edição n.º 15 vai para a página do index da edição
 
1, 2, 3 caricatura
TEXTO: a. gouveia
CARICATURA: paulo araújo


caricatura de Paulo Araújo
[Photomaton de cinco PQPRDs.]
Chula do Minho
ou Requiem transmontano


O habitual coro de carpideiras que actua em Trás-os-Montes manteve um inexplicável silêncio nos dias que antecederam a aprovação do Orçamento Geral do Estado. O coro, constituído por pessoas que dedicam a sua energia criativa a berrar pela piedade dos Governos, manifestou uma estranha contenção perante o "cozinhado limiano". Ter-se-ia apoderado das nossas carpideiras histéricas um sentimento de responsabilidade? Terão adquirido um sentido ético da vida das nações? Porque terão perdido a oportunidade de exigir aos nossos deputados negócio igual? Já se sabe que os transmontanos, homens viris, não gostam de dar o queijo, mas não faltariam aí produtos regionais para oferecer à troca: alheiras de Mirandela, presunto de Chaves, castanha da Padrela, o sr. Barroso da Fonte...

O povo transmontano, tão afoito que costuma ser na berraria reivindicativa, distraiu-se nesta hora de verdade? Encheu-se de falsos pudores? Fez reverência à ética? Ou simplesmente atrasou-se a lembrar os superiores interesses transmontanos?

Poucas e tardias foram as vozes que se interrogaram como é que os nossos deputados socialistas, que o vulgo tem como "empatas", o não foram no orçamento.

Se tivesse sido fiel ao seu próprio jeito lamuriento de ser, o povo transmontano teria sido exigente com os deputados que elege. Não conseguiria o IP3, mas ver-se-ia guindado ao anedotário nacional, tal como o sr. Campelo. As gerações futuras falariam do "orçamento da alheira" como agora falam do "orçamento do queijo"; os nossos netos contariam as bravuras dos "recos de Mirandela" como os minhotos cantarão o "flamengo limiano"; as virtudes negociais dos lacticínios não seriam mais mencionadas do que as do fumeiro. A anedota poderia não trazer resultados práticos — era pouco provável que alguma cabeça se lembrasse do slogan "Salpicão Do Barroso: Aprovado Por Maioria" — mas faria bem ao ego e enriqueceria a mitologia regional.

O certo é que, na falta de um movimento de fundo atempado, os deputados transmontanos viram-se, com alívio, dispensados de apresentar a maravilhosa gastronomia deste reino no caldeirão do orçamento.

Mas, diz-se, não terá sido pela ética ou pelo interesse nacional que os nossos deputados recusaram a façanha que se lhes oferecia. É que alinhar pelo perfil de Daniel Campelo tem inconvenientes. Outros comportamentos "limianos" poderiam ser exigidos aos tribunos transmontanos. E estes, bons garfos, amantes dos prazeres da culinária regional, capazes de trocar tudo por uma boa posta-à-mirandesa, perdidinhos por uma feijoada-à-transmontana — temiam que, por coerência, tivessem um dia que fazer greve de fome a favor dos ouriços de Carrazedo ou dos chouriços de Vinhais... E o transmontano, mesmo que socialista, suporta tudo — menos a fome.

Lê-se agora nos jornais que o nosso povo, lamentando a oportunidade perdida, pretende ir ao Minho em romagem a solicitar os bons auspícios do sr. Campelo (que, de resto, é tão bom na choradeira como o melhor dos transmontanos). O último a sair que feche a porta.


agouveia@innocent.com
pabloarau@periferica.org

'Andarilho', símbolo do EITO FORA

EITO FORA: transmontano sem preconceitos

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