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Big Brother
Se não podes vencê-los...
Quer queiramos, quer não queiramos, Portugal está como está: pouca gente se importa com
algo que não seja o programa-sensação da TVI, o Big Brother. Nas ruas, nos cafés, nos empregos
e nos jornais fala-se disso e de pouco mais. (O episódio do queijo limiano e o novo livro do Harry Potter constituíram
duas heróicas excepções.)
Nestas circunstâncias, é muito difícil, se não impossível, alguém
manter uma pose mais intelectual, mais pessoa-de-grandes-temas: se queremos ter alguém com quem trocar dois dedos de
conversa é preciso fazer concessões — se não podes vencê-los, junta-te a eles.
Mas a rendição não deverá ser total. A atitude a assumir deverá ser a da
guerrilha subversiva: quando aparentamos aderir à causa do Grande Irmão estamos, de facto, a maquinar na sombra, a
corroer por dentro as suas estruturas. Como? Introduzindo à socapa doses não fatais de cultura, até que os
irmaníacos estejam irremediavelmente culturo-dependentes.
Posto isto, aqui vai a primeira dose, a tomar com moderação.
A Grande Irmaníada
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As moças e os varões arrebanhados
Que, da inculta pátria lusitana,
Por programas já muito degradados
A apostar na pobreza franciscana,
Em actos e perlengas apagados
Mais do que prometida a asnice humana,
E entre gente ignara edificaram
Nova escola que tanto sublimaram;
E também as memórias lastimosas
Dos voyeurs que foram dilatando
O share e as audiências viciosas
Do Balsemão andaram devastando,
E aqueles que por obras escassosas
Se vão, neste deserto, destacando:
Cantando espalharei por toda a parte.
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Cessem dos sábios lusos e dos estrangeiros
As fundamentais obras que escreveram;
Calem-se dos governantes os primeiros
Notícias das acções que não fizeram;
Que eu canto o dia-a-dia rotineiro
Por que as massas ocas se embeveceram.
Cesse tudo, ó ignorância santa!,
Que outro valor mais alto se alevanta.
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Já há largas semanas se aturavam,
De quinze em quinze dias se expulsando;
As galinhas a fama aumentavam
Do Zé, que os outros iam desprezando;
Na riqueza dos diálogos mostravam
A gramática que iam massacrando;
Juntavam-se os seus corpos finalmente,
P’ra boçal gáudio da mirone gente.
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Estavas, louca Sónia, posta em sossego,
Do teu calão dando mui doce fruito,
Naquele descanso de corpo ledo e cego,
Que a Estultícia não deixa durar muito.
A Relíquia dirigias sem medo,
Fazer o melhor era teu intuito:
Ao grunho ensinando a sua fala,
Disseste o que, pensando, o grupo cala.
Sobre ti salta o bruto fuzileiro,
Horrendo, fero, ingente e temeroso;
E mais coice não houve que o primeiro
Porque alguém logo o parou, pressuroso.
Ele, militar honrado, cavalheiro,
Vomitava ameaças de raivoso;
E tu, regrada fêmea, amansada,
Rogavas por perdão, ‘inda tombada.
Quantos rostos em frente à televisão,
Aguardando a notícia anunciada;
(O Sampaio comunica à nação
A recandidatura, ignorada);
Ó gente incônscia, ó povo vão!
Quem te deu alma tão desorbitada?
Deslumbras-te nesta futilidade,
Lá fora a vida passa, de verdade.
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