguiu-o até casa, mas não tocou na comida. De nada adiantava teimar com o animal; João sabia-o,
por isso não insistiu. Era a Maçã, era o que era. O dono notara-o, perfeitamente, desde a primeira vez que o vira a olhar para a cadela. Acreditava cada vez mais no aforismo que diz que um mal nunca vem só.
Tocou o gado para fora da corte, por entre a bosta lamacenta. Meteram-se a caminho da serra. Como dois
autómatos. Sem qualquer laivo de convicção; faziam os gestos estritamente necessários para se
deslocarem. As núvens fugidias tinham trazido uma chuva lenta. Inverniça. O Inverno estava à porta. Mais um Inverno.
O tempo. Sancho seguia com as orelhas a pingar, cabisbaixo. Como se procurasse um objecto valioso. Não olhava para o dono.
Ia ensimesmado. «Era a Maçã, era o que era», dizia de si para si o João a abrir a cancela. As vacas
entraram e os dois recolheram-se no casebre da propriedade. O cão estava exausto. Sem alimento há três dias,
não tardou a adormecer.
A campainha tocou. Isabel foi abrir. Era um homem bem vestido, com um pastor alemão pela trela.
Isabel mandou-os entrar para a sala. Uma sala ampla, onde estava a Maçã deitada. O homem pegou em dez mil
escudos. Entregou-os à dona da casa que, depois de servir umas bebidas, os meteu no bolso da mini-saia. Sorriu e disse
que seria melhor esperar mais um pouco. Foi colocar uma música. A Ave Maria, de Gounod. Dirigiu-se para a cadela
e, enquanto lhe fazia festas, colocou-lhe a trela. O homem quase lutava com o pastor alemão, que estava ansioso. Excitado.
Quando a Maçã foi penetrada, Isabel desviou a cara para o lado com pudicícia. O dono do pastor olhava
para as pernas de Isabel enquanto ela afagava a maçã. Rex, assim se chamava o cão, arfava com a
língua de fora. Passados alguns minutos depois do último espasmo...
Sancho acordou subitamente, com os olhos arregalados. A uivar. Simultaneamente, João deu um
grito e levantou-se. O grito do dono fez com que a criatura se calasse novamente. Saíram ambos do casebre assarapantados,
com a respiração alterada. O cão pulou o muro. Sentou-se na berma da estrada, que agora rasgava o monte.
João não tirava a vista de cima do animal. Nunca estivera tão estranho. Com os olhos esbugalhados, olhava
os carros a passarem. Como se estivesse fascinado com o avanço da humanidade. Fixava a velocidade das viaturas. Em
movimento.
Dardos lentos de chuva penetravam-lhe o corpo. Hirto. Subitamente, disparou-se numa corrida breve, com os olhos
fixos numa roda... que lhe passou por cima do crânio. O camionista parou a viatura e saiu apressadamente para observar o
sucedido. João desfechou para o local. Calado. Sem palavras. O condutor, que esbracejava violentamente, afirmava que nada
tinha podido fazer. Que tinha reparado no animal. Estático. Depois só sentira o solavanco e o estrondo do impacto.
Estrídulo. João assentiu com a versão do condutor, dizendo que por acaso tinha observado o acidente. Nunca
chegou a contar a ninguém o que verdadeiramente presenciara. Um suicídio. Suicídio puro. Sabia-o perfeitamente.
Conhecia o Sancho desde que nascera. Há doze anos. Era como que uma extensão de si próprio.
Pegaram ambos no animal, que tinha a parte anterior do corpo estraçalhada, e depositaram-no na berma da
estrada. João disse que ia buscar uma enxada para enterrar o bicho. O condutor dirigiu-se para a viatura, encolhendo os
ombros e falando sozinho, como quem não achava explicação para o sucedido.
João soltava os passos devagar, montanha abaixo; por entre as pedras mordidas pelo tempo. O tempo. Sempre
o tempo. Será que o tempo nunca pensou em se suicidar? Esta questão cristalizava-lhe os olhos, sem a conseguir
desatar. Estava numa tal atitude de desprendimento, que não sentia alegria nem tristeza. Ia neutro como as pedras que lhe
sustentavam o peso.
Num movimento, já rotineiro, atirou o olhar para um vetusto vidoeiro enraizado para a quelha. Aproximou-se
dele. Colocou a sua mão no tronco. Sobre a face caíam-lhe leves gotícolas. Do cabelo. Abraçou
longamente a árvore, numa atitude sôfrega. Calou-se ainda mais a ouvir a própria respiração.
A Isabel guardava o gado no lameiro, apropriando-se da sombra do vidoeiro. Velho. João avistou-a.
Sentada. Encheu-se de coragem e jurou para si que a ia pedir em casamento. Respirou fundo e aproximou-se. Estremecia com tanta
beleza. Era hoje. Mas ao olhar uma vez mais aquele mar imenso, onde amanhecia continuamente, fraquejou. Não pronunciou
uma única palavra.
Olhou para a árvore e avistou uma corda que lhe sustentava o peso quieto, o corpo frio; com o
início do inverno a cair-lhe nas costas. Demorou-se tranquilamente na visão do enforcado; sorvendo a beleza
estética do quadro-imagem que lhe entrava pela loucura dos olhos. Num brado longo e irracional chamou pelo Sancho;
calcorreou as cercanias à espera de nada. Nada. A palavra exacta; mortífera. E sentiu uma felicidade imensa por
nada mais ter a perder. Julgava-se a criatura mais feliz do mundo ao pensar na corda que tinha no quinteiro. Em casa. Junto
à casota do Sancho.
A casa. Quando entrou teve a sensação de estar cheia de ninguém. Olhou as fotos dos
familiares e as dos tempos de caloiro. No Porto. O tempo. O tempo. Resolveu consultar a meteorologia na net. Chuva para
os próximos dias. Perfeito; tal como na visão. Ao rodar a cabeça para desligar o computador, deparou com a
caçadeira utilizada para matar os lobos. Pensou que se a utilizasse teria menos trabalho e seria mais rápido.
Pôs um pé no parapeito do forno. Colheu a arma. Sorriu. Mas quando o cano lhe tocou o palato, a máquina
absurda da esperança trouxe-lhe a loucura dos oceanos. Isabel. E pensou que ainda podia ser feliz ao lado dela. Feliz.
De enxada às costas, ia assobiando o romance de D. Fernando. Encosta acima. Absurdamente ridente;
com os sonhos a soltarem-lhe os pés. Mais uma vez abriu a cancela. Feliz. Pegou na enxada e abriu a terra. Húmida.
Ao lado, sulcou o terreno e desenhou no lameiro uma cruz virada para a estrada. Escreveu ainda «Parente de Alberto Caeiro».
Saltou o muro. Estava cansado e sentou-se. Feliz. Olhava agora a estrada de outra perspectiva; divinizado. Olhava como quem
beija quando se sentiu inexplicavelmente atraído por uma viatura. Correu de braços abertos e abraçou o jipe.
O sangue diluía-se com a água que corria pelo asfalto.
Duas viaturas que vinham atrás pararam. Isabel saiu do jipe. Tinha deixado definitivamente o Pedro e
vinha viver com a Maçã para a aldeia. Nunca tinha sido feliz em Lisboa. Ao olhar para o corpo dilacerado
não reconheceu o João. Pensava ir a casa dele à noite...
No dia do enterro todos comentavam a Zulmira. A professora sonhara uma causa estranhíssima para a morte do João: o mar tinha-lhe subido à cabeça.