O habitual coro de carpideiras que actua em Trás-os-Montes manteve um inexplicável silêncio
nos dias que antecederam a aprovação do Orçamento Geral do Estado. O coro, constituído por pessoas que
dedicam a sua energia criativa a berrar pela piedade dos Governos, manifestou uma estranha contenção perante o
"cozinhado limiano". Ter-se-ia apoderado das nossas carpideiras histéricas um sentimento de responsabilidade? Terão
adquirido um sentido ético da vida das nações? Porque terão perdido a oportunidade de exigir aos nossos
deputados negócio igual? Já se sabe que os transmontanos, homens viris, não gostam de dar o queijo, mas
não faltariam aí produtos regionais para oferecer à troca: alheiras de Mirandela, presunto de Chaves, castanha
da Padrela, o sr. Barroso da Fonte...
O povo transmontano, tão afoito que costuma ser na berraria reivindicativa, distraiu-se nesta hora de
verdade? Encheu-se de falsos pudores? Fez reverência à ética? Ou simplesmente atrasou-se a lembrar os
superiores interesses transmontanos?
Poucas e tardias foram as vozes que se interrogaram como é que os nossos deputados socialistas, que o vulgo
tem como "empatas", o não foram no orçamento.
Se tivesse sido fiel ao seu próprio jeito lamuriento de ser, o povo transmontano teria sido exigente com
os deputados que elege. Não conseguiria o IP3, mas ver-se-ia guindado ao anedotário nacional, tal como o sr. Campelo.
As gerações futuras falariam do "orçamento da alheira" como agora falam do "orçamento do queijo"; os
nossos netos contariam as bravuras dos "recos de Mirandela" como os minhotos cantarão o "flamengo limiano"; as virtudes
negociais dos lacticínios não seriam mais mencionadas do que as do fumeiro. A anedota poderia não trazer
resultados práticos — era pouco provável que alguma cabeça se lembrasse do slogan "Salpicão Do Barroso:
Aprovado Por Maioria" — mas faria bem ao ego e enriqueceria a mitologia regional.
O certo é que, na falta de um movimento de fundo atempado, os deputados transmontanos viram-se, com
alívio, dispensados de apresentar a maravilhosa gastronomia deste reino no caldeirão do orçamento.
Mas, diz-se, não terá sido pela ética ou pelo interesse nacional que os nossos deputados
recusaram a façanha que se lhes oferecia. É que alinhar pelo perfil de Daniel Campelo tem inconvenientes. Outros
comportamentos "limianos" poderiam ser exigidos aos tribunos transmontanos. E estes, bons garfos, amantes dos prazeres da
culinária regional, capazes de trocar tudo por uma boa posta-à-mirandesa, perdidinhos por uma
feijoada-à-transmontana — temiam que, por coerência, tivessem um dia que fazer greve de fome a favor dos ouriços
de Carrazedo ou dos chouriços de Vinhais... E o transmontano, mesmo que socialista, suporta tudo — menos a fome.
Lê-se agora nos jornais que o nosso povo, lamentando a oportunidade perdida, pretende ir ao Minho em
romagem a solicitar os bons auspícios do sr. Campelo (que, de resto, é tão bom na choradeira como o melhor
dos transmontanos). O último a sair que feche a porta.